A capacidade de inovação da Nike (NIKE34) está encontrando dificuldades para se traduzir em vendas consistentes, o que tem ampliado as preocupações com a recuperação da companhia. Na avaliação do Bank of America divulgada nesta sexta-feira (25), os lançamentos recentes ainda não conseguiram compensar a fraqueza observada em categorias maiores e mais relevantes para o faturamento do grupo.
Diante desse cenário, o banco rebaixou a recomendação da fabricante de artigos esportivos para underperform, equivalente à venda, e reduziu significativamente suas projeções para os próximos anos.
O preço-alvo foi cortado de US$ 47 para US$ 30. O valor representa um potencial de desvalorização de 16,6%.
Os analistas passaram a prever crescimento negativo das receitas até o ano fiscal de 2027, abandonando a expectativa anterior de uma inflexão positiva já nos próximos trimestres.
“A inovação continua sendo ofuscada por um negócio de clássicos pressionado, enquanto os desafios de categoria e o ambiente macroeconômico se intensificam”, afirmaram os analistas Lorraine Hutchinson, Ryan Abbadi e Trevor Tompkins, em relatório divulgado pelo Bank of America.
Recuperação mais lenta
O banco cortou suas estimativas de lucro por ação para os anos fiscais de 2027 e 2028 em 11% e 12%, respectivamente. Além disso, reduziu o preço-alvo das ações de US$ 47 para US$ 30, refletindo tanto a piora nas perspectivas operacionais quanto uma avaliação mais conservadora para os papéis.
Segundo o relatório, um dos principais focos de atenção está na operação de atacado da Nike na América do Norte. Embora as vendas para varejistas tenham apresentado crescimento relevante nos últimos trimestres, o ritmo de vendas dos produtos ao consumidor final não tem acompanhado a mesma velocidade, gerando incertezas sobre a sustentabilidade dos pedidos futuros.
“Em alguns casos, as vendas ao consumidor estão ficando atrás das entregas aos varejistas devido ao enfraquecimento dos modelos clássicos e a lançamentos que ficaram abaixo das expectativas”, escreveu o time de análise do BofA.
Fonte: Nike China
China amplia preocupações
Outro ponto central da análise é a situação da Nike na China. O Bank of America avalia que a companhia enfrenta um ambiente de demanda mais difícil justamente no momento em que promove uma reorganização de sua estratégia digital e reduz a dependência de parceiros de comércio eletrônico.
As vendas da Nike na Grande China registraram queda expressiva recentemente, enquanto pesquisas de campo realizadas pela equipe do banco identificaram enfraquecimento da demanda por artigos esportivos, excesso de estoques e menor receptividade dos consumidores aos novos produtos apresentados pela marca.
Feedback das reuniões do BofA durante a visita virtual à China
Fonte: Bank of America
“Consideramos a reorganização dos canais online um primeiro passo importante, mas será necessário observar melhora na inovação dos produtos e fortalecimento da marca para impulsionar as vendas a preço cheio após a limpeza dos estoques”, destacaram os analistas.
Além da China, o banco vê pressão relevante na Europa, onde a companhia também enfrenta um ambiente econômico mais desafiador e concorrência mais intensa. Na visão dos analistas, a combinação desses fatores reduz a visibilidade para uma recuperação sustentável das receitas no curto prazo.
Lucros dependem de execução
Com as vendas pressionadas, o foco dos investidores tende a migrar para expansão de margens e controle de despesas. O relatório aponta que a nova diretoria financeira deverá colocar a disciplina de custos no centro da estratégia, mas alerta que há espaço limitado para cortes em investimentos ligados à demanda e ao fortalecimento da marca.
Mesmo com algum benefício potencial da redução de tarifas de importação em determinados mercados, o Bank of America considera que a dependência excessiva de ganhos de eficiência aumenta o risco de novas revisões negativas caso a evolução comercial fique abaixo das expectativas.
“Estamos menos confiantes de que o processo de reorganização do mercado e dos canais de distribuição será suficiente para sustentar a recuperação atualmente embutida nas expectativas de consenso”, afirmaram Hutchinson, Abbadi e Tompkins.