O BTG Pactual (BPAC11) reiterou recomendação de compra para a Localiza (RENT3), com preço-alvo de R$ 65 para os próximos 12 meses, com um potencial de valorização de 58,2% frente à cotação de R$ 41,08.
Em relatório, o banco destaca que o papel negocia hoje próximo ao piso histórico de múltiplo, ao redor de 10 vezes o P/E projetado para 2026.
O documento reúne uma série de temas que movimentaram o noticiário da companhia nas últimas semanas, entre eles discussões sobre a entrada de montadoras chinesas, a reforma tributária e o debate macroeconômico em torno da trajetória de juros, fator que, segundo o banco, tem pesado de forma relevante sobre o desempenho das ações no período recente.
Dados de crédito reforçam leitura de mercado resiliente
Segundo a B3, o financiamento de veículos somou 630 mil unidades em maio, sendo 390 mil usados e 240 mil novos. Os veículos leves lideraram o segmento de usados, com 334 mil unidades financiadas no mês, alta de 2% na comparação anual. Já o financiamento de carros com até três anos de uso, faixa que capta parte relevante das compras de locadoras, totalizou cerca de 67 mil veículos, avanço de 4% ante igual período do ano anterior.
O BTG pondera que essa é uma leitura mista, já que o ritmo de crescimento desacelerou de forma sequencial, especialmente nos veículos de zero a três anos, que haviam avançado 19% no mês anterior. Ainda assim, o banco vê essa moderação como esperada, dado o caráter sazonalmente mais fraco do segundo trimestre para o crédito, e classifica o resultado como relativamente resiliente no conjunto.
Dados do Banco Central sobre crédito automotivo mostraram carteira das pessoas físicas em R$ 413 bilhões, alta de 14% na comparação anual, com originação de R$ 20 bilhões no mês, crescimento de 16% ante o mesmo período de 2025. As taxas de juros médias recuaram para 26,3% ao ano nas operações com pessoas físicas, refletindo os cortes de Selic implementados nos meses anteriores. Por outro lado, a inadimplência avançou para 6,5% entre pessoas físicas e 5,3% entre empresas.
Para os analistas do BTG, o resultado reforça a visão construtiva sobre o mercado de crédito automotivo, sustentada pelo apetite das instituições financeiras e por uma atividade econômica ainda sólida. A instituição pondera, no entanto, que a deterioração marginal da inadimplência é um ponto que deve permanecer no radar nos próximos meses.
Mudança do Uber no Move Brasil pode esfriar demanda por elétricos
Outro tema destacado no relatório é o anúncio do Uber de que, a partir de janeiro de 2027, vários modelos elegíveis ao programa Move Brasil, entre eles o BYD Dolphin, mais popular entre motoristas de aplicativo, deixarão de integrar a categoria premium Black da plataforma.
A mudança reduz a atratividade do financiamento facilitado, já que um motorista poderia quitar o veículo ao longo de 72 meses e perder o acesso à categoria de tarifa mais alta antes de completar metade do prazo de financiamento.
O BTG avalia que a decisão do Uber pode elevar a régua para adoção de veículos elétricos entre motoristas de aplicativo, reduzindo a demanda por certos modelos que até então combinavam custo de aquisição menor com elegibilidade à categoria de tarifa premium.
“O anúncio acrescenta uma nova camada de complexidade à decisão de compra dos motoristas, que passam a considerar a elegibilidade futura nas plataformas como fator tão relevante quanto as condições de financiamento”, afirmou o banco.
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Renovação de cotas de importação beneficia BYD e reacende tensão com montadoras
O noticiário também trouxe a renovação, por mais seis meses, das cotas de importação com tarifa zero para veículos elétricos desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD), no valor de US$ 463 milhões, mantendo inalterado o cronograma de escalonamento tarifário. As alíquotas para veículos SKD e completos (CBU) devem subir para 35% já no mês que vem, enquanto os CKD permanecem em 14% até chegar a 35% em janeiro de 2027.
Segundo o BTG, a extensão das cotas pode compensar parcialmente o aumento da carga tributária sobre veículos importados, beneficiando principalmente a BYD, que no ano passado abriu fábrica baseada em SKD na Bahia, e reacendendo tensões com montadoras estabelecidas no país.
O banco destaca ainda que oito montadoras chinesas já confirmaram planos de produção no Brasil, sob três modelos distintos: instalação de fábricas próprias, parcerias com linhas de montadoras já estabelecidas e montagem terceirizada.
Na leitura do banco, essa industrialização é uma resposta estratégica das montadoras chinesas ao aumento programado das tarifas de importação e deve se traduzir em uma postura mais racional de precificação por parte desses novos entrantes, especialmente considerando o papel das locadoras como canal relevante de vendas de veículos novos no país.
Correção pontual nos preços de usados não altera tese de depreciação
Os dados mais recentes da Fipe mostraram queda de 0,7% nos preços de carros usados em junho, ante recuo de 0,2% no mês anterior, enquanto os preços de novos subiram 0,1%, em linha com a inflação. O BTG Pactual interpreta o movimento como uma correção pontual, associada ao lançamento dos modelos de ano 2027, ao aumento da concorrência das montadoras chinesas e ao efeito defasado das quedas de preços observadas em abril e maio.
O banco pondera que ainda é cedo para tirar conclusões estruturais sobre a tendência de depreciação, mas observa que a companhia opera desde o terceiro trimestre do ano passado com uma margem de segurança maior nesse quesito, evidenciada por margens de Ebitda de seminovos acima da faixa normalizada de 1% a 2%.
Na avaliação da equipe de análise, o quadro geral de depreciação segue consistente com os níveis normalizados, o que torna improvável qualquer revisão relevante para baixo nos lucros por conta dessa linha.
Corte de guidance da Hertz pode gerar efeito limitado sobre RENT3
Por fim, o relatório menciona que a Hertz revisou para baixo sua projeção preliminar de resultado do segundo trimestre, citando enfraquecimento inesperado no mercado americano de carros usados. A companhia americana passou a projetar Ebitda ajustado entre US$ 50 milhões e US$ 80 milhões, abaixo do consenso de US$ 89 milhões, com a depreciação líquida por unidade saltando para cerca de US$ 300 por mês no trimestre.
O BTG Pactual entende essa reviravolta como ligada a fatores macroeconômicos específicos dos Estados Unidos, como o enfraquecimento do mercado de trabalho americano, sem relação direta com a dinâmica de depreciação ou vendas de seminovos da Localiza, já que os mercados de locação e usados dos dois países seguem lógicas distintas. Ainda assim, o banco não descarta algum contágio pontual sobre o preço das ações da companhia brasileira, dado o porte global da Hertz no setor de aluguel de veículos.






