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Falamos mais de educação financeira do que praticamos, diz Ariane Scacalossi, do Klubi

Falamos mais de educação financeira do que praticamos, diz Ariane Scacalossi, do Klubi

Em entrevista ao EuQueroInvestir, educadora financeira explica por que falar de investimentos ainda é mais fácil do que admitir uma dívida e discute os limites da educação financeira

O brasileiro está cercado por mais conteúdo sobre dinheiro do que há uma década. Planilhas, cursos, vídeos e influenciadores tornaram o vocabulário financeiro mais acessível. Essa exposição, porém, não significa que as pessoas tomem decisões melhores quando o orçamento aperta.

Para Ariane Scacalossi, educadora financeira e especialista do Klubi, a prova do aprendizado aparece na reação ao cartão estourado, à perda de renda ou à necessidade de admitir que não pode pagar por algo.

Essa diferença entre conhecer conceitos e lidar com limites foi o eixo da conversa com a especialista. Ariane resume a contradição ao afirmar que o país ganhou linguagem antes de ganhar prática. Falar de investimentos está associado a vitória, controle e planejamento. Admitir uma dívida ainda carrega ideias de fracasso e desorganização. Esse desconforto pode levar o consumidor a buscar uma solução imediata, mesmo quando ela cobra juros altos e cria um problema maior adiante.

O silêncio também afeta a maneira como crianças, casais e famílias se relacionam com dinheiro. Sem conversas sobre renda, prioridades, despesas e objetivos, decisões de consumo ficam desalinhadas, dívidas podem ser escondidas e os conflitos aparecem quando o ressentimento já está instalado.

Nas redes sociais, o conteúdo educa quando mostra conceitos, contexto e método, mas cria comparação prejudicial quando exibe apenas o resultado.

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Ariane ressalta, contudo, que a educação financeira tem limites. Ela pode ajudar alguém a administrar melhor uma renda baixa ou negociar juros, mas não aumenta salários, reduz a Selic nem resolve a desigualdade. A organização financeira não deve servir para responsabilizar individualmente quem enfrenta problemas estruturais.

Para quem sente vergonha de pedir ajuda, a orientação é separar a situação da identidade. Ter uma dívida não transforma ninguém em um fracasso. Esse é o ponto de partida da conversa a seguir, que aborda também a mudança do tabu entre gerações e os caminhos para tratar dinheiro dentro de casa sem cobrança ou julgamento.

Confira a entrevista com Ariane Scacalossi

EuQueroInvestir O brasileiro está mais educado financeiramente ou apenas mais exposto a conteúdos sobre dinheiro?

Ariane Scacalossi — O brasileiro médio hoje sabe falar mais sobre dinheiro do que sabia há dez anos, mas saber falar não é o mesmo que saber lidar. Houve uma explosão de conteúdo (finfluencers, planilhas, cursos, memes sobre CDI), e isso normalizou o vocabulário. Só que exposição é consumo passivo de informação; educação é comportamento sob pressão, é o que a pessoa faz quando o cartão estoura, quando perde o emprego, quando precisa dizer “não posso”. Nesse teste, o Brasil ainda tropeça: a inadimplência segue alta e o rotativo do cartão continua sendo porta de entrada para dívidas caras. Ganhamos linguagem antes de ganhar prática.

EQIPor que falar sobre investimentos parece mais fácil do que admitir uma dívida ou dizer “não posso pagar”?

AS — Falar de investimento é falar de vitória: status, controle, projeção de futuro. Falar de dívida é falar de derrota, descontrole, presente desconfortável. Isso aparece com clareza na relação do brasileiro com o consórcio: a principal objeção não é o custo, é a espera. Esperar exige admitir publicamente “ainda não tenho isso, e tudo bem esperar”, uma frase difícil de pronunciar numa cultura que trata paciência financeira como atraso pessoal. Por isso, muita gente prefere pagar juros exorbitantes por uma solução imediata a admitir que precisa planejar: o crédito caro resolve o desconforto psicológico da espera na hora, mesmo criando um problema maior depois. É a urgência emocional vencendo o cálculo racional, e é assim que começa boa parte dos ciclos de dívida.

EQI De que maneira o silêncio sobre dinheiro prejudica a educação financeira dentro das famílias?

AS — O maior dano não é a falta de informação técnica, é a falta de repertório emocional para lidar com dinheiro sem culpa ou conflito. Quando a criança nunca ouve os pais discutindo prioridades, ela cresce achando que dinheiro aparece ou some por mágica, e que falar sobre ele é falar sobre briga. O resultado, na vida adulta, é gente que evita olhar extrato, evita negociar, evita dividir contas com clareza.

EQIÉ possível ensinar uma criança a lidar com dinheiro quando os próprios adultos evitam o assunto?

AS — Parcialmente, e de forma frágil. Crianças aprendem menos pelo que os adultos dizem sobre dinheiro e mais pelo que fazem e sentem diante dele. Um adulto que evita o assunto passa adiante a evitação, mesmo sem dizer uma palavra. Educação financeira eficaz é modelada, não apenas explicada.

EQIQuais erros financeiros surgem porque casais e familiares não conversam sobre renda, despesas e objetivos?

AS — Dívidas escondidas, decisões de consumo desalinhadas (um economiza para uma meta, o outro gasta sem saber que ela existe), ausência de reserva conjunta e expectativas diferentes sobre “vida confortável”, que só explodem quando já é tarde para negociar sem ressentimento.

EQI As redes sociais ajudam na educação financeira ou criam expectativas irreais sobre consumo e enriquecimento?

AS — As duas coisas, ao mesmo tempo, depende de quem está do outro lado da tela. Educam quando trazem conceito, contexto e método. Distorcem quando vendem resultado sem processo: o carro, a viagem, o “consegui”, sem mostrar dívida, tempo ou sorte envolvidos. Redes sociais recompensam o extraordinário, não o sustentável.

EQI Como diferenciar inspiração financeira de comparação prejudicial?

AS — A diferença está no verbo que a imagem provoca. Se faz você pensar “eu também posso fazer isso, e aqui está o caminho”, é inspiração. Se faz você pensar “eu deveria já ter isso, e não tenho”, é comparação prejudicial. Inspiração vem com processo replicável; comparação vem só com o resultado, fora de contexto.

EQI O tabu mudou entre as gerações ou apenas ganhou novas formas?

AS — As duas coisas. Mudou porque hoje se fala mais abertamente de salário e custo de vida, algo impensável há uma geração. Mas ganhou nova forma: agora é vergonha de não ter investimento, de não ter “múltiplas fontes de renda”. Trocou-se a vergonha de ser pobre pela vergonha de não parecer “financeiramente esperto”.

EQI Até onde a educação financeira pode ajudar diante de problemas estruturais, como renda baixa, juros altos e custo de vida?

AS — Educação financeira ajuda a otimizar dentro de uma realidade, não a mudar a realidade. Ensina a fazer o melhor uso de uma renda baixa, mas não aumenta a renda; ensina a negociar juros, mas não reduz a Selic. É ferramenta de gestão individual dentro de um sistema, e cobrar dela solução para desigualdade estrutural é atribuir a um indivíduo um problema em boa parte coletivo.

EQI Como iniciar uma conversa sobre dinheiro sem transformar o diálogo em cobrança ou julgamento?

AS — Trocando pergunta de julgamento por pergunta de time: não “por que você gastou isso?”, mas “como a gente quer que o dinheiro trabalhe pra gente esse mês?”. Falar em primeira pessoa do plural, com curiosidade em vez de fiscalização, tira o outro da posição de réu. Também ajuda escolher o momento, nunca no calor de uma conta vencida.

EQI Quais assuntos deveriam fazer parte de uma conversa financeira familiar?

AS — Renda de todos os envolvidos, despesas fixas e onde podem ser revistas, dívidas existentes, metas de curto e longo prazo, quem cuida do quê na gestão do dinheiro, e um plano simples para imprevistos.

EQI Afinal, qual é o primeiro passo para quem percebe que precisa organizar a vida financeira, mas sente vergonha de pedir ajuda?

AS — Separar o fato da identidade. A dívida é um número, consequência de decisões e circunstâncias, não um veredito sobre o caráter da pessoa. O primeiro passo real é essa reformulação interna: “estou com um problema financeiro” em vez de “sou um fracasso financeiro”. Depois disso, olhar o extrato inteiro, sem editar. Pedir ajuda deixa de ser confissão e passa a ser estratégia.

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