As terras raras e outros minerais críticos deixaram de ser apenas insumos industriais e passaram a ocupar o centro da disputa econômica e geopolítica. O país que controlar a extração, o processamento e o fornecimento desses materiais poderá influenciar cadeias que vão da indústria automobilística à inteligência artificial e ao setor aeroespacial.
Essa foi uma das principais conclusões do painel “Terras raras: a nova fronteira da disputa global por recursos”, realizado durante a MW, com a participação de Ernest Scheyder, jornalista e autor do livro The War Below, e Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos.
Para Scheyder, o poder associado a esses recursos explica por que os governos voltaram a participar diretamente do financiamento da mineração, em uma ruptura com a postura predominante há cinco ou seis décadas.
“As terras raras são segredos de poder. Quem as controla terá enorme poder de barganha nas discussões econômicas, na indústria espacial e em outras áreas”, afirmou Scheyder.
O desafio, segundo os participantes, vai além de encontrar depósitos minerais. Novos projetos exigem capital intensivo, conhecimento técnico, licenciamento, infraestrutura e capacidade de refino. Sem esses elementos, a existência de reservas não garante autonomia produtiva.
Governos voltam a financiar a mineração
Scheyder destacou que a procura das mineradoras por recursos públicos tem superado o volume disponibilizado pelos governos. Para ele, esse desequilíbrio mostra que o financiamento estatal não deverá ser apenas uma resposta temporária à disputa por minerais críticos.
“Os governos perceberam que têm um papel no desenvolvimento da mineração moderna. É uma abordagem totalmente diferente da observada há 50 ou 60 anos, quando as mineradoras não queriam qualquer envolvimento com os governos dos países onde atuavam, especialmente do ponto de vista do capital”, afirmou.
A mudança ocorre porque interrupções no fornecimento de um único mineral podem atingir linhas inteiras de produção. Scheyder citou o caso de uma fábrica da Ford cuja operação foi interrompida em meio às tensões geopolíticas envolvendo comércio e tarifas. O episódio, avaliou, ajuda a dimensionar o risco caso uma restrição alcance não apenas um produto, mas toda uma cadeia industrial.
O capital público passou, assim, a ser tratado como instrumento de segurança econômica. Países ocidentais tentam reduzir a dependência da China, mas precisam financiar projetos que levam anos para atingir escala comercial e enfrentam incertezas tecnológicas, ambientais e regulatórias.
Brasil tem conhecimento, mas esbarra no custo de capital
O Brasil aparece nessa corrida com reservas minerais relevantes, tradição na atividade e profissionais qualificados. Kautz destacou que a presença de uma companhia do porte da Vale ajudou o país a desenvolver conhecimento técnico e uma cadeia ligada à mineração.
O principal obstáculo doméstico, porém, está no financiamento. Com juros reais próximos de 8% a 9%, projetos de maturação longa precisam oferecer retornos muito elevados para se tornarem economicamente viáveis.
“Minha área de conhecimento é o custo de capital no Brasil, e ele é muito alto. Temos uma das maiores taxas de juros reais do mundo. Quando a taxa está próxima de 8% ou 9% em termos reais, a questão é como tornar esses projetos viáveis”, afirmou Kautz.
Scheyder avaliou que o país possui uma vantagem pouco discutida: a formação acadêmica. Segundo o jornalista, o Brasil tem mais universidades com cursos de mineração credenciados do que os Estados Unidos e conta com uma população familiarizada com a atividade e interessada em estudar formas de extração e processamento.
Nos Estados Unidos, ocorreu o movimento oposto. A falta de investimentos em escolas de mineração durante as últimas cinco ou seis décadas reduziu o número de cursos e contribuiu para a perda de profissionais experientes.
“Os Estados Unidos não investiram em escolas de mineração nos últimos 50 ou 60 anos. Na realidade, o número dessas instituições diminuiu no período. Hoje, muitos profissionais estão se aposentando, e houve uma fuga de cérebros na indústria americana”, explicou Scheyder.
O déficit de conhecimento ficou evidente na retomada da mina de Mountain Pass, na Califórnia. Após adquirir o ativo em um processo de recuperação judicial, em 2017, o novo controlador não possuía capacidade técnica suficiente para reativá-lo e recorreu, ironicamente, à ajuda de uma empresa chinesa, relatou o jornalista.
Inteligência artificial também depende da mineração
A perda de profissionais ocorre justamente quando a digitalização aumenta a necessidade de minerais. Scheyder contou que muitos jovens pretendem estudar inteligência artificial, mas não percebem que a expansão da tecnologia depende de uma infraestrutura física intensiva em recursos naturais.
“Converso com muitos jovens que estão escolhendo a universidade, e vários dizem que querem estudar inteligência artificial. Quando explico que não é possível ter IA sem mineração, eles ficam intrigados. Não se constrói um data center sem cobre, níquel ou terras raras. Se quisermos IA, evidentemente teremos de extrair esses minerais”, afirmou.
Data centers, redes elétricas e equipamentos eletrônicos exigem grandes volumes de metais. Isso transforma a mineração em um elo básico da corrida tecnológica: mesmo atividades consideradas digitais dependem de minas, plantas de processamento, energia e logística.
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China domina mais do que a extração
O domínio chinês foi construído a partir de uma visão integrada da cadeia. Segundo Scheyder, o país aceitou operar parte de sua mineração com prejuízo porque o objetivo estratégico não era obter retorno isoladamente em cada mina, mas atrair fabricantes interessados em matéria-prima barata e próxima das fábricas.
“A China esteve disposta durante muitos anos a operar sua indústria de mineração com prejuízo porque isso incentivava empresas manufatureiras a se instalarem no país. Se uma companhia produz um equipamento eletrônico, pode acessar minerais baratos sem arcar com custos elevados de transporte”, afirmou.
Essa estratégia permitiu ao país ampliar sua presença nas etapas posteriores à extração, como separação, refino e fabricação de componentes. Na avaliação do autor, o pensamento sistêmico explica por que a vantagem chinesa não pode ser superada apenas com a abertura de novas minas em outras regiões.
“Eles operam algumas minas com prejuízo porque sabem que isso ajudará a economia do país ao longo de toda a cadeia. É essa visão do sistema completo, das etapas posteriores, que realmente favoreceu a China”, explicou Scheyder.
Novas tecnologias tentam reduzir a dependência
A reação ocidental também passa por inovação. Durante o painel, os participantes citaram a Wave, empresa que afirma ter desenvolvido uma tecnologia de micro-ondas capaz de refinar lítio a um custo 50% inferior ao observado na China. A solução está em uma planta-piloto de US$ 25 milhões e ainda precisa provar que funciona em escala comercial.
Outra frente reúne startups dedicadas à chamada extração direta, conjunto de técnicas que busca retirar minerais de salmouras ou outros materiais com processos potencialmente mais rápidos e eficientes do que os métodos tradicionais.
“Há muito desenvolvimento tecnológico acontecendo agora. Muitas empresas estão em busca de capital e dizem que querem encontrar novas formas de processar lítio e outros minerais críticos. Algumas estão no laboratório; outras, em testes de campo”, afirmou Scheyder.
Nem todas as tecnologias deverão prosperar, mas a quantidade de iniciativas indica que o controle dos minerais críticos será decidido também pela capacidade de inovar. Para o Brasil, a oportunidade combina reservas, experiência e formação técnica. Transformá-la em vantagem econômica, contudo, dependerá de financiamento competitivo, políticas de longo prazo e investimentos nas etapas de processamento — justamente os pontos que sustentaram a liderança chinesa.






