A geopolítica do petróleo sofreu um forte abalo no início deste ano, com a escalada da tensão na Venezuela. Em 3 de janeiro, uma operação militar de larga escala lançada pelos Estados Unidos resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores. A ação, confirmada pelo presidente Donald Trump, visou infraestruturas estratégicas como bases militares, aeroportos e portos, sob a justificativa de combate ao “narcoterrorismo” e busca pela estabilidade energética global.
Enquanto a Suprema Corte da Venezuela nomeou a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina por 90 dias, o mercado financeiro e o setor de energia brasileiro observam os desdobramentos com cautela. A mudança de regime no país vizinho, detentor de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, tem potencial para alterar a dinâmica de preços que afeta diretamente empresas brasileiras como a Prio (PRIO3) e a Brava Energia (BRAV3), de acordo com análise da Ágora.
Tensão na Venezuela: o impacto no mercado de óleo e gás
Apesar da magnitude do evento político, os preços do barril de petróleo Brent mantiveram-se estáveis no curto prazo. Dois fatores explicam essa inércia:
- Equilíbrio de Forças: A perspectiva de maior oferta venezuelana no futuro foi compensada pelo aumento imediato do prêmio de risco geopolítico.
- OPEP+: A decisão do cartel de manter a produção estável até o final de março serve como uma âncora para os preços atuais.
No entanto, o cenário de médio e longo prazo é de alerta para os investidores das petroleiras juniores brasileiras. Se o governo de transição facilitar a entrada de empresas americanas e as sanções forem flexibilizadas, a Venezuela poderá elevar sua produção — embora especialistas estimem que atingir a marca de 2 milhões de barris por dia exija investimentos massivos e tempo.
Por que Prio e Brava estão no radar?
O principal ponto de preocupação para a Prio e a Brava Energia reside no tipo de petróleo produzido. A Venezuela é conhecida por seu petróleo pesado, o mesmo perfil de extração de campos considerados importantes no Brasil.
- Prio: Opera o campo de Peregrino, que produz óleo pesado.
- Brava: Opera o campo de Papa Terra, também focado em graduações mais densas.
Se a Venezuela inundar o mercado com óleo pesado, haverá uma pressão natural para a queda dos preços desses ativos específicos. Como essas empresas dependem diretamente da cotação do barril para rentabilizar seus campos de revitalização, uma maior oferta venezuelana pode comprimir as margens de lucro e reduzir a competitividade do produto brasileiro frente ao vizinho.
A expectativa agora recai sobre o plano de transição em Caracas e a velocidade com que os novos investimentos americanos serão injetados na PDVSA (estatal venezuelana de petróleo). Para o investidor brasileiro, o momento é de monitorar se a “abertura das torneiras” venezuelanas será rápida o suficiente para desafiar o atual patamar de preços da Prio e da Brava.
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Desempenho de Prio e Brava
Para entender como a Prio e a Brava Energia reagem às variações do petróleo, é preciso olhar para o comportamento delas em 2025. O ano passado foi marcado por uma queda consistente nas cotações internacionais, o que serve de “termômetro” para o que pode acontecer com a nova oferta venezuelana.
Histórico Recente: 2025 foi o ano da prova de fogo
Em 2025, o petróleo Brent iniciou o ano em patamares próximos a US$ 82, mas encerrou dezembro na casa dos US$ 60-61 — uma queda de aproximadamente 25%.
- Impacto na Prio (PRIO3): A empresa sentiu o golpe no segundo trimestre de 2025 (2T25), quando sua receita líquida recuou 33% em comparação ao ano anterior, reflexo direto do Brent médio mais baixo (US$ 65,84 contra US$ 85 no período anterior). No entanto, a Prio mitigou perdas aumentando a produção para recordes históricos de 123 mil barris/dia.
- Impacto na Brava (BRAV3): Como resultado da fusão entre 3R e Enauta, a Brava passou 2025 focada em integração e eficiência. A queda do Brent pressionou as margens, mas a empresa conseguiu reverter prejuízos operacionais focando na redução do lifting cost (custo de extração).
Correlação com o Brent
As “Petro-Juniores” possuem uma correlação positiva muito alta com a commodity, mas com um efeito de alavancagem:
| Ativo | Sensibilidade ao Brent | Fator de Mitigação (Hedge Natural) |
| PRIO3 | Alta | Volume: Se o preço cai, ela tenta compensar produzindo mais (ex: Albacora Leste e Peregrino). |
| BRAV3 | Alta | Eficiência: A tese da fusão é reduzir custos para ser lucrativa mesmo com o Brent a US$ 50-60. |
O Tipo de Óleo
O que torna a tensão na Venezuela particularmente perigosa para essas duas empresas é que elas não produzem apenas “petróleo”, mas especificamente óleo pesado.
- O mercado de óleo pesado é um nicho. Se a Venezuela (que é o maior player desse tipo de óleo) voltar a exportar sem sanções, o desconto aplicado ao óleo pesado em relação ao Brent (o chamado spread) aumenta.
- Isso significa que, mesmo que o Brent fique estável em US$ 60, o preço que a Prio e a Brava recebem pelo seu óleo pode cair proporcionalmente mais do que o de empresas que produzem óleo leve.
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