O prêmio do Nasdaq sobre o S&P 500 é hoje o mais estreito em quase uma década. Segundo Marink Martins, analista da EQI Research, o múltiplo preço/lucro projetado do Nasdaq 100 caiu para 20,5 vezes, o menor nível desde o início do ciclo da inteligência artificial, em 2023. O dado, na avaliação dele, resume o momento do mercado internacional: a tecnologia sofre, mas a bolsa americana se mantém aparentemente estável.
Historicamente, o Nasdaq negocia esticado em relação ao S&P 500, por concentrar as grandes empresas de tecnologia. Agora, esse prêmio encolhe. Martins admite que chegou a pensar que, se o setor começasse a sofrer, o mercado não aguentaria. Mas observa algo diferente: os investidores não querem largar a renda variável e preferem girar recursos dentro da própria Bolsa.
Antes, quem vendia ações migrava para a renda fixa. Hoje, segundo o analista, há ceticismo também em relação a esse caminho. Ele lembra que o investidor Ray Dalio vem falando com frequência sobre o ouro, mas diz não carregar o ativo na carteira Global Investor Portfolio, por considerá-lo uma aposta problemática em um cenário de juros elevados. Ressalva que se trata de uma opinião pessoal.
Opções de VIX e estresse no crédito
O VIX, índice de volatilidade, subiu um pouco e foi a 18 pontos. Martins chama atenção para o elevado volume de opções de compra sobre o próprio indicador. Com tanta gente comprada, quem está vendido são grandes market makers, o que, na leitura dele, pode ajudar a manter o mercado dentro de uma faixa de oscilação, o chamado “range bound”.
Há ainda sinais de estresse no crédito. O CDS, espécie de seguro contra calote, de empresas como Oracle, Nvidia e Broadcom vem subindo, enquanto as ações seguem sem reagir.
Dúvidas sobre o capex de IA
O analista menciona a especulação em torno da chamada circularidade do capex em inteligência artificial: a Nvidia aporta recursos em um hyperscaler que, por sua vez, repassa dinheiro a outra empresa, e o valor acaba retornando à própria Nvidia. O temor é de que isso gere dupla contagem de receitas, prática que, lembra, ocorreu no fim dos anos 1990 e em 2000, com contabilidade criativa.
Apple como refúgio e preferência por Eli Lilly
Dentro da tecnologia, Martins vê a Apple como um refúgio, por não participar do ciclo de capex em IA. Ele ressalva, porém, que se mantém cético com a ação: a empresa usa todo o fluxo de caixa em recompra de ações e dividendos, e, se interromper essa política, tende a ser penalizada pelo mercado.
Sua preferência está na Eli Lilly, que considera a melhor entre as empresas com valor de mercado acima de US$ 1 trilhão e que integra a carteira Global Investor Portfolio.
França preocupa, e euro seria a variável de ajuste
Na Europa, o analista aponta preocupação com a França. O mercado olha não só para o spread entre os títulos de 10 anos francês e alemão, mas também para o fato de o OAT francês render mais do que o BTP italiano. Martins avalia que a França é “grande demais para quebrar” e que, em última instância, o euro tende a ser a variável de ajuste, com base em estudos de analistas como Cedric Gemmel, da Gavekal Research. Ele diz não comprar a tese do euro como moeda forte, e afirma que os bancos europeus já sentem o impacto. Segundo ele, vendeu o EUFN na carteira próximo da máxima.
No Brasil, descolamento e otimismo
No Brasil, Martins descreve uma “era de descolamento” entre Ibovespa e S&P 500 às vésperas da eleição, como ocorreu em 2022, embora diga esperar um desfecho diferente, reconhecendo que há riscos. Ele afirma manter viés positivo e cita sete argumentos em favor de uma valorização expressiva do Ibovespa.
Entre os pontos que destaca estão o desempenho do top 15 do índice e o papel da Petrobras como “reduto energético”. Na semana passada, Petrobras, Prio e Eletrobras sustentaram o índice em um dia de quedas generalizadas. Para ele, o Ibovespa passa por uma rotação que até então só existia no S&P 500.
Martins diz que o movimento vai além da eleição presidencial e que não se trata de apostar em alta com um resultado e queda com outro. Para quem tem horizonte mais longo, afirma, é um Ibovespa “como você nunca viu antes”.
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