A pergunta era direta: qual momento de Alegría merece mais atenção do público. Andrew Price hesitou e não apontou para salto nenhum.
O Tour Manager do Cirque du Soleil desviou o olhar do que está a dez metros do chão e mandou procurar o que quase ninguém repara. A maquiagem. A costura do figurino. O rosto de quem está trabalhando.
“Enquanto você aprecia a acrobacia, a música, as luzes e tudo o que está acontecendo, preste atenção nas pequenas coisas. O olhar no rosto do ator, no rosto do acrobata, quando eles estão atuando. São todos esses detalhes que fazem o show muito especial”, disse Price.
Andrew Price, Tour Manager do Cirque du Soleil e Marina Kopczynski Xavier, jornalista da EQI Investimentos/ Divulgação EQI Investimentos
Um espetáculo desmontado e refeito
Há motivo para o cuidado com o detalhe. Alegría não voltou ao palco como estava: voltou reconstruído.
O espetáculo estreou em 1994 e virou um dos cartões de visita da companhia canadense. Trinta anos depois, em vez de restaurá-lo, o Cirque du Soleil desmontou a peça inteira.
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“Em vez de simplesmente trazer Alegría de volta ao seu formato original, as equipes criativas do Cirque du Soleil deram-se o desafio de reimaginar totalmente o show, para que ele pudesse falar à audiência de hoje e representar como o Cirque du Soleil e o mundo evoluíram desde a criação original, em 1994”, afirmou Rachel Lancaster, diretora artística de Alegría – In A New Light.
Divulgação EQI Investimentos
Música, figurino e cenografia foram refeitos. Entrou um número de trapézio voador que não existia na versão dos anos 1990, enquanto outros atos citam montagens antigas da companhia.
“O show original foi criado há muito tempo, e é um dos mais clássicos, bonitos e originais do Cirque. Mas era hora de celebrar seu aniversário e dar um pouco de refresco para um público mais moderno”, disse Price.
O reino continua sem rei
Uma coisa não se mexeu: a história. A trama segue dentro de um reino que perdeu seu rei e assiste a duas gerações disputarem o que sobrou.
“Por um lado, temos a antiga aristocracia, que defende sua hierarquia e protege seus privilégios. Por outro lado, os jovens das ruas querem desafiar o status quo e trazer novas ideias para tornar o mundo um lugar melhor”, explicou Lancaster.
A trilha que consagrou o espetáculo também permaneceu, agora em arranjos regravados. O público que viu Alegría nos anos 1990 reconhece as melodias antes de reconhecer o palco.
“Alegría in a New Light é visualmente uma nova produção brilhante, que captura as emoções, as famosas melodias, as ideias e as imagens brilhantes que foram identificadas como a essência da produção original”, disse Lancaster.
O limite de mexer num clássico
Price não participou da equipe que conduziu a recriação e faz questão de dizer isso. Mesmo assim, sabe onde estava a linha que ninguém podia cruzar.
Refazer um show desses tem um risco embutido. Modernizar demais apaga o que fez o espetáculo virar referência, mas também modernizar de menos entrega ao público de 2026 uma peça de museu.
Divulgação EQI Investimentos
“Alegría foi um dos shows mais famosos do Cirque du Soleil, e colocou a companhia na trajetória do que ela é hoje. Então é tentar honrar e respeitar a origem da criação, mas ainda assim fazer algo novo e fresco”, observou Price.
Essa tensão explica boa parte do que o Cirque du Soleil construiu desde a fundação, no Canadá. A companhia tirou os animais do picadeiro, abandonou a sequência de números soltos e passou a montar espetáculos com narrativa, cenário próprio e música original tocada ao vivo.
O modelo ganhou nome — circo contemporâneo — e transformou o grupo na maior organização circense do mundo. O nome, em francês, significa Circo do Sol.
O que se leva para casa
Perguntado sobre o público brasileiro, Price não falou em bilheteria nem em recepção. Falou nos anos de treino que cabem em cinco minutos de palco.
Cássia Raquel, cantora de Alegría / Divulgação EQI Investimentos
“Vir ao show, esquecer o resto do mundo por um tempo, ficar perdido no mundo de Alegría e levar esse espírito para casa é o que estamos procurando”, afirmou o tour manager.
Quem quiser conferir os detalhes que ele pediu tem prazo. A temporada paulistana estreou em 20 de agosto e vai até 8 de novembro, com patrocínio principal da EQI Investimentos. Depois, Alegría – In A New Light segue para Curitiba, de 19 de novembro a 13 de dezembro.