O Banco Central não teria, neste momento, urgência para interromper o processo de flexibilização da política monetária, na avaliação de Eduardo Loyo, sócio do BTG Pactual (BPAC11). Segundo ele, a trajetória recente da atividade econômica indica que o diagnóstico que permitiu o início dos cortes de juros não estava equivocado, apesar da necessidade de uma condução cautelosa.
A avaliação foi feita durante o último painel do Macro Day, evento promovido pelo BTG Pactual, que reuniu Loyo, Mansueto Almeida, sócio e economista-chefe do banco, Samuel Pessôa, pesquisador macroeconômico, e Tiago Berriel, sócio e head de Macro Research.
Ao comparar o cenário brasileiro com o dos Estados Unidos, Loyo afirmou que há diferenças importantes na condução da política monetária. Nos EUA, segundo ele, havia uma economia aquecida e um nível de atividade incompatível com a convergência da inflação para a meta, enquanto a taxa de juros estava próxima do nível considerado neutro.
No Brasil, o diagnóstico era diferente. A percepção era de que as condições monetárias estavam bastante apertadas, o que abriria espaço para uma flexibilização. “Até agora se foi o que foi e, se o BC estava tranquilo, não vejo como urgente a decisão de interromper o ciclo de afrouxamento monetário”, afirmou.
Para Loyo, a trajetória da atividade econômica observada desde o início dos cortes vem dando sinais de que a avaliação inicial não estava errada. Ele defendeu, porém, que a redução dos juros seja feita de forma gradual.
Cenário americano ainda está em aberto
O painel também discutiu os próximos passos do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos. Para Berriel, “tudo está em jogo” no ciclo de juros americano.
Segundo ele, a percepção do mercado foi afetada pela avaliação de que o compromisso do Fed com a entrega da meta de inflação teria se mostrado menos sólido do que o esperado. Berriel também citou a discussão sobre uma revisão do framework da política monetária americana.
Nesse contexto, a atuação de Kevin Warsh, apontado nas discussões sobre a condução do Fed, teria aberto espaço para uma reavaliação das perspectivas para os juros. Para Berriel, a possibilidade de recuperação do framework faz parte de uma “solidificação” desse cenário, tornando provável uma próxima etapa de mudança na avaliação dos mercados.
Loyo acrescentou que, em um ambiente de forte emissão de dívida, os títulos do governo americano passam a competir pela demanda dos investidores, criando uma pressão adicional sobre as condições financeiras. Ele também destacou que a questão fiscal dos Estados Unidos ainda precisará ser resolvida.
Segundo Loyo, esse cenário pode criar oportunidades para países que consigam se diferenciar positivamente.
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Dólar perde valor diante das expectativas
Samuel Pessôa destacou a reação dos mercados ao cenário internacional. Segundo ele, o balanço das condições atuais é “surpreendente” e os mercados vêm incorporando rapidamente essas mudanças aos preços.
Para o economista, a velocidade com que os investidores ajustam suas posições ajuda a explicar a perda de valor do dólar.
Juros brasileiros seguem em nível excepcional
A discussão também se voltou para a combinação entre gastos fiscais elevados, meta de inflação e nível de juros no Brasil.
Pessôa afirmou que a meta de inflação brasileira está alinhada à adotada por outros países e questionou a excepcionalidade do nível dos juros domésticos. Segundo ele, nos primeiros dez anos do Plano Real, os juros interbancários chegaram a níveis muito baixos em determinados momentos, enquanto o prêmio elevado estava associado principalmente ao risco.
Com o aumento das reservas internacionais e a redução do risco, no entanto, os juros não acompanharam essa queda no mesmo ritmo.
Na avaliação de Pessôa, a variável fiscal tem papel importante na determinação das condições de crescimento da economia em relação ao seu potencial.
Mansueto defende revisão de gastos
Mansueto Almeida afirmou que há medidas capazes de ajudar no controle das despesas públicas sem que o debate precise ser reduzido à discussão sobre um “Estado mínimo”.
O economista criticou algumas regras de dedução de gastos privados e citou como exemplo a diferença entre as despesas com educação e saúde. Segundo ele, há espaço para mudanças que poderiam contribuir para conter o crescimento dos gastos públicos.
“O nosso problema social não tem nada a ver com o social”, afirmou, ao defender uma revisão de despesas e benefícios que, em sua avaliação, não necessariamente precisam estar vinculados à discussão ideológica sobre o tamanho do Estado.
Debate fiscal volta ao centro da política monetária
As discussões do painel reforçaram a relação entre política fiscal e política monetária e taxa de juros. Para os participantes, o comportamento das contas públicas é um dos fatores que influenciam as condições necessárias para que os juros possam permanecer em trajetória de queda.
Loyo ressaltou que a comparação internacional precisa levar em conta as diferenças entre os ciclos econômicos e as condições monetárias de cada país. No caso brasileiro, a avaliação é que a política monetária já vinha operando em território bastante restritivo, abrindo espaço para cortes graduais.
O debate, no entanto, permanece condicionado à evolução da atividade, da inflação e das expectativas. Ao menos na avaliação de Loyo, os dados observados até agora não justificariam uma interrupção urgente do processo de flexibilização.






