O Brasil ultrapassou a marca de 75 milhões de inadimplentes em março deste ano. Isso significa que 46,6% da população adulta do país está com dívidas em aberto, um dado que revela uma crise silenciosa nas finanças das famílias, o equivalente 5 em cada 10 inadimplente.
O levantamento foi realizado pela plataforma Pagou Fácil, da financeira Paschoalotto, com base em informações próprias e de instituições como o Serasa. O número representa um crescimento de 2,8 milhões de inadimplentes em relação ao mesmo mês de 2024, um aumento de 3,8%.
Ser inadimplente, segundo o economista Rafael Saab, da Paschoalotto, não significa necessariamente estar com o nome negativado nos órgãos de proteção ao crédito, como Serasa ou SPC. A inadimplência, nesse caso, é mais ampla: abrange todos que têm alguma dívida não quitada no prazo.
O dado revela um problema de fundo, o uso contínuo do crédito como extensão da renda, e sugere que o descontrole financeiro está mais comum do que se imagina.
Cresce o valor médio das dívidas e o peso no orçamento
O valor médio das dívidas também chama atenção: R$ 1.588 por inadimplente. No total, estima-se que as dívidas em aberto no Brasil somem R$ 438 bilhões, um salto de 13% em apenas um ano. Para muitas famílias, esse valor representa mais de um mês de renda, o que compromete não só a saúde financeira, mas também o consumo básico e a qualidade de vida.
Esse endividamento elevado não é recente. Segundo Flávio Ataliba Barreto, coordenador do Centro de Estudos do Nordeste da FGV Ibre, o Brasil mantém um nível de endividamento alto desde a pandemia. Ele explica que, embora a taxa de crescimento da inadimplência possa desacelerar nos próximos anos, o comprometimento da renda com dívidas já está em um patamar crítico.
“O comprometimento com dívidas já é bastante elevado”, afirmou Barreto ao Valor. Isso significa que boa parte da renda mensal das famílias já está destinada a quitar pendências anteriores, o que reduz a margem para consumo e poupança.
Crédito fácil e apostas online aprofundam o problema
A origem das dívidas revela outro lado da crise. Os principais vilões são bancos e cartões de crédito, responsáveis por 28,5% da inadimplência. Em seguida vêm contas básicas como água, luz e gás (20,6%), além de serviços diversos e instituições financeiras.
Com o crédito fácil e a falta de planejamento, o cartão de crédito se transformou em uma ferramenta de sobrevivência, mas com juros que rapidamente transformam pequenas compras em grandes dívidas.
Um fator adicional de risco é a explosão das apostas esportivas online. Conhecidas como bets, essas plataformas conquistaram cerca de 23 milhões de brasileiros, de acordo com dados da Anbima e do Datafolha. Para efeito de comparação, apenas 10 milhões investem em CDBs e 9 milhões em fundos de investimento.
Para Diego Martins Mosquim, diretor de planejamento da Paschoalotto, o avanço das bets indica um comportamento de risco crescente, em que promessas de ganho rápido substituem o investimento seguro, o que contribui para o agravamento da inadimplência.
Educação financeira é essencial para mudar o cenário
Diante desse quadro, é urgente reforçar a educação financeira desde os primeiros anos de escolaridade e promover campanhas amplas de conscientização. O problema da inadimplência não é apenas individual, ele afeta o crédito no país, a estabilidade econômica e a capacidade de crescimento sustentável. Famílias endividadas compram menos, investem menos e vivem sob constante estresse financeiro.
A combinação de inflação ainda elevada, juros altos (taxa Selic) e crescimento econômico limitado cria um ambiente hostil para quem já está fragilizado financeiramente. Sem ações coordenadas, como estímulo ao crédito responsável, regulação das apostas online e acesso facilitado a renegociações, a inadimplência tende a se perpetuar como um problema estrutural no Brasil.
Não basta culpar os hábitos de consumo: é preciso entender o contexto e oferecer caminhos reais para sair do vermelho.






