No último dia útil de 2025, vale olhar para o mercado com um pouco mais de distância histórica e menos ruído. Foi exatamente com esse espírito que introduzi, de forma propositalmente solta, um conceito que merece atenção: bazzle.
O termo foi cunhado pelo economista John Kenneth Galbraith para definir um fenômeno típico dos períodos de euforia financeira. Bazzle é riqueza fictícia. Aquela criada por fraudes, ilusões contábeis ou alocações de capital mal explicadas, que só parece real enquanto não é revelada. Até o momento da descoberta, todos acreditam que o valor existe.
O mercado brasileiro conhece bem esse roteiro.
O caso Americanas é, provavelmente, o maior episódio de bazzle da nossa história. Uma empresa digital que nunca deu lucro se funde com o varejo físico, cria uma narrativa de crescimento e, por algum tempo, gera ganhos para acionistas. Quando as inconsistências vêm à tona, o castelo desmorona. Ambipar e outros casos recentes seguem a mesma lógica.
Trazer bazzle para a conversa é importante porque ele ajuda a separar ilusão de fundamento. E, na minha opinião, o Brasil hoje vive um momento curioso justamente por isso: o topo do Ibovespa nunca teve tanta qualidade. O atual top 15 do índice é, em termos históricos, o melhor que já tivemos.
Se olharmos para a lucratividade projetada do Ibovespa em 2026, algo entre R$ 500 bilhões e R$ 550 bilhões, chama atenção a concentração em poucas empresas. Petrobras, Vale e Itaú, sozinhas, respondem por quase metade desse lucro. Só a Petrobras, com valor de mercado próximo a 400 bilhões de reais, deve entregar algo entre 110 e 120 bilhões em lucro. É um múltiplo difícil de ignorar.
Quando comparada à Exxon, a Petrobras negocia com desconto, apesar de margens superiores e reservas provadas muito semelhantes. Mais do que isso, o que para a Exxon é passado — a margem equatorial — para a Petrobras é futuro. Isso torna a assimetria ainda mais interessante, independentemente das oscilações de curto prazo do petróleo, que ninguém consegue prever com precisão.
Enquanto isso, o pano de fundo global também está mudando. Estamos entrando numa era de coexistência, em que a China ocupa um espaço maior e os Estados Unidos buscam reindustrialização, o que pressupõe um dólar mais fraco. Esse movimento favorece ativos de valor, não apenas no Brasil, mas também na Europa, onde bancos vêm performando de forma consistente.
O ponto central é entender que bull markets não nascem da euforia. Eles nascem do pessimismo. Foi assim em 1992, antes do Plano Real. Foi assim em 2003, muito além da narrativa exclusiva da China. Foi assim em 2016, impulsionado por bancos centrais globais, não por fatores locais. E está sendo assim agora.
O erro é ficar paralisado, esperando que todas as incertezas macroeconômicas se resolvam. Eu cometi esse erro em 2016. Hoje, o mercado brasileiro segue barato, abandonado até pelos investidores locais, mas já em tendência clara de alta.
Bazzle ensina o que evitar. Fundamento ensina onde ficar. E o pessimismo, mais uma vez, está oferecendo o ponto de partida.





