2026 começa com três temas que o investidor não pode ignorar: Bezzle, efeito surpresa e volatilidade. Eles ajudam a entender por que este pode ser um ano desconfortável no curto prazo, mas muito promissor para quem conseguir manter posição e cabeça fria.
O conceito de bezzle, cunhado por John Kenneth Galbraith ao analisar a crise de 1929, descreve o nível de falcatruas ainda não reveladas no sistema. É aquele momento em que o investidor acredita estar rico, mas só não percebeu que o ativo em carteira é muito mais problemático do que parece. Enquanto o bezzle não vem à tona, a ilusão permanece.
Depois de quase 30 anos de mercado, faço uma afirmação clara: o top 15 do Ibovespa hoje é o mais sólido da história. E mais importante, o nível de Bezzle no Brasil é significativamente menor do que o observado nos Estados Unidos.
Isso não deveria surpreender. O mercado de capitais brasileiro sempre foi mais engessado, mais defensivo e mais transparente. Quem já operou em Nova York sabe como o mercado americano permite estruturas e operações que simplesmente não passariam por aqui. Esse “oba-oba” foi um dos combustíveis da crise de 2008, quando o Bezzle foi revelado de forma brutal para o mundo inteiro.
No Brasil, o processo foi diferente. Passamos por Americanas, OGX, empresas problemáticas do setor imobiliário, casos recentes e antigos que foram, aos poucos, limpando o mercado. Somado a isso, enfrentamos um ciclo longo de juros muito elevados. O resultado é um mercado hoje mais enxuto, mais sólido e, em vários aspectos, mais preparado.
Curiosamente, o tema do Bezzle voltou ao debate global. Louis Gave, fundador da Gavekal Research, classificou 2026 como “o ano do Bezzle”. Um acaso feliz, já que esse alerta havia sido feito aqui poucos dias antes. Casas de pesquisa como a Gavekal, a BCA e outras independentes costumam enxergar movimentos que ainda não chegaram ao consenso da mídia financeira tradicional.
O segundo ponto é o efeito surpresa. A situação fiscal brasileira preocupa? Sim. A dívida bruta cresce e isso é amplamente documentado. Mas isso é surpresa? Não. Desde o início do atual governo, já se projetava que a dívida chegaria perto de 84% do PIB. O mercado já assimilou essa deterioração. O choque não está aí.
E mercado não se move pelo que é conhecido. Ele se move pelo inesperado.
O terceiro ponto é a volatilidade. Ela vai aumentar. Isso é praticamente consenso. Eleições, ruído político, incertezas externas e um ambiente global em transição vão mexer com preços. Mas volatilidade não é sinônimo de risco. Volatilidade é mudança de preço. Risco é não saber onde você está investido.
Ao longo da história recente, eleições já produziram sustos enormes que se resolveram de forma totalmente diferente do esperado. Quem sai da Bolsa por medo da volatilidade costuma voltar tarde demais.
O convite para 2026 é claro: prepare o seu mindset para conviver com oscilações maiores. Ajuste o tamanho da posição, mas não abandone a Bolsa. Ela continua sendo o lugar para estar.
Enquanto Estados Unidos, Europa, China e Japão seguem em expansão fiscal e monetária, o Brasil vem de uma restrição monetária severa. Estamos na contramão — e isso nos deixa numa posição privilegiada. A Bolsa brasileira segue barata, subestimada e cercada de pessimismo, inclusive dentro da própria indústria financeira.
A grande surpresa virá quando essa cadeia acordar e perceber que a Bolsa voltou a ser o ativo da vez, como já acontece em boa parte do mundo.
Tolere a volatilidade. Fique nos ativos certos. O Bezzle aqui é menor do que parece. E a surpresa pode jogar a favor de quem permanecer investido.
Vamos juntos em 2026.
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