Se você bebe vinho no Brasil, é bem provável que tenha um contato salvo no celular que entrega em casa, sem nota, sem imposto e com preço bem mais atrativo do que o da loja. Esse contato tem um nome no setor: o “contatinho do WhatsApp”. E ele movimenta, segundo pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (IDESF) com coautoria de Marcelo Copello, um dos críticos de vinho mais influentes do Brasil, mais de R$ 2 bilhões por ano, considerando impostos não arrecadados e preço de varejo.
Para ter noção da escala: é um volume maior do que tudo que o Brasil importa legalmente de Portugal, França e Itália juntos. Os órgãos de segurança estimam conseguir apreender entre 5% e 10% do que entra.
Esse mercado não surgiu do nada. Até 60% do preço de uma garrafa legal é imposto, entre tarifa de importação, IPI, PIS, COFINS e ICMS. Quando a diferença de preço entre o produto formal e o informal ganha essa magnitude, o consumidor faz a conta e o mercado paralelo aparece para resolvê-la. No fundo, é uma resposta racional do consumidor a um modelo tributário que encarece demais o produto legal.
Em 2025, o mercado formal de vinhos e espumantes movimentou cerca de R$ 21,1 bilhões, crescimento de quase 10% em relação ao ano anterior, segundo a Ideal.BI. São números que mostram apetite real de consumo. Mas com R$ 2 bilhões circulando fora do sistema, fica claro que uma parcela relevante desse apetite está sendo satisfeita em outros caminhos.
O que muda
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor em maio depois de 26 anos de negociação, trouxe alguma notícia boa para o setor. Os espumantes europeus de qualidade, como Cava, Crémant e Franciacorta, já tiveram a alíquota de importação zerada de imediato para rótulos acima de US$ 8 o litro, o que na prática inclui justamente os que costumam custar a partir de R$ 150 no varejo.
Para os vinhos, a redução da tarifa de 27% será gradual ao longo de 8 a 12 anos. Em ambos os casos, o consumidor não vai sentir diferença na gôndola tão cedo: as outras camadas tributárias continuam no lugar, os estoques que já estavam no Brasil seguem com a tributação antiga e as importadoras tendem a recompor margem antes de repassar qualquer redução.
E tem mais uma camada de risco que o setor acompanha com atenção. A reforma tributária prevê a criação do Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”, que incidiria sobre bebidas alcoólicas de forma monofásica, sem possibilidade de compensação ao longo da cadeia. Se aprovado dessa forma, o vinho fica mais caro no mercado formal, e o mercado informal, que já parte com vantagem de preço considerável, ganha ainda mais espaço.
R$ 2 bilhões fora do sistema não é número pequeno. É demanda comprovada com acesso bloqueado. O consumidor brasileiro quer vinho, paga por vinho e, quando o preço formal não cabe no orçamento, encontra outro caminho. O contatinho no WhatsApp é sintoma, não causa. E sintomas desse tamanho merecem mais do que uma operação de apreensão por semana.
(Fontes: IDESF/Marcelo Copello; Ideal.BI; reforma tributária, Imposto Seletivo)
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