A B3 ($B3SA3) encerrou 2025 com sinais mais consistentes de melhora operacional, apoiada por uma combinação que costuma ser decisiva para o desempenho da companhia: maior tração no mercado de ações e crescimento resiliente na renda fixa.
Os dados operacionais de dezembro, divulgados pela companhia na última quarta-feira (14), reforçam a percepção de que o quarto trimestre ganhou ritmo, abrindo espaço para um resultado mais forte no 4TRI25.
A leitura é compartilhada pelo BTG Pactual (BPAC11) e Safra, que enxergam uma aceleração relevante na dinâmica de receitas no fim do ano — e, por consequência, um trimestre com potencial de surpreender positivamente o mercado.
Dezembro consolida melhora em ações e reforça o tom do 4TRI25 da B3
O principal destaque do mês voltou a ser o desempenho do segmento de ações. Segundo o BTG, o ADTV (Average Daily Trading Volume) de ações atingiu R$ 30,5 bilhões em dezembro, acima de novembro (R$ 29,3 bilhões) e também superior ao patamar de dezembro do ano anterior (R$ 30 bilhões).
Ainda de acordo com o banco, a melhora também apareceu nas métricas de monetização, com a receita média diária avançando na comparação mensal, para R$ 11,1 milhões — mesmo permanecendo abaixo do nível de um ano antes.
“O principal destaque foi novamente o ADTV de ações, que atingiu R$ 30,5 bilhões em dezembro, reforçando tendências melhores no 4TRI e um momentum mais favorável no curto prazo”, afirmou o BTG Pactual.
Na visão do Safra, esse movimento reforça um pano de fundo mais construtivo para a performance do trimestre, especialmente porque os números de ações já vinham sólidos desde outubro e ganharam força no fechamento do ano.
Renda fixa sustenta o crescimento e fortalece a diversificação da receita
Se o avanço do ADTV ajuda a explicar o “tom” mais positivo do trimestre, a renda fixa entra como o componente que sustentou a aceleração de forma mais estrutural. No recorte do 4TRI, o Safra chama atenção para a expansão robusta de renda fixa, com crescimento expressivo em emissões e volumes.
As emissões de renda fixa foram fortes, com alta de 34% na comparação mensal e 25% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o banco. Além disso, o volume de instrumentos de renda fixa em aberto também seguiu em trajetória de crescimento, avançando 1% no mês e 20% no ano.
Esse desempenho contribui para reforçar uma tese que o mercado tem destacado cada vez mais: a B3 vem ampliando o peso de linhas mais recorrentes e menos dependentes de um ciclo “perfeito” para a bolsa — o que melhora a previsibilidade e reduz parte da volatilidade do resultado.
“Do ponto de vista qualitativo, os dados mensais seguem sustentando um cenário mais favorável, com negócios recorrentes ganhando relevância e apresentando crescimento consistente”, destacou o BTG Pactual.
Derivativos melhoram no mês, mas ainda mostram um quadro misto
No caso dos derivativos, o quadro segue mais heterogêneo. O Safra observa que houve melhora sequencial no mês, mas com pressão relevante em algumas linhas específicas, especialmente em contratos ligados a criptoativos e câmbio.
O banco aponta que o volume médio diário desacelerou na comparação anual, ainda que tenha avançado em relação ao mês anterior. Ao mesmo tempo, houve melhora em receita por contrato e avanço relevante na receita mensal, indicando que a monetização compensou parte do efeito de volumes.
Já nos derivativos OTC, o Safra destaca uma reversão na tendência de queda nas novas emissões, o que pode ajudar a estabilizar a dinâmica dessa linha ao longo dos próximos trimestres.
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Receita do 4TRI25 ganha tração — e pode vir acima do consenso
Com a consolidação dos dados de outubro a dezembro, o Safra afirma que o mercado passa a ter um quadro mais claro sobre o ritmo de receitas no trimestre. Na projeção do banco, a receita líquida do 4TRI25 deve chegar a R$ 2,868 bilhões, alta anual de 8%, com aceleração importante na divisão de Mercados e melhora em ações e renda fixa.
No BTG Pactual, a leitura é de que o trimestre ficou mais forte do que o esperado inicialmente. O banco afirma que o ADTV do 4TRI veio 18% acima das estimativas internas, enquanto os volumes de registro em OTC ficaram acima do previsto.
Após incorporar os dados operacionais no modelo, o BTG passou a estimar que as receitas do 4TRI podem ficar cerca de 5% acima do consenso.
“Depois de incorporar os dados operacionais de outubro a dezembro no nosso modelo, estimamos receitas do 4TRI cerca de 5% acima do consenso, reforçando o viés de alta”, disse o BTG Pactual.
Benefício fiscal pode turbinar o lucro do trimestre
Além da melhora operacional, há um fator que deve amplificar a leitura positiva do 4TRI, o impacto do benefício fiscal ligado ao IoE. O BTG relembra que a companhia identificou cerca de R$ 5,5 bilhões em benefícios fiscais não utilizados, após desdobramentos favoráveis no Supremo Tribunal Federal.
Desse montante, R$ 1,5 bilhão já havia sido anunciado no fim de 2025, enquanto o restante deve ser distribuído entre 2026 e 2028, sujeito a limitações de reservas de lucro.
Na visão do Safra, esse efeito pode resultar em uma alíquota efetiva muito baixa no trimestre e elevar o lucro líquido do período. O banco estima um lucro potencialmente próximo de R$ 1,8 bilhão no 4TRI25, com uma parcela relevante explicada justamente pelo benefício fiscal.
Recompra de ações entra no radar como sinalização ao investidor
Outro ponto que chamou atenção do Safra foi o ritmo de recompras no trimestre. O banco destaca que a companhia recomprou 96 milhões de ações no 4TRI, o equivalente a aproximadamente 1,8% de yield — um movimento que tende a ser bem recebido pelo mercado por sinalizar disciplina de capital e potencial suporte ao preço do papel.
2026 pode ter um “setup” melhor — mesmo sem euforia de volumes
O BTG avalia que os dados mensais e a evolução do mix de receitas sustentam um cenário mais construtivo para a B3. O banco reforça que a companhia vem reduzindo sua dependência do ciclo de ações, ao aumentar a participação de linhas ligadas a renda fixa, tecnologia, dados e serviços.
“As dinâmicas recentes ajudaram a reduzir o beta dos lucros da B3, enquanto a expansão do pipeline de iniciativas mostra capacidade de gerar alpha mesmo em um ambiente desafiador”, afirmou o BTG Pactual.
Além disso, o banco cita que executivos da companhia têm apontado potenciais vetores de melhora de atividade à frente, como queda de juros, maior volatilidade e o ciclo eleitoral, que podem funcionar como “ventos de cauda” para o mercado.
Ainda assim, a mensagem central segue sendo de prudência: 2026 não é visto, necessariamente, como um ano de forte recuperação de volumes, mas sim de um ambiente melhor do que 2025 — com uma melhora mais significativa possivelmente ficando para 2027.
Riscos seguem no radar, mas competição ainda parece “mais teórica”
Apesar do tom mais construtivo, o investidor ainda precisa acompanhar alguns riscos de execução e de cenário. Um deles é o comportamento dos volumes em ações, que pode voltar a arrefecer caso o mercado perca tração ou a volatilidade diminua.
Outro ponto é a discussão sobre competição no setor. O BTG afirma que, apesar de notícias recentes, a administração não tem observado mudanças relevantes na dinâmica competitiva — reforçando a visão de que o risco ainda é mais teórico do que prático.
“Não observamos mudanças relevantes na dinâmica competitiva, apesar das notícias recentes, o que reforça que a competição segue mais teórica do que prática neste estágio”, afirmou o BTG Pactual.
O que o investidor deve acompanhar agora
Com dezembro mais forte e um trimestre que ganhou tração, a B3 entra na temporada de resultados com sinais mais positivos do que os vistos em parte de 2025. A combinação de ações em recuperação, renda fixa sustentando crescimento e efeitos extraordinários no resultado pode ajudar a consolidar um 4T25 mais robusto.
O mercado, agora, deve acompanhar se a melhora operacional observada no fim do ano se mantém nos primeiros meses de 2026 — e, principalmente, se o “piso” de atividade defendido pela companhia começa a se transformar em uma retomada mais clara de volumes ao longo do ciclo.






