A profissionalização do futebol brasileiro também chegou à forma como clubes e ligas financiam seus projetos. Nos últimos dez anos, pelo menos 27 instrumentos financeiros ligados ao setor esportivo chegaram ao mercado de capitais, dos quais 20 resultaram em ofertas públicas já encerradas que movimentaram R$ 1,3 bilhão. Os recursos foram destinados a reforço de capital de giro, renegociação de dívidas, reestruturação financeira e outros investimentos voltados ao fortalecimento das entidades esportivas.
Os dados fazem parte de um levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), realizado a partir da pesquisa de palavras-chave entre emissores de ofertas públicas. Embora o estudo não represente a totalidade do mercado, ele aponta uma tendência consistente de maior utilização dos instrumentos financeiros pelo futebol profissional.
Segundo o diretor-executivo da Anbima, Zeca Doherty, o movimento evidencia a aproximação entre o mercado de capitais e setores da economia que fazem parte do cotidiano da população.
“O mercado financia a economia real, e o futebol faz parte dela. O mercado está mais próximo do cotidiano do que as pessoas imaginam: na empresa que cresce, na infraestrutura que avança e até no seu time do coração”, afirma.
Além das 20 ofertas já concluídas, o levantamento identificou três operações ainda em fase de captação, com meta de levantar R$ 100 milhões, e duas ofertas canceladas, que somavam R$ 88,9 milhões. Outros dois fundos relacionados ao futebol, com patrimônio líquido de R$ 50,6 milhões, não foram objeto de oferta pública.
Lei da SAF impulsionou crescimento
Embora as primeiras ofertas tenham surgido em 2017, o maior avanço ocorreu a partir de 2023, dois anos após a entrada em vigor da Lei nº 14.193/2021, conhecida como Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol). A legislação permitiu que clubes passassem a atuar sob modelo empresarial, ampliando as possibilidades de acesso ao mercado de capitais.
Entre 2023 e 2026, foram captados R$ 976,2 milhões, o equivalente a 73,4% de todo o volume levantado nas ofertas públicas encerradas identificadas pelo estudo.
Desde 2017, pelo menos três clubes recorreram ao mercado de capitais mais de uma vez — um deles realizou cinco operações. Também foram registradas emissões envolvendo mais de um clube e ligas esportivas.
Diversidade de instrumentos
O levantamento mostra que os clubes utilizaram diferentes estruturas para captar recursos, entre elas Fundos de Investimento em Participações (FIPs), Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), debêntures, notas comerciais e Fundos de Investimento Financeiro (FIFs).
Apesar de a Lei da SAF ter criado as chamadas “debêntures-fut”, instrumento específico para captação de recursos por entidades esportivas, esse modelo ainda tem participação reduzida. A pesquisa identificou apenas três ofertas desse tipo.
Para Doherty, a variedade de instrumentos disponíveis permite que cada operação seja estruturada de acordo com as necessidades dos clubes.
“O movimento dos clubes mostra que temos o veículo certo para apoiar o desenvolvimento de cada entidade”, diz.
Dados disponíveis
As informações utilizadas no levantamento estão disponíveis na plataforma ANBIMA Data. Os dados sobre ofertas públicas podem ser consultados na seção Datasets, em Ofertas Públicas – Séries, utilizando os filtros de busca por palavras-chave. Também é possível pesquisar fundos de investimento e debêntures específicas na área Dados de Mercado, com acesso aberto para consulta e download restrito às instituições associadas.
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