A queda recente das ações da 3Tentos (TTEN3), em meio ao aumento da tensão geopolítica envolvendo o Irã, abriu uma janela de oportunidade para investidores, na avaliação do BTG Pactual (BPAC11).
Para o banco, o mercado reagiu a um risco comercial que, apesar do barulho, tende a ter impacto limitado sobre o agronegócio brasileiro.
Além disso, os analistas destacam que o movimento pode até favorecer um dos vetores estratégicos da companhia: a produção de etanol a partir do milho.
A pressão sobre papéis ligados ao agro ganhou força depois que representantes do governo dos Estados Unidos sinalizaram a intenção de impor uma tarifa de 25% sobre bens exportados ao país por nações que continuem negociando com o Irã.
A medida ainda não foi formalmente transformada em lei, mas a sinalização pública já foi suficiente para gerar preocupação no mercado internacional e contaminar ações do setor.
“Embora a medida ainda não tenha sido formalmente implementada, ela já foi sinalizada publicamente e gerou preocupação internacional”, afirmaram os analistas do BTG Pactual.
O BTG minimiza o risco e coloca o impacto “em perspectiva”
Na visão do banco, porém, o movimento parece desproporcional quando colocado em perspectiva. O BTG lembra que discussões envolvendo tarifas e comércio internacional se tornaram quase uma rotina nos últimos meses, mas nem sempre se traduzem em impactos econômicos.
Por isso, o relatório busca dimensionar o quanto o Irã realmente pesa para as exportações brasileiras e quais commodities estariam mais expostas.
O BTG compara o comércio global de commodities a um sistema de “vasos comunicantes”, no qual os fluxos tendem a se reorganizar quando um destino se fecha. Se um comprador perde acesso a um fornecedor, ele busca alternativas; e o exportador, por sua vez, tenta redirecionar volumes para outros mercados.
“Gostamos de pensar no comércio internacional de commodities como um sistema de vasos comunicantes: os volumes tendem a encontrar destinos alternativos”, escreveram os analistas do BTG.
O desafio, segundo o banco, costuma estar menos no volume e mais na precificação: redirecionar exportações para mercados dispostos a pagar preços semelhantes nem sempre é simples. Ainda assim, o efeito final de uma eventual ruptura comercial depende, principalmente, do tamanho do país afetado na demanda por cada commodity.
Por que o Irã pesa pouco nas exportações do Brasil (com exceção do milho)
E é justamente nesse ponto que o BTG enxerga pouco motivo para estresse generalizado. O banco afirma que a exposição do Brasil ao Irã é limitada na maior parte das commodities agrícolas e também no mercado de proteínas.
Outro tema que costuma aparecer nesse tipo de discussão — o risco de fertilizantes — também não é considerado relevante no caso específico do Irã.
A principal exceção é o milho. Segundo o relatório, o Irã respondeu por 22% das exportações brasileiras do grão no ano passado, percentual acima da média histórica de 14% registrada nos últimos cinco anos.
Ainda assim, o BTG pondera que o Brasil exporta, em média, cerca de um terço de sua produção de milho, com a maior parte sendo absorvida pelo mercado doméstico.
Em um cenário extremo, no qual as exportações para o Irã fossem totalmente interrompidas, aproximadamente 5% da produção brasileira teria que encontrar outros destinos.
Para o banco, esse volume não seria suficiente para desequilibrar de forma relevante a dinâmica local de oferta e demanda, nem para provocar um choque significativo no setor.
O sell-off faz sentido? BTG diz que não
Para a 3Tentos, cujo papel passou a ser pressionado após o noticiário, o BTG considera que o impacto seria ainda menos relevante do que o mercado precificou. A leitura é que a ação pode ter sido penalizada pela percepção de que, em um ambiente de exportações menores, a companhia teria menos ganho no negócio de originação e trading de grãos — especialmente no milho que recebe de produtores rurais.
Mas, na avaliação do BTG, essa interpretação ignora um ponto central da tese: a empresa não precisa lucrar com a exportação em si. O valor está em capturar o melhor retorno possível a partir do grão dentro da sua cadeia, e não necessariamente no destino final do milho.
“A 3Tentos não necessariamente lucra exportando o grão, mas capturando o maior valor possível a partir dele”, avaliaram os analistas do BTG Pactual.
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Milho mais barato pode virar vento a favor para o etanol
Nesse sentido, o banco chama atenção para um efeito potencialmente positivo do ruído: se a percepção de risco derrubar preços de aquisição do milho, isso pode favorecer justamente um novo motor de crescimento da companhia.
O BTG lembra que a 3Tentos está prestes a iniciar a moagem de milho para produção de etanol, e um custo menor de matéria-prima tende a melhorar os spreads do negócio, ampliando a capacidade de monetização do grão além da lógica tradicional de comercialização.
No entendimento do banco, a queda do papel pode ter sido interpretada como um “problema de exportação”, quando parte do efeito pode ser o oposto: milho mais barato pode reforçar a tese de spreads para o etanol.
“Comprar milho mais barato poderia ser positivo para uma empresa que está prestes a começar a esmagar milho para produzir etanol”, escreveram os analistas do BTG.
BTG vê “oportunidade de compra” em TTEN3
Com isso, o BTG conclui que qualquer restrição futura no comércio entre Brasil e Irã deve ter implicações limitadas para os setores de agronegócio e proteínas dentro de sua cobertura. E, no caso específico da 3Tentos, o banco avalia que a reação negativa do mercado abriu uma assimetria favorável para quem busca exposição ao papel.
“Nesse contexto, vemos a recente pressão sobre as ações da 3Tentos como uma oportunidade de compra”, concluíram os analistas do BTG Pactual.






