Em entrevista exclusiva ao EuQueroInvestir, o CFO da Boa Safra (SOJA3), Felipe Marques, afirmou que a companhia entra em 2026 em uma nova etapa, menos voltada à expansão acelerada e mais focada em consolidar o avanço conquistado nos últimos anos.
Depois de um 2025 marcado por forte crescimento em volume, receita e participação de mercado, a Ba Sofra quer transformar escala em eficiência e rentabilidade.
A mudança de foco acontece após um ano em que a empresa conseguiu se destacar em um ambiente mais hostil para o agronegócio. Segundo Marques, a Boa Safra ganhou market share, reforçou a liderança no setor e atravessou um dos períodos mais desafiadores para o agro brasileiro, mesmo com juros elevados, crédito mais restrito e concorrentes pressionados.
Ao mesmo tempo, o balanço mostrou o outro lado da história. Embora a companhia tenha aumentando a receita e crescido em um mercado estagnado, a rentabilidade foi pressionada, com impacto sobre lucro e Ebitda.
Na avaliação do CFO, esse movimento precisa ser lido dentro do contexto de uma estratégia de crescimento orgânico em um ciclo adverso para o setor.
Crescimento da Boa Safra mesmo em um ano difícil
Marques classificou 2025 como um marco para a companhia. Segundo ele, foi o maior crescimento de volume da história da empresa, com avanço relevante na participação de mercado, de 8% para 10%, em um momento no qual boa parte do setor precisou reduzir ritmo ou preservar caixa.
A avaliação do executivo é que esse desempenho reforça a tese construída desde o IPO, baseada em ganho de escala, expansão geográfica e fortalecimento da posição competitiva.
“Foi o maior crescimento que a gente teve em volume de vendas de um ano com relação ao outro. A gente saiu de 8% para 10% de market share no ano passado”, afirmou Marques.
Para o CFO, a companhia conseguiu avançar porque tomou decisões antecipadas ao longo dos últimos anos, mirando regiões onde ainda tinha pouca presença, reforçando canais de distribuição e estruturando um ecossistema mais robusto para atravessar períodos de estresse no agronegócio.
A conta da expansão
Se o crescimento reforçou a tese da companhia, ele também cobrou um preço. Ao comentar o paradoxo entre o avanço da receita e a piora da rentabilidade, Marques afirmou que é raro uma empresa crescer com tanta força, de forma orgânica, em um mercado fraco, sem sofrer pressão sobre as margens.
Segundo ele, a captura de novos clientes e o ganho adicional de vendas exigem esforço comercial e operacional maior, o que ajuda a explicar a perda de rentabilidade em 2025.
“É muito raro uma empresa crescer tanto e crescer aumentando rentabilidade, ainda mais crescendo organicamente e em um movimento macro muito ruim, que foi o ano de 2025”, disse Marques.
Ainda assim, o executivo sustenta que a empresa saiu fortalecida do período. Na visão dele, o fato de a Boa Safra ter fechado o ano no azul, mesmo com menor rentabilidade e em meio a um cenário bastante pressionado para o agro, ajuda a mostrar uma diferença competitiva em relação a empresas que enfrentaram mais dificuldade para sustentar operação, crédito e crescimento.
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Eficiência como prioridade
Para 2026, a companhia decidiu não ampliar a capacidade instalada e concentrar esforços na captura de eficiência do ecossistema que montou nos últimos anos. A estratégia passa por consolidar o crescimento, simplificar a operação e buscar um novo nível de rentabilidade sem repetir o ritmo acelerado de expansão que marcou o quinquênio pós IPO.
“Esse ano é um ano de consolidar todo esse crescimento que a gente teve. Por isso que a gente não faz novos investimentos em capacidade instalada e sim agora buscar a eficiência de todo esse ecossistema que a gente criou”, afirmou Marques.
Segundo o CFO, essa agenda de eficiência já começou a ser executada. A empresa promoveu uma reestruturação administrativa, revisou despesas comerciais e administrativas, fez ajustes na seleção de produtores e unidades de produção e passou a simplificar o portfólio para reduzir complexidade, estoques e custos de atendimento ao cliente. A ideia é atender a demanda de forma mais racional e rentabilizar a estrutura já disponível.
Caixa forte em agro pressionado
Outro ponto destacado pelo executivo foi a estrutura de capital. Em um setor ainda pressionado por juros altos e crédito mais seletivo, Marques defendeu que empresas com balanço sólido tendem a sair na frente.
Segundo ele, o agro continua demandando capital de giro, mas o dinheiro ficou mais restrito, o que amplia a diferença entre companhias que conseguem se financiar e aquelas que chegam mais fragilizadas a 2026.
“Hoje 95% da dívida da companhia vence a mais de 12 meses. Eu tenho dívida até 2042”, disse Marques.
Na avaliação da Boa Safra, esse contexto ainda deve marcar o setor ao longo deste ano. Por isso, a aposta da empresa para 2026 não é repetir a corrida por capacidade, mas mostrar ao mercado que consegue converter a escala construída em geração de resultado.






