À primeira vista, olhar para a Bolsa americana hoje e concluir que é hora de vender parece quase óbvio. Os múltiplos estão esticados, o valuation medido por preço sobre lucro alcançou níveis raros e, em algumas métricas, o mercado está mais caro do que no auge da bolha do Nasdaq, no ano 2000. É o que eu costumo chamar de “território da estratosfera”, onde o ar já começa a rarear.
Eu vivi aquela bolha. Sei como o mercado estava caro. Ainda assim, a leitura apresentada recentemente por Michael Hartnett, estrategista do Bank of America, aponta para uma conclusão menos intuitiva: apesar de tudo isso, não é o momento de vender.
O que mudou desta vez?
O argumento central não está no valuation, mas no fluxo de dinheiro.
Nos próximos 100 dias, a dívida dos Estados Unidos deve crescer em cerca de um trilhão de dólares. Para colocar isso em perspectiva, durante a crise financeira de 2008, o famoso programa de resgate do sistema financeiro, o TARP, movimentou algo em torno de 700 bilhões. Agora estamos falando de mais do que isso, em um intervalo muito mais curto.
Esse aumento do endividamento exige uma resposta automática do sistema monetário. Quando a dívida cresce, as reservas bancárias precisam acompanhar. Caso contrário, o risco é repetir episódios como o de outubro de 2019, quando a taxa de juros do mercado overnight nos Estados Unidos disparou e forçou uma intervenção emergencial do Fed.
Um Fed mais preventivo
Não por acaso, o banco central americano já vem atuando de forma preventiva. Desde o início do ano, o Fed voltou a expandir seu balanço, recomprando títulos e garantindo liquidez suficiente para absorver o aumento do gasto público. A lógica é simples: se o governo vai gastar mais, o sistema financeiro precisa ter munição para funcionar sem travar.
Esse ponto dialoga com uma discussão mais ampla, inclusive presente no debate brasileiro, de que a política monetária acaba sendo, em grande medida, uma função dos gastos do governo. Onde há expansão fiscal, há, cedo ou tarde, expansão monetária.
Nos Estados Unidos, além do aumento da dívida e da atuação do Fed, há outro fator relevante: os cidadãos americanos estão prestes a receber reembolsos tributários que somam mais de 150 bilhões de dólares. Esse dinheiro vai direto para as contas bancárias e tende a encontrar algum caminho para o consumo ou para os mercados financeiros.
Diante desse cenário, Hartnett reconhece que a Bolsa americana está cara, mas argumenta que apostar contra esse fluxo de liquidez seria, no mínimo, imprudente. Não há contrafluxo. E, sem contrafluxo, vender passa a ser uma aposta contra a própria política econômica.
Recessões se tornaram inaceitáveis
Eu reforço aqui uma hipótese que venho trabalhando há algum tempo: os Estados Unidos farão o que for necessário para evitar uma recessão. Recessões destroem arrecadação, elevam ainda mais a dívida e pioram rapidamente a relação dívida/PIB. Basta olhar para a experiência recente de países europeus para entender como crises aceleram esse processo.
Nesse “novo mundo”, marcado por níveis elevados de endividamento no hemisfério norte, recessões são combatidas com todas as ferramentas disponíveis. A solução tem sido injetar liquidez, estimular a economia nominalmente e ganhar tempo. Eles sabem fazer isso e vêm fazendo com eficiência.
Transições no Fed e testes do mercado
Há ainda um componente político e institucional relevante: períodos de transição no comando do banco central costumam gerar testes por parte do mercado. Não é uma regra científica, mas um padrão observado ao longo da história. Esse processo tende a levar meses e, enquanto isso, a postura mais acomodativa costuma prevalecer.
O cenário-base aponta para mudanças importantes no Federal Reserve ao longo do ano, o que pode abrir espaço para uma condução ainda mais alinhada à agenda de crescimento e estímulos. Isso adiciona mais uma camada de suporte aos ativos de risco.
O link com o Brasil e a busca por valor
Por fim, trago esse debate de volta ao Brasil. Tenho defendido a tese de que estamos próximos de ver uma performance relativa melhor da Bolsa brasileira frente à americana. Isso passa por uma possível rotação global em direção a ações de valor, em detrimento das grandes empresas de crescimento, especialmente as big techs nos Estados Unidos.
Quando o mercado busca valor, ele olha para bancos, mercados emergentes e setores ligados ao consumo essencial. É nessa lógica que sustento minha visão de que a Bolsa brasileira pode surpreender positivamente nesse movimento.
É isso. Tenha um ótimo dia.
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