A EQI Research publicou uma nova análise de crédito sobre a Aegea Saneamento, segunda maior companhia de saneamento do Brasil, atribuindo nota 60% e recomendação neutro para as debêntures da empresa.
O relatório, assinado pelo analista João Abdouni, destaca que os títulos oferecem retornos acima do CDI, com spreads que variaram entre 2% e 4%. O prêmio elevado, contudo, embute uma contrapartida.
“Esse retorno mais alto incorpora riscos, como a necessidade de recorrer a fontes adicionais de financiamento para avançar com seus projetos”, pondera Abdouni.
Fundada em 2007, a Aegea opera concessões em 893 municípios distribuídos por 15 estados brasileiros. O bloco de controle é liderado pela Equipav, com 52% das ações, seguida pelo fundo soberano de Singapura GIC, com 35%, e pela Itaúsa, holding que também controla o banco Itaú, com 13% de participação.
Setor em expansão
Após o marco legal do saneamento de 2021, o setor passa por um ciclo de forte demanda por investimentos. Segundo dados citados pela EQI Research, cerca de 85 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à coleta de esgoto tratado, e o país precisaria investir aproximadamente R$ 50 bilhões por ano até 2033 para cumprir as metas de universalização.
Nesse ambiente, Abdouni projeta que a Aegea deve realizar cerca de R$ 50 bilhões em capex entre 2026 e 2033. A Corsan, concessão no Rio Grande do Sul, responde por 46,3% do Ebitda consolidado, enquanto as operações de Águas do Rio (blocos Rio 1 e Rio 4) contribuem com 15,9%. Para o analista, o volume de investimentos contratados torna inevitável o recurso ao mercado:
“Deve demandar alguns acessos ao mercado seja via dívida ou por meio de emissões de ações”, escreve.
O analista salienta que os resultados de 2025 vieram pressionados, principalmente por questões contábeis ligadas às contas a receber da operação fluminense. A receita líquida avançou 28% no ano, para R$ 12,3 bilhões, e o Ebitda ajustado somou R$ 8 bilhões. Contudo, a dívida líquida saltou 68,2% na comparação anual, atingindo R$ 30,2 bilhões, o que elevou a relação dívida líquida/Ebitda para 3,78 vezes, frente ao covenant contratual de 4 vezes na maior parte das emissões.
O quadro é ainda mais crítico quando se olha apenas para o Rio de Janeiro.
“A operação apresenta prejuízo líquido e alavancagem bastante elevada (8,5x dívida líquida/EBITDA), pressionando o consolidado”, detalha Abdouni, o que explica a deterioração observada no fechamento anual.
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Três cenários projetados
O analista trabalha com três hipóteses para o perfil de crédito da companhia. No primeiro cenário, considerado menos provável, a empresa seguiria sem aportes adicionais ou abertura de capital, o que poderia levar ao rompimento de covenants.
No segundo cenário, a EQI Research projeta novas capitalizações por parte de GIC e Itaúsa, no total de R$ 5 bilhões ao longo de 2026 e 2027. Essa dinâmica se soma ao aporte de R$ 1,2 bilhão já anunciado no primeiro trimestre de 2026 e permitiria preparar a companhia para uma janela favorável de abertura de capital.
A terceira hipótese, considerada a de maior probabilidade no médio prazo, projeta o IPO da Aegea em 2027. Abdouni simula uma venda de 25% das ações a um múltiplo preço/lucro (P/L) “em linha com o nível de negociação da Sabesp”, de 14 vezes, o que capitalizaria a Aegea em cerca de R$ 7 bilhões e reduziria a alavancagem para patamares próximos de 3 vezes.
Entre as debêntures em circulação acompanhadas pela EQI Research, estão as séries AEGP19 (CDI+1,90%), AEGPA0 (16,76%), AEGPA4 (CDI+3,40%), AEGPA8 (16,34%), AEGPB3 (CDI+1,80%) e AEGPB5 (CDI+1,80%), com prazos entre dois e seis anos. A recomendação neutra, segundo o analista, não depende de abertura nas taxas.
“O que gostaríamos de observar nas próximas divulgações seria a redução dos riscos associados à estrutura de capital da empresa”, conclui Abdouni.
Quer ter acesso à análise completa da EQI Research sobre a Aegea Saneamento? O relatório, com os detalhes das seis emissões acompanhadas, os três cenários projetados e a composição da nota de crédito, está disponível no aplicativo EQI+. Baixe o app e acompanhe em primeira mão as análises exclusivas da EQI Research.






