O pedido de IPO do PicPay na Nasdaq reacendeu uma reflexão entre investidores: por que uma fintech brasileira, já lucrativa e com escala, decide buscar recursos fora do país em um momento de escassez de ofertas públicas na B3?
A questão ganha ainda mais peso quando se observa o contexto do grupo controlador da fintech. O PicPay pertence à J&F, holding dos irmãos Batista, que recentemente conduziu na JBS (JBSS32) um processo de dupla listagem, passando a negociar ações diretamente em Nova York, enquanto investidores brasileiros acessam os papéis por meio de BDRs.
Esse histórico recente do grupo ajuda a contextualizar a estratégia de internacionalização das ações e o movimento do PicPay em direção ao mercado americano.
Ainda assim, a decisão não pode ser analisada apenas sob a ótica da companhia. O ambiente doméstico segue marcado por juros elevados, baixa liquidez e ausência de ofertas relevantes na bolsa brasileira desde 2021, fatores que têm levado empresas de diferentes setores a buscar alternativas fora do país para financiar expansão e acessar investidores institucionais.
É nesse cruzamento entre o momento do PicPay, as limitações do mercado local e a estratégia de internacionalização do seu grupo controlador que a ida à Nasdaq se insere — menos como um evento isolado e mais como parte de uma mudança mais ampla na rota de captação das empresas brasileiras.
PicPay protocola pedido de IPO na Nasdaq
Na última segunda-feira (5), o PicPay protocolou junto à Securities and Exchange Commission (SEC) o pedido de registro para uma oferta pública inicial de ações (IPO) nos Estados Unidos. A fintech pretende listar ações ordinárias Classe A na Nasdaq Global Select Market, sob o ticker PICS.
A operação ainda não teve preço ou volume final definidos, mas, segundo informações apresentadas no prospecto, a oferta pode movimentar até US$ 500 milhões. O banco digital também informou que a gestora Bicycle Capital apresentou uma indicação não vinculante para investir US$ 75 milhões na operação, atuando como anchor investor.
A oferta tem Citigroup (C; CTGP34), Bank of America (BofA) (BAC; BOAC34) e RBC Capital Markets como coordenadores globais.
Segunda tentativa de IPO, agora em um contexto diferente
Esta não é a primeira vez que o PicPay tenta acessar o mercado de capitais. Em 2021, a empresa chegou a protocolar um pedido de IPO na Nasdaq, mas a operação não avançou diante das condições adversas do mercado e de um cenário em que a fintech ainda operava no prejuízo.
O contexto agora é outro. Nos primeiros nove meses de 2025, o PicPay registrou lucro líquido de R$ 314 milhões, além de um retorno anualizado sobre o patrimônio (ROE) de 17,4% no terceiro trimestre. A mudança no perfil financeiro ajuda a explicar por que a companhia voltou a olhar para o mercado de capitais.
Mais do que uma tentativa de estreia, o IPO de 2026 representa uma nova fase do negócio, marcada por maior maturidade operacional, geração de caixa e ambições mais claras de expansão.
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Uma empresa já lucrativa, mas que precisa de capital para crescer
Mesmo com lucro, o crescimento do PicPay exige capital. A fintech encerrou setembro de 2025 com 66 milhões de contas abertas, sendo 42 milhões de clientes ativos trimestrais, além de R$ 26,7 bilhões em depósitos.
A operação também envolve volumes elevados de transações. O TPV (Volume Total de Pagamentos) atingiu R$ 392 bilhões nos nove primeiros meses de 2025.
Além disso, a expansão da carteira de crédito, que somava R$ 18,7 bilhões, demanda reforço de capital para sustentar crescimento com controle de risco, especialmente em um ambiente regulado como o financeiro.
Para onde vai o dinheiro do IPO, segundo o prospecto
De acordo com o prospecto protocolado na SEC, os recursos captados no IPO serão destinados a fins corporativos gerais, incluindo:
- reforço de capital e capital de giro;
- expansão das operações;
- investimentos em tecnologia;
- ampliação do portfólio de produtos financeiros;
- possíveis aquisições e parcerias estratégicas.
A empresa cita, como exemplo de estratégia de crescimento, a aquisição da Kovr Seguradora, movimento que reforça a aposta do PicPay em diversificar receitas e ampliar sua presença em segmentos como seguros.
Por que a Nasdaq? PicPay dentro de um movimento mais amplo
A escolha pela Nasdaq não ocorre em um vácuo. Nos últimos anos, empresas brasileiras de diferentes setores têm direcionado seus planos de IPO para os Estados Unidos, em meio a um ambiente doméstico marcado por juros elevados, baixa liquidez e escassez de novas ofertas na B3.
Enquanto o mercado brasileiro não registra IPOs relevantes desde 2021, as bolsas americanas oferecem maior profundidade, liquidez e acesso a uma base global de investidores institucionais — características especialmente relevantes para operações de maior porte, como aquelas acima de US$ 500 milhões.
Além disso, o mercado americano conta com diferentes bolsas, como a Nasdaq, tradicionalmente associada a empresas de tecnologia e inovação, o que tende a atrair companhias com perfil semelhante ao do PicPay.
Especialistas explicam por que empresas buscam o mercado americano
Para Fabio Murad, CEO da Spacemoney Investimentos, o movimento de empresas brasileiras em direção aos Estados Unidos reflete problemas estruturais do mercado local.
“A possível retomada dos IPOs de empresas brasileiras acontecendo nos Estados Unidos, e não no Brasil, reflete uma realidade que vai além de um movimento pontual: é um sintoma claro da fragilidade estrutural do ambiente de negócios e do mercado de capitais no Brasil”, afirma.
Segundo ele, empresas que optam por listar ações fora do país buscam fatores como liquidez, segurança jurídica, previsibilidade regulatória e acesso a uma base global de investidores, condições que o mercado brasileiro ainda oferece de forma limitada.
O PicPay como parte da nova onda de IPOs fora da B3
O movimento do PicPay se soma a uma lista crescente de empresas brasileiras que estudam ou já iniciaram processos de abertura de capital nos Estados Unidos. Nomes como Agibank, CloudWalk (InfinitePay) e Wellhub aparecem entre os potenciais candidatos a IPOs internacionais.
Outros grupos, como JBS e BR Partners (BRBI11), avançaram com estruturas de dupla listagem, enquanto a Gol (GOLL54) solicitou o registro de sua holding para negociar ações no mercado americano.
O conjunto desses movimentos reforça a percepção de que a próxima onda de IPOs envolvendo empresas brasileiras tende a ocorrer fora da B3 — cenário que ajuda a explicar por que o PicPay decidiu buscar investidores na Nasdaq.






