O Nubank (NU; ROXO34) pode estar diante da maior aposta de sua trajetória fora da América Latina. Segundo a Sky News, a fintech negocia a compra do Monzo, um dos bancos digitais mais bem-sucedidos do Reino Unido.
A operação poderia avaliar o britânico entre 8 bilhões e 10 bilhões de libras (US$ 10,6 bilhões a US$ 13,3 bilhões). O pagamento, pelo que foi publicado, combinaria dinheiro e ações do próprio Nubank.
A informação foi confirmada depois pelo Financial Times e pelo Brazil Journal. As conversas ainda estão no início. O Monzo, no entanto, já contratou o Morgan Stanley e a Qatalyst como assessores, e os termos preliminares estariam em discussão. O Nubank disse que não comenta rumores.
“Essa notícia nos surpreendeu, sobretudo diante de tudo o que o Nubank já tem em andamento”, afirmaram os analistas Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale, do BTG Pactual.
Movimento foge do padrão do Nubank
Há duas semanas, a companhia estreou oficialmente nos Estados Unidos (EUA) e lançou o Nu Global. O passo marca a transição de uma empresa focada na América Latina para uma plataforma global de banco digital.
Aquisições, contudo, nunca foram o caminho preferido para crescer. David Vélez, fundador do Nubank, costuma defender a construção orgânica. Ele já classificou como um grande erro a compra da Easynvest, a maior feita pela empresa até hoje.
O motivo foi a integração, muito mais difícil do que o previsto. Na visão de Vélez, teria sido melhor desenvolver a plataforma de investimentos dentro de casa.
Nos últimos dois anos, entretanto, o Nubank passou a usar mais capital para acelerar a expansão internacional. No fim de 2024, investiu US$ 150 milhões na Tyme, grupo de banco digital com sede em Singapura e operações na África do Sul e nas Filipinas. Ao comentar a chegada aos EUA, neste mês, Vélez deixou a porta aberta para aquisições.
Atalho para a Europa
O Monzo encerrou o ano fiscal de 2026, concluído em março, com cerca de 16 milhões de clientes. São 15 milhões de pessoas físicas e 1 milhão de empresas. Os depósitos somavam 25,7 bilhões de libras (US$ 34 bilhões).
A receita anual chegou a 1,7 bilhão de libras (US$ 2,3 bilhões), alta de 39% em um ano. O lucro antes de impostos (EBT, na sigla em inglês) ajustado foi de 173 milhões de libras, avanço de 20%. Pelo número de clientes, o banco já está entre os dez maiores do Reino Unido.
“Embora a avaliação publicada seja diluidora para o Nubank em termos de preço sobre lucro, a lógica estratégica não é difícil de enxergar”, observaram Eduardo Rosman, Ricardo Buchpiguel e Antonio Pascale.
A operação do Monzo ainda é quase toda britânica. O banco chegou recentemente à Irlanda e prepara a entrada na Espanha. Para o Nubank, portanto, a compra traria de uma vez uma franquia digital em escala, infraestrutura bancária local e uma base para avançar sobre a Europa continental, em vez de anos construindo outra operação do zero.
Há também afinidade de modelo. O Monzo nasceu digital, tem alto engajamento de clientes e marca conhecida entre consumidores, o que o aproxima mais do Nubank do que qualquer banco tradicional.
E existe uma ponte direta entre as duas empresas. O atual diretor financeiro (CFO) do Monzo, Tom Oldham, chefiou a área global de planejamento financeiro e compras do Nubank entre 2019 e 2023. Nesse período, a base de clientes da brasileira cresceu dez vezes.
Preço salgado e rentabilidade menor
O valor em discussão é alto. A faixa de US$ 11 bilhões a US$ 13 bilhões equivale a algo entre 16% e 20% do valor de mercado do Nubank, hoje perto de US$ 65,5 bilhões, segundo cálculo do BTG.
Também implica múltiplo de 51,5 vezes o EBT ajustado do Monzo, contra 16,6 vezes do Nubank. Pelo preço sobre lucro (P/L), a distância aumenta: 103,1 vezes, ante 20,9 vezes. Na última rodada de captação, em 2024, o britânico havia sido avaliado em 5,2 bilhões de libras.
A rentabilidade também fica longe. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) do Monzo é de 6,9%, ante 30,1% do Nubank. Os custos consomem 76,1% das receitas do britânico. No Nubank, 25,9%.
Revolut no caminho
A compra anteciparia o confronto direto com a Revolut, que nasceu em Londres, como o Monzo. A rival soma cerca de 80 milhões de clientes em 40 mercados e foi avaliada recentemente em US$ 115 bilhões.
A estreia do Nubank nos EUA já aproximou as duas empresas. Com o Monzo, a brasileira ganharia presença imediata no mercado de origem da concorrente e uma plataforma para disputar o resto da Europa.
O histórico do Monzo fora de casa, contudo, tem tropeços. O banco retirou em 2021 o pedido de licença bancária nos EUA, depois que reguladores indicaram que ele dificilmente seria aprovado. Em 2024, decidiu encerrar as operações no país.
A empresa também trocou de comando recentemente. TS Anil, presidente-executivo (CEO) de longa data, deixou o cargo em 2025 e, depois, saiu do conselho.
Monzo tem outras opções
A venda está longe de ser certa. O Monzo avalia uma nova rodada de captação, com a venda de até 15% do capital para fundos de venture capital, para bancar a expansão europeia. Outra saída seria uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em Londres, ou listagem dupla em Londres e Nova York. Não há cronograma.
Com tantas alternativas sobre a mesa, os analistas levantam uma hipótese sobre a exposição das conversas.
“Não temos evidência de que essa fosse a intenção do Monzo, mas, com nova rodada, IPO e venda em análise, a maior visibilidade pode ajudar a testar o interesse de investidores e compradores estratégicos”, ponderaram os analistas.
O BTG mantém recomendação de compra para o Nubank, com preço-alvo de US$ 21 para meados de 2027. A conta usa modelo de desconto de dividendos, com custo de capital de 14,5% e crescimento de 8% na perpetuidade. O banco projeta lucro líquido de US$ 4,165 bilhões em 2026 e de US$ 5,227 bilhões em 2027.






