Existe uma frase clássica da política americana que atravessou gerações: “It’s the economy, stupid”. No fim das contas, é sempre a economia que organiza o jogo.
Hoje, essa lógica ajuda a entender o momento atual dos mercados globais. Em vez de estabilidade e conforto, o que move preços é a diversidade de choques. Em outras palavras: é na adversidade que os mercados andam.
Dívida, risco e comportamento histórico do mercado
A história econômica brasileira oferece um alerta claro. Sempre que a relação dívida/PIB se aproximou de 80%, o mercado reagiu com preocupação. Mas esses períodos também coincidiram com grandes oportunidades.
Mesmo com uma amostra histórica limitada, o padrão se repete: momentos de estresse macroeconômico tendem a antecipar ciclos positivos de mercado, especialmente para quem consegue olhar além do curto prazo.
Inteligência artificial perdeu protagonismo no mercado
Em janeiro do ano passado, a inteligência artificial dominava o noticiário. O avanço do DeepSeek, na China, provocou impacto direto sobre ações de tecnologia, incluindo a Nvidia.
Em 2026, a IA segue relevante, mas deixou de ser o principal vetor de movimento dos mercados globais. O tema não desapareceu, apenas saiu do centro do palco. Isso é típico de ciclos: o mercado se desloca para onde o consenso ainda não chegou.
Trump, o dólar e o fim do sorriso largo
Um dos fatores centrais hoje é o ataque recorrente ao chamado “sorriso do dólar”. A tese tradicional dizia que o dólar se fortalecia quando os Estados Unidos iam muito bem ou quando o mundo ia muito mal.
Esse sorriso foi largo por décadas. Agora, está achatado.
A presença constante de Donald Trump no noticiário, com discursos e ações que questionam essa lógica, contribui para enfraquecer o papel automático do dólar como porto seguro. Narrativas envolvendo Venezuela, Irã e Groenlândia surgem, ganham manchetes e perdem força rapidamente.
O resultado é um dólar estruturalmente mais pressionado, algo que altera o equilíbrio dos mercados globais.
Liquidez empoçada no Brasil: energia pronta para virar preço
O segundo grande tema é a liquidez.
No Brasil, a relação M2/M1 encerrou o ano em 11,3%. Isso representa um volume elevado de recursos concentrados na renda fixa. É dinheiro parado, acumulando energia potencial.
Quando parte dessa liquidez migra para ativos de risco, o efeito é desproporcional. Não é preciso uma grande migração para mover o mercado. Pequenos fluxos já são suficientes para impulsionar preços, como o próprio desempenho recente do Ibovespa demonstra.
O papel da China e o retorno do dinheiro offshore
No cenário global, a China registrou um superávit comercial de aproximadamente 1,2 trilhão de dólares. Uma parcela relevante desse capital permaneceu fora do país, em estruturas offshore.
Inicialmente, esse dinheiro buscou tecnologia nos Estados Unidos. Mais recentemente, passou a migrar para metais preciosos e ativos reais, como ouro, prata, cobre e níquel. O petróleo entra nesse radar com uma assimetria cada vez mais evidente.
Câmbio, yuan e exportação de inflação
A relação cambial mais importante do mundo hoje não é dólar-euro, mas dólar-yuan.
O diferencial de inflação entre Estados Unidos e China nos últimos anos é expressivo. O câmbio atual reflete um equilíbrio antigo. O novo equilíbrio aponta para um yuan mais forte, o que implica exportação de inflação para o resto do mundo.
Esse movimento tende a favorecer ativos reais, mercados emergentes e bolsas fora do eixo tradicional americano.
A transição de growth para value já está em curso
Outro ponto-chave é a transição de growth para value.
Indicadores mostram ETFs ligados a consumo básico superando as grandes ações de tecnologia. O Russell 2000 reage. O Ibovespa acompanha. Empresas de energia renovam máximas.
Esse movimento não nasce do conforto, mas da surpresa. Bolsas sobem quando o consenso erra, não quando todos concordam.
O erro que o investidor não pode repetir
Em 2016, muitos investidores ficaram de fora de um bull market por medo da relação dívida/PIB. Esse erro não pode se repetir.
O cenário atual segue desafiador. Sempre seguirá. Mas é justamente nesse ambiente que surgem as melhores oportunidades.
Ataques ao dólar, liquidez empoçada e mudança de ciclo não são sinais de fraqueza. São sinais de transição. E ela já está acontecendo.
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