A Super Quarta de 29 de abril deve consolidar movimentos em direções opostas no Brasil e nos Estados Unidos. O Comitê de Política Monetária (Copom) tende a cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, levando-a de 14,75% para 14,50% ao ano, enquanto o Federal Reserve (Fed) deve manter o intervalo dos Fed funds entre 3,50% e 3,75%.
A maior parte das casas ouvidas pelo EuQueroInvestir prevê o corte da Selic acompanhado de sinalização cautelosa para o ritmo adiante, sobretudo diante da piora das expectativas de inflação e do choque recente nos preços do petróleo.
Para o Fed, a probabilidade de manutenção supera os 90%, segundo levantamentos de mercado, com pressão maior recaindo sobre o tom da coletiva e sobre eventuais ajustes no chamado dot plot, que reúne as projeções dos diretores do colegiado.
O cenário é desconfortável para os dois bancos centrais. O conflito no Oriente Médio levou o barril do petróleo a patamares acima de US$ 100 e renovou a preocupação com inflação importada, contaminando expectativas em horizontes mais longos.
No Brasil, dados de atividade do primeiro trimestre mostraram reaceleração da economia, e o IPCA de março veio acima do esperado. Nos Estados Unidos, o CPI de março acelerou para 3,3% na comparação anual, e o mercado de trabalho segue resiliente, com payrolls de 178 mil postos.
O Boletim Focus capturou essa virada. As projeções para o IPCA de 2026 saltaram de 4,10% para 4,86% nas últimas semanas, em sete edições seguidas de revisão para cima, segundo levantamento do BTG Pactual (BPAC11). A mediana para a Selic no fim deste ano também subiu, refletindo a percepção do mercado de que o ciclo de cortes ficou mais curto do que se projetava em fevereiro e março.

Copom calibra corte em meio à piora do cenário
A reunião do Copom começa nesta terça-feira (28) e a decisão será divulgada na quarta, após as 18h30. A expectativa central é de mais um corte de 25 pontos-base, mantendo o ritmo adotado em março, quando o Banco Central iniciou o que chamou de processo de calibração após o ciclo de alta da Selic concluído em 2025.
O que o mercado espera
O BTG Pactual sustenta a tese de continuidade desse processo, com a Selic encerrando 2026 em 13,00% caso o cenário externo coopere. Em relatório divulgado nesta segunda-feira (27), o banco apontou que a evolução desde março foi desfavorável, com piora da inflação corrente, das expectativas e dos riscos externos.
“Esperamos que o Copom reduza a taxa Selic em 25 pontos-base e mantenha sua orientação de calibração”, afirma o relatório do BTG Pactual. O banco projeta que a declaração deve reiterar a postura restritiva da política monetária e o compromisso de avaliar a persistência do choque do petróleo nos chamados efeitos de segunda ordem.
A leitura é compartilhada por Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, que destacou a dificuldade do Banco Central em obter desaceleração econômica no ritmo desejado.
“Quando você coloca dentro dos modelos matemáticos do Banco Central petróleo mais alto, com câmbio talvez um pouco mais apreciado, expectativas para cima, inflação corrente mais alta, e uma atividade que talvez não desacelere tanto quanto o Banco Central imaginava, a gente deve ver uma expectativa de projeção de inflação mais alta. Por isso, a gente está com essa cautela de que eles cortem somente 25 pontos-base, não possam ser mais ousados nesse movimento”, afirma Kautz.
Peterson Rizzo, gerente de relações com investidores da Multiplike, segue na mesma direção, projetando corte de 0,25 ponto seguido de pausa, em razão da piora das expectativas e do risco fiscal.
O guidance no centro do debate
A discussão decisiva entre as casas está menos no número da decisão e mais na sinalização que o Copom dará para a reunião de junho. Para Paula Zogi, estrategista-chefe da Nomad, o tom do comunicado vai pesar tanto quanto o movimento.
“As expectativas para a Super Quarta giram em torno de pouca novidade em termos de juros, mas muito foco em sinalização de ritmo futuro. A sinalização para junho ficará no radar, já que a expectativa de cortes é importante para elevar a confiança dos investidores e manter perspectiva positiva para ativos de risco. Caso o comunicado afaste a expectativa de cortes, o mercado pode reagir negativamente”, afirma Paula.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, vai pelo mesmo caminho e enxerga o Copom mais firme no discurso.
“A Super Quarta tende a ser menos sobre a decisão em si e mais sobre o recado implícito das autoridades monetárias para os próximos passos. No Brasil, a tendência é de continuidade do ciclo com um corte de 0,25 ponto percentual, mas acompanhado de um discurso mais prudente, diante da piora das expectativas de inflação, reduzindo a visibilidade sobre o ritmo à frente”, afirma Sidney.
Há, contudo, voz dissidente sobre o próprio movimento. Felipe Sant’Anna, especialista de investimentos da Axia Investing, considera, em avaliação pessoal, que a manutenção da Selic seria preferível neste momento.
“O mercado mais ruidoso projeta um 0,25 de corte, dando continuidade na queda da Selic. Eu, particularmente, penso que manter a Selic agora seria o ideal, porque existem fatos novos que estão impactando e não há qualquer definição em relação à guerra. Está todo mundo se mexendo com relação à energia, subiu o preço de passagem aérea. Deterioramos a expectativa de IPCA pela sétima semana consecutiva”, afirma Sant’Anna.
A trajetória da Selic até o fim de 2026 também depende dessa comunicação. O cenário-base do BTG Pactual prevê cortes adicionais de 25 pontos-base nas próximas reuniões, levando a taxa a 13,00% no fim do ano.
O banco ressalva, contudo, que os riscos são assimétricos e que a hipótese de um ciclo de 200 pontos-base ao longo de 2026 fica significativamente reduzida caso o conflito no Oriente Médio se prolongue e as expectativas continuem desancoradas.
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Fed caminha para manutenção com inflação resiliente
Do outro lado do Atlântico, o cenário é de quase certeza quanto ao movimento. A probabilidade de manutenção do intervalo de Fed funds em 3,50% e 3,75% supera os 90% nas plataformas de mercado, e a discussão se concentra no comunicado e na coletiva de imprensa do presidente Jerome Powell, prevista para o início da tarde de quarta-feira pelo horário de Brasília.
Quadro macro pressiona o Comitê
A inflação americana segue acima da meta de 2,0%, e o ambiente desfavorável para cortes ganhou novos contornos com o conflito no Oriente Médio. O CPI de março avançou para 3,3% no acumulado em 12 meses, vindo de 2,4% no mês anterior, e os payrolls somaram 178 mil postos, indicador de mercado de trabalho ainda apertado.
A BlackRock avalia que as pressões inflacionárias são estruturais e antecedem o choque de oferta atual. Em comentário semanal divulgado nesta segunda-feira, a gestora aponta que envelhecimento populacional, restrições à imigração, expansão de capex em inteligência artificial e tarifas comerciais sustentam núcleos de inflação acima dos níveis pré-pandêmicos.
A leitura da casa é de que os juros devem permanecer mais altos por mais tempo, com bonds longos perdendo papel de proteção contra quedas em ações.
Diante disso, o mercado precifica menos cortes para o ano e passou a considerar a possibilidade de o Fed permanecer parado até 2027.
O recado da coletiva
A maior atenção dos investidores recai sobre o tom de Powell na coletiva, que pode ajustar as expectativas para a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário americano.
“Nos EUA, a probabilidade de manutenção é elevada, acima de 90% de chance. Com a inflação ainda longe da meta e as novas pressões sobre combustíveis, é esperado que o tom do comunicado seja de cautela, indicando pausa mais longa”, afirma Paula Zogi.
A estrategista da Nomad acrescenta que Powell deve usar o espaço para reforçar a leitura de que a política monetária se encontra em território entre neutro e ligeiramente restritivo, reduzindo o espaço para cortes mais agressivos. Um tom mais dovish, segundo ela, poderia estimular a busca por ativos de risco. Esta é, segundo a Nomad, a última reunião do Fed sob a presidência de Powell, cujo segundo mandato à frente do colegiado se encerra nas próximas semanas.
Câmbio e carry trade no radar dos investidores
Para investidores brasileiros, a combinação de Copom em corte e Fed em pausa atualiza o cálculo do diferencial de juros. A Selic acima dos dois dígitos e o Fed funds entre 3,50% e 3,75% sustentam fluxo de carry trade, em que investidores tomam recursos em economias com juros menores e aplicam em juros maiores.
Felipe Sant’Anna, da Axia Investing, lembra que o ambiente desta semana extrapola o eixo Brasil-Estados Unidos.
“Nesta semana, para além de Brasil e Estados Unidos, nós teremos decisão de juros no Canadá, Reino Unido, Suíça, Japão, tudo isso junto com a maior economia do mundo e nosso cenário local. Expectativa majoritária para todo mundo é manutenção na taxa”, afirma Sant’Anna.
A BlackRock mantém posição comprada em renda variável de mercados emergentes e em dívida em moeda forte de países exportadores de commodities, citando o Brasil como um dos beneficiários potenciais do cenário de oferta restrita de petróleo.
Para a renda fixa local, contudo, o discurso do Copom pode acentuar a volatilidade da curva de juros nos próximos pregões, sobretudo em vencimentos intermediários, mais sensíveis às projeções para a Selic terminal de 2026.
O IPCA-15 de abril, divulgado nesta terça-feira (28), entra como variável adicional para calibrar leituras antes do anúncio do Copom. Caso o índice surpreenda para cima, a margem para cortes adicionais pode encolher ainda mais, reduzindo o espaço de manobra do Banco Central.
FAQ Super Quarta
Confira as principais respostas para as dúvidas da Super Quarta.
Super Quarta é o nome dado ao dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil e o Federal Open Market Committee (FOMC) do Federal Reserve anunciam suas decisões de política monetária na mesma quarta-feira. O encontro de calendários costuma intensificar a volatilidade no câmbio, na curva de juros e na bolsa, já que os mercados precisam digerir os dois movimentos em poucas horas.
A decisão do Fed é divulgada às 15h pelo horário de Brasília, seguida da coletiva de imprensa de Jerome Powell às 15h30. A decisão do Copom sai após as 18h30, com o comunicado publicado no site do Banco Central. Não há coletiva imediata, e a ata da reunião é divulgada na terça-feira da semana seguinte.
O cenário-base do BTG Pactual prevê a Selic a 13,00% ao fim do ano, com cortes graduais de 25 pontos-base nas próximas reuniões. A mediana do Boletim Focus subiu de 12,50% para 13,00% nas últimas semanas, refletindo a piora das expectativas de inflação. Os riscos são assimétricos, com possibilidade de ciclo mais curto caso o conflito no Oriente Médio se prolongue.
O dot plot é o gráfico de pontos divulgado trimestralmente pelo Federal Reserve, em que cada um dos 19 dirigentes do FOMC indica sua projeção individual para a taxa básica de juros americana ao fim de cada um dos próximos anos. O documento é uma das principais ferramentas para o mercado antecipar o ritmo do ciclo monetário. A próxima atualização sai apenas em junho, mas o tom da coletiva pode ajustar as expectativas antes disso.






