As ações da Oncoclínicas (ONCO3) caem forte nesta terça-feira (24) após a empresa realizar uma chamada com analistas de sell-side para detalhar a potencial transação envolvendo Porto Seguro (PSSA3) e Fleury (FLRY3), após o fato relevante divulgado ontem pela Fleury indicando adesão ao termo não vinculante já assinado com a Oncoclínicas.
As ações decolaram após o anúncio na segunda-feira (23).
“O processo ainda é bastante preliminar, com incerteza significativa sobre como a dívida será equacionada“, foi a impressão geral dos analistas Samuel Alves e MariaResende, presentes na chamada.
Há cerca de R$ 1 bilhão ainda sem solução na estrutura de capital, e a companhia deve descumprir covenants (limites de endividamento) no quarto trimestre, tendo solicitado um standstill (acordo temporário entre devedor e credores) no serviço da dívida. A transação também exigirá unanimidade dos credores, o que adiciona mais uma camada de complexidade.
Estrutura da operação
A nova empresa concentraria aproximadamente 98% das receitas e cerca de 110% do Ebitda da Oncoclínicas. Em termos de participação acionária, Porto e Fleury deteriam 67% das ações ordinárias, enquanto a Oncoclínicas reteria 33% das ordinárias e 100% das ações preferenciais. No entanto, antes da conversão da dívida, a Oncoclínicas teria 67% da participação econômica, contra 33% de Porto e Fleury.
Os ativos não transferidos à nova companha são essencialmente aqueles disponíveis para venda: Hospital BH, Hospital RJ, BTS Goiânia e as operações na Arábia Saudita. Esses ativos são estimados em cerca de R$ 300 milhões — valor insuficiente para cobrir o resíduo de aproximadamente R$ 1 bilhão na estrutura atual da Oncoclínicas.
A ideia é transferir cerca de R$ 2,5 bilhões de dívida, contudo ainda não há clareza sobre quais instrumentos seriam incluídos, pois isso depende de negociações com assessores e credores. A dívida líquida proforma da Oncoclínicas é de aproximadamente R$ 3,5 bilhões, incluindo R$ 3,1 bilhões em dívida líquida mais obrigações de M&A, excluindo caixa mantido no Banco Master.
Riscos e incertezas
A Porto só teve acesso a informações não públicas após a assinatura do acordo não vinculante — até então, havia revisado apenas dados públicos, sem NDA firmado. A companhia fornece aproximadamente 92% dos serviços de oncologia da Porto, o que explica o interesse estratégico da seguradora na operação.
“Porto está pressionando por uma estrutura de dívida totalmente equacionada, pois qualquer risco de default poderia se transferir para a NewCo como entidade sucessora”, destacaram os analistas.
Apesar disso, as obrigações com fornecedores crescem rapidamente — agora em cerca de R$ 400 milhões, alta de R$ 93 milhões no último trimestre — e a Oncoclínicas interrompeu o serviço da dívida para preservar esses relacionamentos.
A receita esperada para 2026 foi revisada para R$ 5,8 bilhões, abaixo do guidance de R$ 6,3 bilhões, que segue em risco. Um novo waiver dos credores será necessário após o descumprimento dos covenants no quarto trimestre, e qualquer transferência de dívida exigirá aprovação unânime.
Impacto para Fleury e Oncoclínicas
“Caso o acordo não vinculante evolua para um contrato definitivo, teríamos uma visão inicialmente negativa para o caso de investimento da Fleury“, avaliam os analistas.
A companhia tem um modelo de negócios relativamente estável, caracterizado principalmente como uma história de dividendos e FCFE yield (Rendimento do Fluxo de Caixa Livre para o Acionista), e a transação poderia começar a alterar essa percepção — especialmente por colocar a Fleury como co-controladora de uma empresa altamente alavancada sob uma estrutura potencialmente mais arriscada.
Para a Oncoclínicas, contudo, um acordo com Porto e Fleury poderia oferecer suporte financeiro adicional e ajudar a estender o prazo de liquidez da companhia.
“Dadas as incertezas significativas em torno do caso de investimento e o balanço bastante pressionado, mantemos recomendação neutro para a Oncoclínicas”, concluem os analistas do BTG.
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