O Safra atualizou sua cobertura para o setor de transportes e reforçou a Localiza (RENT3) como a ação preferida, seguida pela Motiva (MOTV3).
Em relatório divulgado nesta segunda-feira (15), a casa ajustou as estimativas de toda a sua cobertura para incorporar um cenário de juros mais elevados por um período mais longo, com a premissa de Selic de longo prazo subindo para 10,5%, ante 9,5% projetados anteriormente.
Apesar da visão ainda construtiva, o relatório assinado pelos analistas Luiz Peçanha e Arthur Godoy promoveu duas mudanças de recomendação. Ecorodovias (ECOR3) e Movida (MOVI3) deixaram a recomendação neutra e passaram a compra, amparadas pela desvalorização das ações nos últimos meses, que abriu espaço para retornos mais atrativos.
“Mantemos uma visão construtiva com o setor, mas adotamos uma postura mais seletiva diante de condições macroeconômicas ainda desafiadoras, favorecendo operadores de qualidade ao mesmo tempo em que surgem oportunidades de reprecificação”, escreveram os analistas.
Locadoras e logística
No aluguel de carros, a Localiza concentra a maior convicção do banco. A recomendação de compra foi reiterada, com preço-alvo de R$ 54,90 e retorno total ao acionista estimado em torno de 40%. A ação negocia a 10,5 vezes o lucro projetado para 2026, desconto de cerca de 25% sobre a média histórica de cinco anos, o que sustenta a tese.
“A estratégia de aumentos sucessivos de diárias no aluguel de carros deve sustentar o crescimento da receita e gerar alavancagem operacional via diluição de custos, enquanto a renovação contínua da frota reforça a percepção do cliente e reduz despesas de manutenção”, escreveram Peçanha e Godoy.
A Movida, elevada a compra, acumula queda de 34% desde fevereiro, recuo que o Safra avaliou como exagerado e capaz de recompor a margem de segurança. O preço-alvo subiu para R$ 13,80, ante R$ 11,30, com potencial de 43%.
A Vamos (VAMO3) seguiu como compra, ainda tratada como uma história de recuperação (turnaround), embora o preço-alvo tenha caído para R$ 4,80, ante R$ 5,80, pressionado pelo aumento do custo de capital.
Na logística, a JSL (JSLG3) manteve a recomendação de compra e teve o preço-alvo ajustado para R$ 9,50, com o banco destacando a migração para um modelo mais leve em ativos, baseado em locação em vez de aquisição direta.
A Simpar (SIMH3), por sua vez, permaneceu neutra, com preço-alvo cortado para R$ 10,10, ante R$ 12,40, em razão da estrutura de capital alavancada que mantém o resultado sensível aos juros.
Infraestrutura e concessões
Na infraestrutura, a Motiva segue como a preferência do Safra. O banco manteve a recomendação de compra e cortou o preço-alvo para 12 meses para R$ 18,30, ante R$ 19,40, diante de um ciclo de investimentos mais intenso e despesas financeiras maiores. Ainda assim, o potencial de valorização calculado é de 31%, com taxa interna de retorno (TIR) real alavancada de 12%, cerca de 428 pontos-base acima do rendimento da NTN-B 2037.
“Seguimos vendo a Motiva como uma das plataformas de infraestrutura mais bem posicionadas do país, combinando uma base de ativos premium, opcionalidades de reequilíbrio contratual e um conjunto de iniciativas com potencial de geração de valor”, afirmam Peçanha e Godoy.
A Ecorodovias foi a grande virada do relatório. Depois de recuar 29% no ano, queda que o Safra considerou excessiva e ligada às incertezas macroeconômicas, a ação passou a oferecer 66% de potencial de alta e uma TIR real alavancada de 15,4%. O preço-alvo ficou praticamente estável, em R$ 12,10 ante R$ 12,20, com a inclusão da Rotas Gerais na base de ativos e premissas operacionais mais favoráveis compensando o ambiente de juros.
Entre as demais concessionárias, a Rumo (RAIL3) manteve a recomendação de compra, com preço-alvo reduzido para R$ 16,70, ante R$ 19. O corte refletiu a retirada das segunda e terceira fases da expansão do Corredor Norte rumo a Lucas do Rio Verde, projeto adiado pela companhia.
Já a Hidrovias do Brasil (HBSA3) ficou com recomendação neutra e preço-alvo de R$ 4,10, ante R$ 4,50, diante dos riscos de execução no Corredor Norte e de um fator climático que ganhou peso na análise.
“Destacamos uma probabilidade crescente de um El Niño de moderado a muito forte nos próximos meses, fenômeno que historicamente reduz o nível dos rios na região Norte no quarto trimestre e prejudica as operações de navegação ao longo dos rios amazônicos”, apontam os analistas.
Leia também:
Riscos no radar
O Safra apontou três fatores capazes de alterar as projeções. A trajetória dos juros aparece no centro da análise, ao lado de uma eventual alta no custo da dívida e de um quadro macroeconômico mais fraco do que o esperado, que afetaria diretamente um setor sensível ao crescimento da economia.
“Os principais riscos para as estimativas envolvem uma eventual alta no custo da dívida, que pode limitar a capacidade de refinanciamento, e um atraso no ciclo de afrouxamento monetário, com a taxa básica projetada em 13,5% ao ano no fim de 2026 e em 11% no encerramento de 2027”, afirmam os analistas.






