A prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos provocou forte repercussão política e diplomática, mas a reação do mercado internacional de petróleo foi relativamente contida. O movimento dos preços indica que investidores e analistas estão mais atentos ao potencial de aumento da oferta de petróleo da Venezuela no longo prazo do que a possíveis interrupções imediatas no fornecimento. Esse comportamento reflete um mercado já acostumado a lidar com incertezas geopolíticas.
Mesmo diante do impacto simbólico da operação americana, as perspectivas para o mercado de petróleo em 2026 permanecem inalteradas. A avaliação predominante é de que o cenário de curto prazo dependerá do tipo de transição de poder que se consolidará no país. Enquanto isso, a percepção de um mercado global bem abastecido tem limitado movimentos bruscos nos preços.
Essa leitura também foi reforçada por economistas da Janus Henderson, que apontaram impacto reduzido no curto prazo. Segundo a gestora, apesar do choque político, o mercado ainda aguarda sinais mais claros sobre o rumo do novo governo antes de precificar mudanças estruturais mais profundas.
Transição de poder define riscos imediatos para a oferta
As implicações imediatas para a oferta de petróleo da Venezuela estão diretamente ligadas à forma como a transição política será conduzida. Uma mudança prolongada e instável aumenta o risco de interrupções no fornecimento, especialmente considerando que o país exporta cerca de 900 mil barris por dia, com destino majoritário à China.
Por ora, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o poder. Embora tenha adotado inicialmente um tom desafiador, suas declarações recentes indicam uma possível mudança de postura. Ela afirmou que a Venezuela e os Estados Unidos devem trabalhar juntos, o que pode sinalizar uma transição mais pragmática e menos conflituosa.
Caso esse cenário se confirme, cresce a probabilidade de suspensão do bloqueio americano a petroleiros sancionados, o que pode ampliar a oferta no curto prazo e pressionar os preços. Ainda assim, parte desse risco já vinha sendo precificada desde dezembro, quando as exportações venezuelanas sofreram restrições adicionais.
Oferta abundante mantém projeções de preços para 2026
Apesar da instabilidade política, analistas mantêm a previsão de que o mercado seguirá bem abastecido nos próximos anos. A expectativa é de que o Brent tenha média de US$ 57 por barril em 2026, refletindo uma combinação de oferta abundante e crescimento moderado da demanda global.
Para 2027, no entanto, existem riscos de queda adicional nos preços caso a oferta de petróleo da Venezuela aumente de forma significativa. Esse movimento dependerá não apenas da capacidade produtiva do país, mas também da resposta da OPEP+, que pode ajustar sua estratégia para evitar excesso de oferta.
Segundo a Janus Henderson, um eventual alívio das sanções e a retomada gradual do investimento estrangeiro poderiam revitalizar o setor energético venezuelano. No entanto, esse processo tende a ser lento e condicionado a mudanças institucionais mais profundas.
Produção venezuelana tem potencial, mas enfrenta obstáculos estruturais
Embora a Venezuela detenha algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, sua produção atual é limitada. Em 2025, o país produziu pouco mais de 900 mil barris por dia, menos de 1% do consumo global. Esse número contrasta com os quase 3 milhões de barris diários registrados no início dos anos 2000.
O declínio está associado à expropriação de ativos, má gestão, falta de investimentos e sanções internacionais. A recuperação da oferta de petróleo da Venezuela exigirá investimentos robustos em infraestrutura, algo difícil diante do histórico de disputas com empresas estrangeiras como ExxonMobil e ConocoPhillips.
Atualmente, a Chevron é a única empresa americana com autorização para operar no país. Para que novos investimentos ocorram, será necessário um ambiente regulatório mais estável e previsível, capaz de reduzir o risco percebido por investidores internacionais.
Impactos globais e disputa geopolítica no longo prazo
Uma eventual recuperação da produção venezuelana aumentaria a oferta de petróleo bruto pesado, essencial para refinarias da Costa do Golfo dos EUA. Historicamente, os Estados Unidos já importaram volumes expressivos desse tipo de petróleo, que hoje são supridos principalmente pelo Canadá.
Com isso, fornecedores tradicionais de petróleo pesado podem enfrentar pressão nos diferenciais de preço. Além disso, mudanças geopolíticas mais amplas podem redesenhar esferas de influência globais, com Rússia, China e Estados Unidos disputando protagonismo na região.
Segundo a análise da Janus Henderson, esse novo equilíbrio pode afetar não apenas preços e oferta, mas também a segurança energética global nos próximos anos, tornando a Venezuela novamente um ator relevante no tabuleiro internacional.
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