A América Latina voltou a ocupar um espaço privilegiado no noticiário internacional — e, desta vez, não apenas por episódios políticos isolados. Para o mercado, o que está em jogo é uma combinação de mudança no cenário macro, reprecificação de risco e viradas eleitorais relevantes em países-chave da região.
Esse movimento ajuda a explicar por que o BTG Pactual (BPAC11) intensificou a produção de uma série de relatórios sobre a América Latina nos últimos dias: há uma leitura de que 2026 pode consolidar um novo ciclo de oportunidades no bloco, com assimetrias claras entre os mercados — e com volatilidade concentrada onde o risco político segue mais elevado.
“Desde o início de 2025, temos defendido que a região estava entrando em uma nova expansão econômica de vários anos. Muitos dos principais ventos favoráveis de 2025 seguem sustentando o cenário para 2026 (…) além de um dólar americano mais fraco”, diz o BTG Pactual Global Research.
Um novo ciclo para a América Latina— e não apenas um “rali pontual”
Na avaliação do BTG, a América Latina entrou em uma expansão econômica de vários anos ainda em 2025 — e parte relevante desse pano de fundo segue de pé em 2026.
Entre os vetores citados pelo banco estão a aceleração da atividade com juros mais baixos, commodities em níveis fortes, expectativas de resultados eleitorais mais amigáveis ao mercado em países andinos, a normalização em curso na Argentina e a perspectiva de um dólar mais fraco.
Segundo os analistas, o interesse do mercado pela região não está baseado em uma única manchete, mas em uma leitura mais geral de que o cenário pode ficar mais favorável para ativos de risco, especialmente em bolsas.
Onde o BTG está reposicionando o “mapa” de América Latina
Esse pano de fundo aparece com força na estratégia regional do BTG. No relatório “LatAm LineUp”, o banco faz um ajuste objetivo em seu portfólio: elevou o Peru para Compra e reduziu o Chile para Neutro, numa mudança que, na prática, aumenta o peso do bloco andino dentro da carteira recomendada.
O banco afirma manter uma visão construtiva para a região andina como um todo, mas coloca o Peru como o principal destaque, sustentado por três pilares:
- momento macroeconômico forte,
- termos de troca em níveis recordes e
- a expectativa de uma eleição com viés pró-mercado.
Além disso, o BTG ressalta que os valuations peruanos estão “menos esticados”, o que abre espaço para expansão de múltiplos.
No restante do mapa, o BTG mantém as principais convicções do mês anterior: Brasil e Argentina seguem como overweight, enquanto México e Colômbia aparecem como underweight — com a Colômbia tratada como a principal exceção do cenário regional mais benigno.
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Colômbia entra no centro do risco — e da oportunidade
Se existe um país em que o BTG vê 2026 como um verdadeiro “divisor de águas”, esse país é a Colômbia.
O banco descreve o ano como um ciclo eleitoral decisivo, com eleições legislativas em março e presidenciais em maio, além de um segundo turno em junho. Segundo o relatório, o processo tende a moldar a direção do país pelos próximos quatro anos — com efeitos diretos para o mercado de ações local.
Além do debate doméstico, o BTG chama atenção para um elemento que ganha peso adicional nesta rodada: o papel de atores externos. Na leitura do banco, a atuação dos Estados Unidos no redesenho do cenário venezuelano deve aumentar a influência política e estratégica de Washington sobre a Colômbia — e isso pode se refletir na disputa eleitoral e no comportamento dos ativos.
“Com os EUA agora profundamente envolvidos na transição da Venezuela, a influência política e estratégica de Washington na Colômbia tende a aumentar”, afirma o BTG Pactual em relatório sobre o ciclo eleitoral colombiano.
O BTG ressalta que, mesmo com uma visão-base positiva para a possibilidade de mudança de regime e melhora na confiança do investidor, o caminho tende a ser marcado por volatilidade.
O banco também cita oportunidades em setores que sofreram com incerteza regulatória e crescimento morno, com destaque para estatais, óleo e gás, bancos e utilities.
Macro “em tempo real”: o noticiário virou variável de mercado
O aumento do foco do BTG na América Latina também aparece no acompanhamento macro de alta frequência, que reforça como o investidor tem lidado com uma região em que eventos políticos, fiscais e externos podem alterar rapidamente o humor do mercado.
No “Latam Daily”, o BTG compila atualizações e indicadores do bloco, com destaque para variáveis de atividade, inflação e fiscal.
O relatório também traz a atualização do Banco Mundial para crescimento regional: a instituição projeta expansão de 2,3% para América Latina e Caribe em 2026 e 2,6% em 2027, mas alerta para riscos relevantes, como tensões comerciais, queda de commodities, mercados financeiros voláteis, alto endividamento público, mudanças em políticas migratórias (com efeito sobre remessas) e impactos climáticos.
O que o investidor deve tirar disso
O conjunto de relatórios do BTG deixa uma mensagem clara: a América Latina começa 2026 com um ambiente em que o mercado enxerga mais espaço para assimetria positiva, mas com o risco político e fiscal ainda atuando como “filtro” para a alocação.
Na prática, o BTG sugere que o investidor está olhando para a região não como um bloco homogêneo, mas como um tabuleiro em que Peru ganha força, Brasil segue no radar, Argentina continua em normalização e Colômbia vira o epicentro da volatilidade — e, potencialmente, das maiores oportunidades.






