O Bitcoin é negociado a US$ 80.935,58 nesta quarta-feira (7), uma queda de 16,14% em relação ao patamar de 12 meses atrás. O recuo, de quase US$ 15,6 mil no período, vem após a criptomoeda romper a casa dos US$ 120 mil no fim de 2025 e corrigir até a faixa dos US$ 65 mil antes da recuperação parcial observada nas últimas semanas.

O comportamento da base de investidores brasileiros, contudo, mostra maior convicção e menor reatividade do que em ciclos anteriores de queda.
Em entrevistas ao EuQueroInvestir, Rony Szuster, head de research do Mercado Bitcoin (MB), e Luca Girardi, analista de investimentos da Nomad, descreveram um cenário em que a atual correção tem servido mais como teste de maturidade do que como gatilho para saída em massa.
Os dados internos da exchange brasileira reforçam essa leitura. Em um dos episódios mais intensos de queda registrados em 2026, as compras de Bitcoin superaram as vendas em mais de 5 vezes no auge da volatilidade.
“Parte relevante da base já enxerga esses momentos menos como risco imediato e mais como oportunidade dentro de ciclos mais longos. A diferença em relação a 2022 é que hoje vemos uma base mais madura e mais bem informada, com maior capacidade de diferenciar ruído de tendência. Isso se reflete em menor reatividade generalizada e maior continuidade de posicionamento, especialmente entre investidores com tese de longo prazo em ativos mais consolidados como Bitcoin e Ethereum”, afirma Szuster.
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A maturidade da base, no entanto, não significa homogeneidade de comportamento. O próprio executivo do MB pondera que parte dos investidores reage de forma defensiva em janelas de estresse mais agudo, com movimento de migração para stablecoins ou saques líquidos.
“Há, sim, uma parcela de investidores que busca proteção e migra para stablecoins em momentos de incerteza, o que é um padrão típico de gestão de risco e preservação de capital. Também podem ocorrer saques líquidos em momentos de estresse mais agudo, principalmente entre investidores menos experientes ou com menor convicção de longo prazo”, pondera.
Convivência com a renda fixa
O movimento ganha contornos ainda mais relevantes diante de um ambiente macroeconômico no qual a renda fixa pós-fixada segue competitiva no Brasil. A expectativa, em ciclos anteriores, era de que juros elevados drenariam recursos do mercado de criptoativos. O comportamento observado aponta para uma convivência mais equilibrada entre as classes.
Szuster destaca três movimentos principais identificados na base de clientes do MB:
- O primeiro é o crescimento da fatia mais jovem, com alta de 56% no número de investidores de até 24 anos entre 2024 e 2025;
- O segundo é o aumento da sofisticação, com expansão de 18% no número de pessoas que passaram a investir em mais de um criptoativo no último ano;
- O terceiro é o avanço de 43% nas transações em criptoativos em 2025, sinalizando maior atividade em meio à volatilidade.
“Mesmo com a renda fixa ainda em patamares atrativos em 2026, o investidor de cripto segue ativo e com uma mentalidade de longo prazo. O que vemos não é uma substituição de classes de ativos, mas uma convivência mais equilibrada entre elas. A renda fixa mais competitiva eleva a exigência por retorno, o que faz com que o investidor que permanece em cripto, em geral, tenha maior convicção de tese, maior apetite à diversificação e um horizonte mais longo e estruturado”, diz o head de research.
A composição da carteira, segundo o executivo, varia conforme a faixa de renda. As faixas intermediárias tendem a equilibrar exposição entre criptoativos tradicionais e stablecoins, enquanto as faixas de menor renda seguem mais concentradas em ativos com maior potencial de retorno.
Entre investidores de alta renda, houve crescimento de 11% no número de participantes, com maior uso de stablecoins como instrumento de gestão de liquidez.
Do lado da Nomad, Girardi reforça que o Bitcoin segue se comportando como ativo de risco, sensível ao noticiário e à busca por exposição a risco, ainda que a tese de transformação em reserva de valor ganhe espaço entre alguns analistas. Esse perfil ajuda a explicar a sensibilidade do ativo ao cenário de juros elevados, que penaliza investimentos de maior risco em favor da renda fixa.
“Embora a tese de que o Bitcoin possa se tornar um ativo de reserva no futuro seja defendida por alguns analistas, ele ainda continua se comportando como um ativo de risco, muito sensível ao noticiário e à busca por risco. Os juros elevados o penalizam, dado que aumentam a atratividade relativa da renda fixa e de investimentos de menor risco, enquanto diminuem a atratividade do investimento em ativos de risco, como criptomoedas”, explica Girardi.
O analista da Nomad acrescenta que, mesmo com desempenho inferior ao de ativos de tecnologia e ao do ouro neste ano, o Bitcoin tem mostrado maior descorrelação em relação ao mercado acionário americano. Durante boa parte do recente conflito envolvendo o Irã, o ativo apresentou correlação negativa com o S&P 500, subindo enquanto os índices de ações recuavam.
“Ponderando sempre o perfil e os objetivos de cada investidor, uma exposição calibrada no setor pode atuar como elemento descorrelacionado na carteira, tanto em relação ao ouro quanto às ações, contribuindo para a sua diversificação”, avalia o analista.
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Tokenização ganha espaço
O cenário cripto em 2026 também é marcado pelo avanço da tokenização e pela presença dos ETFs de Bitcoin e Ethereum. Para Szuster, esses produtos não têm canibalizado a alocação em criptoativos tradicionais, mas ampliado o ecossistema e elevado a sofisticação das carteiras.
“Esses ativos têm atraído um perfil adicional de investidor, mais interessado em previsibilidade de fluxo e diversificação dentro do próprio ambiente de ativos digitais. Em muitos casos, funcionam como uma porta de entrada para o ecossistema, antes mesmo de uma exposição mais relevante a criptoativos tradicionais. Quando há migração de alocação, ela tende a ser marginal e mais associada a ajustes de portfólio do que a uma substituição direta”, afirma o executivo do MB.
O mesmo raciocínio se estende aos ETFs de criptoativos e aos fundos cripto regulados. Segundo o head de research do Mercado Bitcoin, esses produtos funcionam como porta de entrada para investidores tradicionais e institucionais por estarem inseridos em estruturas conhecidas de investimento e tributação.
A partir desse contato inicial, é comum que o investidor evolua para uma participação mais direta no mercado cripto, em busca de maior profundidade de produtos, liquidez contínua e operação 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Girardi vê o segmento de tokenização e stablecoins entre os principais vetores de crescimento do setor nos próximos anos. O analista da Nomad lembra que stablecoins e tokenização são casos de uso da tecnologia blockchain, o que demanda o pagamento de taxas em criptomoedas das redes específicas, como ETH, SOL e TRX. Ou seja, o avanço desse segmento beneficia também as moedas dessas redes.
“É esperado que esse segmento siga crescendo fortemente, com a tokenização de stablecoins, ações, fundos de créditos, garantias bancárias, entre tantos outros ativos que podem se beneficiar. Também é esperado que empresas e pessoas que queiram apenas transferir recursos deem preferência a stablecoins, pela sua paridade a uma moeda fiduciária, do que utilizar criptomoedas tradicionais, que são muito mais voláteis”, projeta o analista da Nomad.
Regulação acelera o setor
O ambiente regulatório aparece como peça central do cenário traçado pelas duas fontes para 2026. Os avanços observados nos últimos dois anos, entre eles a aprovação dos ETFs pela SEC e a aprovação do GENIUS Act nos Estados Unidos, abriram caminho para a entrada de instituições financeiras tradicionais no setor.
“Os avanços regulatórios tendem a impulsionar o crescimento do setor, dado que dão a segurança jurídica e os mecanismos regulados para que instituições financeiras tradicionais adentrem neste mercado. Não é à toa o crescimento de segmentos como stablecoins e tokenização de ativos mobiliários e garantias bancárias, com grandes instituições utilizando da tecnologia blockchain como mecanismo de aumento de eficiência operacional e de redução de custos”, diz Girardi.
Para os investidores que buscam navegar esse mercado em consolidação, o analista da Nomad reforça que a leitura de tokenomics se tornou diferencial em um ambiente seletivo. A análise da função do ativo dentro do próprio ecossistema, por meio da documentação dos projetos e do whitepaper, ajuda a identificar quais redes podem capturar valor com o crescimento do uso.
Em paralelo, o desempenho de longo prazo do Bitcoin segue funcionando como argumento adicional para quem considera diversificação. Dados apresentados por Szuster mostram que uma alocação de 5% no ativo ao longo dos últimos 10 anos teria gerado retorno 33% superior em comparação a uma carteira sem exposição. O número ajuda a contextualizar por que, mesmo com a queda de 16,14% nos últimos 12 meses, parte da base segue sustentando posições em vez de buscar a saída.






