A Engie Brasil (EGIE3) não vai investir em novos parques eólicos e solares enquanto o setor elétrico não resolver os cortes de geração, conhecidos como curtailment. O recado foi dado no Investor Day da companhia, nesta quinta-feira (17).
O dinheiro vai para ativos já em operação (brownfield), baterias, linhas de transmissão e soluções de flexibilidade, como hidrelétricas reversíveis. Mesmo na compra de renováveis prontas, a exposição aos cortes será avaliada com cuidado.
Após o evento, o BTG Pactual manteve recomendação neutra para a ação, com preço-alvo de R$ 33 em 12 meses. O valor indica potencial de valorização de 7,7% sobre a cotação de R$ 30,65 usada no relatório.
Sistema mais complexo, novas oportunidades
Eduardo Sattamini, CEO da Engie, abriu o encontro com as conquistas de 2026. Citou a entrada em operação comercial da usina solar Assu Sol e as linhas de transmissão arrematadas no leilão de março.
Entraram na lista também o projeto de ampliação hidrelétrica garantido no leilão de reserva e o acordo sobre cortes de energia passados. Daqui em diante, a aposta está em ativos que ajudam o sistema a se autorregular, como baterias e compensadores síncronos.
“Na visão do CEO, com um sistema mais complexo e o surgimento de novas tecnologias, devem aparecer oportunidades para empresas com escala, conhecimento técnico e experiência internacional, como a Engie”, escreveram os analistas Antonio Junqueira, Gisele Gushiken e Maria Schutz, do BTG Pactual.
Cortes em quase um de cada quatro dias
O curtailment segue como uma das maiores incertezas do setor, e o quadro piorou. De janeiro a agosto de 2026, os cortes superaram 60% em 51 dias. No mesmo período de 2025, foram 30 dias.
“O problema já não se limita aos domingos ensolarados, quando a demanda costuma ser menor”, observaram Antonio Junqueira, Gisele Gushiken e Maria Schutz.
O perfil dos cortes também mudou. Em 2024, cerca de 70% vinham de limitações da rede, os chamados cortes por confiabilidade. Hoje, 67% são energéticos, reflexo do avanço da geração distribuída.
Para a Engie, a saída passa por eletrificação e sinais de preço ao consumidor. A empresa conversa com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) sobre transporte urbano.
A ideia é carregar baterias de ônibus durante o dia, quando sobra energia, e usá-las no horário de pico. Já os sinais de preço estimulariam o consumo na abundância e o reduziriam na escassez.
Preço de curto prazo esconde a escassez
O efeito do El Niño sobre os preços de energia continua difícil de prever. Setembro trouxe boas chuvas ao Sul e ao Sudeste, chegando ao estado de São Paulo. Contudo, o início do período úmido ainda é incerto.
A Engie vê risco de atraso das chuvas no Norte, e os próximos 1,5 a 2 meses devem trazer mais clareza. O verão, portanto, será decisivo para o cenário de 2027.
Em outra frente, a companhia critica o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças), o preço spot do setor. Há períodos com PLD perto de R$ 400/MWh, enquanto a térmica mais cara em operação custa entre R$ 1.200 e R$ 1.500/MWh.
“Na avaliação da companhia, o teto do preço spot esconde parte da escassez do sistema e enfraquece o sinal econômico para novos investimentos, incluindo baterias”, apontaram Antonio Junqueira, Gisele Gushiken e Maria Schutz.
Baterias aliviam o sistema
A Engie calcula que o país vai precisar de 4,5 a 6,5 GW em baterias até 2028. Parte vem do aumento da carga. Outra parte, do risco de atraso em térmicas por conexão à rede, gás, mão de obra e equipamentos.
A receita fixa das baterias deve ficar abaixo da concedida às térmicas no último leilão de capacidade. No entanto, ao carregar de manhã e descarregar no fim do dia, elas reduzem o uso de térmicas caras e derrubam os preços.
O efeito chega ao GSF (fator de ajuste da garantia física das hidrelétricas), ao risco hidrológico e ao custo dos contratos de disponibilidade.
Leilão exige cuidado com riscos
A Engie quer disputar o leilão de baterias e diz ter histórico, conhecimento técnico e custo de capital competitivo. Entretanto, a decisão final depende das regras, sobretudo da divisão de custos e riscos.
Quem decide quando a bateria carrega e descarrega é o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Assim, o investidor não controla a degradação do equipamento, e os lances precisam considerar temperatura, estado de carga, multas e ressarcimentos.
“A preocupação da Engie é que os participantes que precificam corretamente esses riscos percam o leilão para aqueles que os subestimam, o que pode gerar disputas mais adiante”, alertaram Antonio Junqueira, Gisele Gushiken e Maria Schutz.
Transmissão entra na mira
A empresa se prepara para o leilão de transmissão de 30 de outubro, com mais de R$ 8 bilhões em investimentos previstos. Estudos preliminares já foram feitos para escolher os lotes.
Outro certame está marcado para 30 de abril de 2027, com cerca de R$ 12 bilhões em investimentos. A pré-seleção dos lotes também começa agora, porque, segundo a diretoria, vencer exige estudos avançados bem antes do lance.
O que o BTG projeta
O banco estima Ebitda de R$ 7,089 bilhões em 2026, R$ 7,489 bilhões em 2027 e R$ 9,057 bilhões em 2028. O lucro líquido deve cair de R$ 2,858 bilhões em 2025 para R$ 2,280 bilhões neste ano.
A dívida líquida deve fechar 2026 em R$ 22,864 bilhões, ou 3,2 vezes o Ebitda. O rendimento com dividendos projetado é de 2,9% neste ano e salta para 9,6% em 2028.
O preço-alvo sai de um modelo de desconto de dividendos que não considera a renovação das concessões da Engie. A premissa é que a companhia chegue sem dívida líquida ao vencimento de sua última concessão.






