O programa Mover Brasil, lançado pelo governo federal para ampliar o acesso a financiamento de veículos por motoristas de aplicativo e taxistas, reacendeu a atenção do mercado sobre a Localiza (RENT3).
A iniciativa prevê até R$ 30 bilhões em crédito com taxas subsidiadas e prazos alongados, voltados à compra de carros novos mais eficientes, criando uma potencial mudança na decisão entre comprar ou alugar veículos.
A análise do BTG Pactual aponta que o risco existe, especialmente para a unidade Zarp, voltada a motoristas de app, mas destaca que o impacto tende a ser limitado.
“O risco é real, mas mais contido do que os números de manchete sugerem, considerando as restrições práticas do programa”, afirmam Lucas Marquiori, Fernanda Recchia e Samuel Alkmim.
De acordo com os analistas, o programa afeta a Localiza por três canais principais: demanda por locação, precificação de carros novos e dinâmica do mercado de usados. A companhia, como locadora, está exposta a todo o ciclo de vida dos veículos — compra, uso e revenda — o que exige avaliar os efeitos de forma integrada.
Demanda de locação e o papel do Zarp
No segmento de aluguel, a preocupação central é uma eventual migração de motoristas do modelo de locação para a propriedade. A Localiza tem cerca de 35 mil veículos expostos ao segmento de aplicativos, equivalente a aproximadamente 5% da frota total.
Para uma parcela dos motoristas, especialmente aqueles que alugam por falta de acesso a crédito, o Mover Brasil pode, em tese, tornar a compra mais viável. “Se a parcela mensal se aproximar do custo de aluguel, parte desses motoristas pode reconsiderar a decisão e migrar para a compra”, dizem os analistas.
Ainda assim, o BTG pondera que a migração deve ser limitada. Isso porque o acesso ao crédito depende de fatores como entrada exigida pelos bancos e avaliação de risco. Em muitos casos, a necessidade de pagamento inicial elevado pode restringir a adesão.
Além disso, o Zarp oferece vantagens operacionais que reforçam a retenção. Flexibilidade de pagamento, descontos em combustível e incentivos vinculados a plataformas como Uber aumentam o custo de oportunidade da compra.
“Para motoristas que valorizam flexibilidade e incentivos, a proposta de valor do Zarp continua sendo competitiva”, afirmam Marquiori, Recchia e Alkmim.
Impactos no mercado de carros novos e usados
No mercado de carros novos, o programa tende a gerar um impulso de curto prazo para veículos dentro do teto de R$150 mil. Montadoras já ajustam preços e descontos para enquadrar modelos no programa, o que pode sustentar volumes.
No entanto, a disposição dos bancos em conceder crédito é apontada como variável-chave. O risco elevado dos ativos — veículos com alta quilometragem e depreciação rápida — pode limitar a oferta efetiva de financiamento.
“O tamanho do programa e o volume efetivamente desembolsado devem divergir, dado o apetite ainda moderado dos bancos”, observam os analistas.
Já no mercado de usados, o impacto também tende a ser mais moderado do que o inicialmente temido. Embora o programa possa reduzir a demanda por veículos usados e elevar a oferta via renovação de frota, o perfil dos carros envolvidos difere do estoque da Localiza.
Veículos de motoristas de aplicativo costumam ter quilometragem elevada, enquanto a Localiza vem reduzindo a idade média de sua frota. Isso limita a sobreposição entre oferta adicional e o público-alvo da divisão Seminovos. Além disso, preços mais firmes no mercado de novos podem sustentar valores residuais.
No consolidado, o BTG entende que o Mover Brasil não altera de forma relevante a trajetória operacional da companhia.
“Não vemos o programa como um risco material para a Localiza, considerando as limitações de execução e o posicionamento competitivo da empresa”, concluem Marquiori, Recchia e Alkmim.






