A curva de juros voltou ao centro do debate econômico. Para entender sua importância, Felipe Paletta e João Neves, analistas da EQI Research, explicam que esse instrumento é essencial para avaliar não apenas o custo do dinheiro no tempo, mas também o humor do mercado em relação ao futuro da economia.
O que é a curva de juros?
A curva de juros é, em essência, a projeção que o mercado faz para o comportamento das taxas de juros ao longo dos anos. Representada em um gráfico, ela mostra na horizontal os prazos (um ano, cinco anos, 10 anos, 30 anos) e na vertical as taxas estimadas para cada período.
De acordo com João Neves, essa ferramenta “funciona como a base de precificação de praticamente todos os ativos financeiros, desde ações até debêntures de infraestrutura”. Isso porque a expectativa de juros influencia diretamente o custo de captação das empresas, o retorno de títulos públicos e até os valores de imóveis financiados.

Inclinação normal e curvas invertidas
Em um cenário considerado “normal”, a curva tende a ser ascendente — quanto maior o prazo, maior a taxa exigida pelo investidor. Isso acontece porque emprestar dinheiro por 20 ou 30 anos embute mais riscos e incertezas do que em prazos curtos.
No entanto, o Brasil tem particularidades.
“Muitas vezes, vemos uma curva de juros mais inclinada ou até invertida, quando o mercado projeta que a taxa Selic cairá no futuro”, observa Felipe Paletta. Uma curva invertida pode indicar expectativas de desaceleração da economia ou de queda da inflação.
Abertura e fechamento da curva
Dois termos recorrentes no mercado são abertura e fechamento da curva de juros.
- Abertura da curva: ocorre quando o risco percebido aumenta, seja por fatores internos (como instabilidade política) ou externos (como crises globais). Nessa situação, o mercado exige taxas maiores para financiar o governo e as empresas. Isso encarece empréstimos e pode derrubar o preço das ações.
- Fechamento da curva: acontece quando o ambiente melhora, seja por avanços fiscais ou expectativas de inflação mais controlada. Nesse caso, a taxa exigida para prazos mais longos diminui, tornando o crédito mais barato e elevando o apetite por ativos de risco.
“Se hoje você for ao banco financiar um imóvel, o custo do crédito pode estar diferente de ontem não porque a Selic mudou, mas porque o mercado alterou sua expectativa para os próximos anos”, resume Neves.
Impacto direto nos investimentos
A curva de juros afeta tanto quem investe quanto quem toma crédito. Para o investidor, a principal consequência está na precificação dos ativos:
- Tesouro Prefixado: se a curva indica queda futura de juros, travar uma taxa alta agora pode ser vantajoso. Já se houver perspectiva de alta, o investidor pode perder oportunidades.
- Ações e imóveis: como o valor de empresas e propriedades é calculado pelo fluxo de caixa futuro trazido a valor presente, qualquer alteração na curva afeta diretamente sua avaliação.
- CDBs e debêntures: seguem a mesma lógica, já que pagam prêmios atrelados à percepção de risco e ao nível de juros projetados.
Termômetro da confiança
Mais do que um gráfico técnico, a curva de juros é um retrato da confiança do mercado no futuro do país.
“Quando ela abre, significa que investidores estão pedindo um prêmio maior para financiar o Brasil. Quando fecha, é sinal de otimismo”, conclui Paletta.
Por isso, acompanhar sua movimentação não é apenas tarefa de economistas: trata-se de uma bússola indispensável para qualquer investidor que deseja entender como seus rendimentos podem se comportar no médio e longo prazo.