Deirdre McCloskey é uma das convidadas internacionais da Money Week Cenário 2022, evento online e gratuito da EQI Investimentos, realizado entre 11 e 14 de janeiro de 2022, que discute as incertezas do futuro a partir da perspectiva de grandes nomes do mundo dos investimentos.
Durante sua palestra, a economista americana apresentou uma elegante defesa do “Liberalismo Verdadeiro”, em oposição aos seus rivais da esquerda e da direita. Confira abaixo os principais pontos apresentados.
Deirdre McCloskey: Desculpas à burguesia
“Sei que no Brasil e em muitos círculos nos Estados Unidos, a burguesia é considerada desprezível. Sempre achei isso injusto, pois são essas pessoas que fazem as nossas vidas possíveis”, pondera a palestrante.
Ela continua: “Já nós, intelectuais, membros do chamado clérigo, jornalistas, escritores, professores e assim por diante, somos considerados as verdadeiras ‘boas pessoas’. Essa é uma espécie de falsa posição, pois na história do Ocidente dos últimos dois séculos, as pessoas ‘anti-burguesia’ têm sido os filhos da própria burguesia”, refuta a economista.
Deidre McCloskey vai além e propõe um questionamento: “Seria a vida capitalista ‘corruptiva’? Se compramos barato e vendemos caro, isso é ‘mau’, assim como Mahatma Gandhi dizia ser?”.
Para ela, a dinâmica de “comprar barato e vender caro é basicamente ‘pegar’ um recurso de um uso de baixo valor e ‘colocá-lo’ em um uso de alto valor e, assim, obter lucro”, defende.
“Sou uma cristã, uma anglicana progressista, se eu acreditasse que ser capitalista é algo que pudesse me corromper, eu não seria a favor do capitalismo, mas sim, contra. Mas, não acredito que isso seja verdade”, comenta.
Segundo ela, o uso da palavra “burguesa” em toda a sua obra foi precisamente escolhida para ir contra a presunção de que a burguesia é má.
“Entendo que esse é um grande problema no Brasil, assim como na Rússia, onde a suposição é de que as pessoas ficam ricas roubando, influenciando o governo, ou quando herdam a fortuna”, observa.
Para a economista, é preciso reconhecer que “a pessoa se torna rica em uma economia de mercado somente fazendo o bem para as outras: do vendedor de banana ao inventor do smartphone”.
“Esse é o grande ponto sobre como uma grande economia funciona: nós todos trabalhamos uns para os outros”, avalia.
McCloskey e O Grande Enriquecimento
“Percebi que o capitalismo poderia encorajar virtudes. Tendo estabelecido isso, percebi que tinha o início das causas do que chamo de o ‘Grande Enriquecimento’”, analisa a economista.
“Todos nós viemos da extrema pobreza e, ainda sim, nos tornamos relativamente ricos. Sei que há pessoas pobres no Brasil, assim como no meu país. Mas, até as pessoas pobres se tornaram muito melhores do que eram há dois séculos”, observa.
Ela explica que as tentativas históricas de explicar o enriquecimento partem de três categorias:
- Acúmulo de capital;
- Exploração;
- Mudança institucional.
“A primeira (categoria) é do tipo de visão conservadora, que defende que essas pessoas ‘muito boas’ chamadas de ‘ricos’ acumularam muito dinheiro, porque eram ‘virtuosas’ e gastaram (sua fortuna), criando mais capital”.
Mas, para a economista, há duas coisas erradas nesta definição. “Historicamente, humanos sempre acumularam capital. Então, (essa perspectiva) não pode estar certa, pois causaria um grande problema econômico”.
De acordo com ela, o segundo erro está no que o economista Thomas Kane apontou: “o ganho de capital pode ser reduzido a praticamente zero em uma geração se não houver inovação”.
Mas, “a esquerda marxista (como eu já fui) costuma dizer que isso é exploração: chefes tomando de pessoas pobres e investindo o que ‘roubam’ no chamado ‘acúmulo de capital’”, contesta McCloskey.
Deirdre McCloskey e o “Ponto de Virada”
“A inovação se tornou possível às massas de pessoas depois do século XIX, a partir do Liberalismo, pois ele levou embora a hierarquia”, ressalta a economista.
A economista cita como exemplos “as relações de homens sobre mulheres; mestres sobre escravos; chefes sobre trabalhadores; funcionários do governo sobre cidadãos”. “As hierarquias congelam as pessoas em suas posições”, avalia.
Ela relembra que pensadores como Voltaire, Mary Wollstonecraft, Adam Smith, Tom Payne e Thomas Jefferson se debruçaram nessa ideia a partir do século XVIII.
“Todos disseram que os humanos são criados igualmente e são dotados pelo seu criador de alguns direitos inalienáveis, dos quais não se pode abrir mão como a vida, a liberdade e a procura pela felicidade”, analisa.
“Sou uma cristã liberal. Acredito que temos um dever para com os pobres. Mas, o dever que devemos exercer é aumentar sua renda a um nível digno. Não se valer de salário mínimo ou proteções trabalhistas, que, simplesmente, excluem os jovens e os sem formação”, defende.
McCloskey cita como exemplo, a Reforma Protestante, que, em sua visão, “deu à Europa a sensação de que estava no controle de uma vida espiritual individual”. “Isso deixou as pessoas orgulhosas, seguras de si para construírem suas próprias vidas em vez de serem governadas pelas hierarquias de padres e papas”, comenta.
A economista menciona também as Revoluções Inglesa de 1640, a Americana de 1776 e, acima de todas, a Revolução Francesa, de 1789, como grandes pontos de virada da humanidade para o surgimento do “Grande Enriquecimento”.
“Todas elas poderiam ter acontecido de um jeito diferente ou poderiam ter acontecido na China, no Sul Asiático, no Império Otomano, ou, no Japão, mas não aconteceram. Essas quatro grandes civilizações viraram as costas para o progresso no mesmo período em que esse miserável canto do Noroeste da Europa estava adotando o progresso como sua religião”.
Deidre McCloskey: um novo Liberalismo
“O que eu digo a vocês é que precisamos de um novo Liberalismo: generoso, caridoso, gentil, cristão, mulçumano, judeu ou Hindu”, podera Deidre McCloskey.
E do que o Brasil precisa?
Na visão da economista, “é sair da velha história de proteção para esse ou aquele grupo. A velha história de licenciamento de ocupações”.
“Percebo que o Uber e as versões locais desses sistemas são muito ativas nas cidades. Isso é bom, porque o velho sistema é apenas um monopólio majoritário de pessoas ricas que detêm o licenciamento dos táxis”.
Na avaliação de McCloskey, este é um exemplo de que houve uma incrível mudança, mas que não ocorreu por causa do governo.
“O governo não é empreendedor e não é mau. Funcionários públicos não são ruins. Só estou dizendo que empresas públicas que são monopólios, que não desaparecem quando quebram, não são um bom sistema para a economia e nem um bom sistema para o restante de nossas liberdades”, observa a palestrante.
Para fechar o encontro, a economista faz um apelo a todos: “Imploro a vocês que abandonem o seu ‘marxismo infantil’. Não sejam conservadores. Sejam liberais!”.
- Assista aqui a palestra de Deidre McCloskey no Money Week na íntegra.
- Veja também: Quem é Deidre McCloskey?