A expansão dos agentes de inteligência artificial (IA) pode colocar à prova um dos fatores que sustentam parte do relacionamento entre clientes e instituições financeiras: a inércia. Essa é a avaliação do BTG Pactual (BPAC11) em relatório sobre bancos digitais, que analisa como ferramentas capazes de comparar preços, monitorar taxas e executar tarefas podem facilitar a migração de clientes em busca de melhores condições.
Segundo o banco, a discussão ganhou força a partir de um artigo da Net Interest sobre o impacto dos chamados agentes pessoais de IA nos serviços financeiros. A tecnologia poderia, por exemplo, analisar uma apólice de seguro, buscar cotações alternativas e até auxiliar o consumidor na troca de fornecedor. O mesmo mecanismo poderia ser aplicado a produtos bancários, como depósitos e financiamentos.
O ponto central é que muitos consumidores deixam dinheiro aplicado a taxas abaixo do mercado ou deixam de buscar condições melhores para empréstimos porque acompanhar ofertas e concluir uma mudança exige tempo e esforço. O BTG cita um estudo acadêmico sobre depósitos nos Estados Unidos segundo o qual bancos com clientes menos atentos tendem a pagar taxas menores sobre a poupança.
Brasil no radar
Para o BTG, o Brasil é um mercado especialmente relevante para essa transformação. Os pagamentos já são predominantemente digitais, enquanto o Open Finance permite que consumidores compartilhem informações financeiras entre diferentes instituições, criando uma infraestrutura para comparar produtos e custos.
Um exemplo citado pelo banco é a Decade, fundada pelo ex-CTO do Nubank (NU; ROXO34) Vitor Olivier e por Felipe Meneses. A empresa combina Open Finance, IA e atendimento humano para consolidar as informações financeiras dos clientes e identificar custos e riscos em seus portfólios.
O movimento também pode pressionar receitas bancárias que dependem da permanência dos clientes. O BTG cita o Itaú (ITUB4) como exemplo: a receita com tarifas de contas correntes de pessoas físicas caiu de R$ 761 milhões no segundo trimestre de 2024 para R$ 501 milhões no segundo trimestre de 2026, uma redução de 34% em dois anos.
A discussão não se limita ao Brasil. Nos Estados Unidos, o Nubank vem apresentando sua expansão como uma oportunidade para reduzir custos e aumentar a eficiência do sistema financeiro. Segundo dados citados pela administração da companhia, consumidores americanos pagam mais de US$ 75 bilhões por ano em tarifas bancárias visíveis e deixam de obter mais de US$ 300 bilhões em potenciais rendimentos sobre depósitos.
A adoção, contudo, ainda enfrenta obstáculos. O BTG destaca que confiança e regulação podem limitar a velocidade de expansão dos agentes de IA. Uma pesquisa mencionada no relatório mostrou que os entrevistados aceitariam deixar a tecnologia administrar cerca de US$ 20 mil, valor inferior ao saldo médio de uma conta citada no artigo da Net Interest.
Na avaliação do banco, decisões de menor valor e mais rotineiras devem ser os primeiros usos dos agentes, enquanto aplicações envolvendo investimentos maiores ou seguros de alto valor podem levar mais tempo para ganhar espaço. Ainda assim, o mercado de seguros no Brasil aparece como um segmento a ser observado diante do potencial de economia para consumidores.
Um sinal inicial de interesse veio da Muse, agente pessoal de IA da Meta. A ferramenta registrou 2,8 milhões de downloads nas duas primeiras semanas, ritmo inicial superior ao observado pelo ChatGPT. Para o BTG, o dado não representa uma comprovação de sucesso da tecnologia, mas indica que existe demanda inicial por ferramentas capazes de executar tarefas em nome dos usuários.
Para os bancos digitais, o avanço desses agentes pode mudar a dinâmica competitiva ao reduzir o custo de pesquisar, comparar e trocar produtos financeiros. Em vez de depender apenas da disposição do cliente para procurar uma alternativa, as próprias ferramentas de IA poderão fazer esse trabalho continuamente, aumentando a pressão por taxas, tarifas e serviços mais competitivos.
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