O Brasil pode enfrentar uma recessão acompanhada pela contração do consumo das famílias em 2027, caso os estímulos ao crédito ampliem o endividamento neste ano e sejam seguidos por um processo mais intenso de desalavancagem.
O alerta consta em relatório do BTG Pactual (BPAC11) sobre a situação financeira das famílias brasileiras. O banco ressalta que essa possibilidade integra um cenário extremo, enquanto as projeções mais moderadas ainda apontam crescimento do consumo no próximo ano.
Para 2026, a expectativa é de relativa resiliência. Iniciativas governamentais de crédito, estímulos fiscais e a continuidade do endividamento devem sustentar um avanço de aproximadamente 2,2% a 2,3% no consumo.
“A economia pode permanecer relativamente resiliente em 2026 justamente porque as famílias continuam se alavancando”, afirma o BTG.
O problema pode aparecer posteriormente. Quanto maior for o endividamento das famílias na entrada de 2027, maior tende a ser o impacto quando os estímulos fiscais diminuírem e os pagamentos das dívidas ganharem peso no orçamento.
Famílias estão mais endividadas do que em 2014
O endividamento total das famílias alcançou aproximadamente 49,7% da renda, acima dos 38,2% registrados em março de 2014. Já o comprometimento da renda com o pagamento das dívidas subiu de 22,9% para 29,3%.
“As famílias partem de uma posição mais vulnerável do que em 2014”, destaca o relatório.
A composição do crédito também ficou mais arriscada, segundo o BTG. Cartões de crédito e empréstimos pessoais sem desconto em folha ganharam espaço, especialmente entre famílias de menor renda, que possuem uma reserva financeira mais limitada.
Estudos citados pelo banco mostram que cada aumento de 1 ponto percentual na relação entre dívida e renda durante o ciclo anterior esteve associado a uma queda de 1,24% no consumo durante a desaceleração.
Consumo pode recuar em diferentes cenários
No cenário moderado, que considera crescimento de 2% da renda real e redução gradual do endividamento, o consumo avançaria apenas 0,8% em 2027. O número ficaria abaixo da projeção atual do BTG, de alta de 1%.
Caso a renda real permaneça estável, o consumo pode recuar aproximadamente 0,4%. Em uma trajetória semelhante à observada durante a crise de 2015 e 2016, a contração poderia chegar a 2,2%.
No cenário mais favorável, com alta de 3,7% da renda real, o consumo ainda cresceria cerca de 2,2%. O BTG considera, porém, que existe um risco relevante de o resultado ficar entre os cenários moderado e fraco.
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Estímulo maior pode provocar ajuste mais intenso
O cenário extremo considera que as políticas de crédito levem o endividamento das famílias a cerca de 51% da renda até dezembro de 2026. Posteriormente, essa proporção recuaria para 48,7% até o fim de 2027.
Nesse caso, o impulso negativo do crédito — diferença entre os novos empréstimos e os pagamentos das dívidas — poderia se aproximar de 6%. O percentual seria pior do que o nível de aproximadamente 4% registrado durante a crise de 2015 e 2016.
“Estímulos de crédito mais fortes sustentariam a atividade no curto prazo, mas criariam um ajuste posterior maior”, conclui o BTG.
Segundo o banco, a intensidade desse ajuste poderia levar simultaneamente a economia brasileira a uma recessão e o consumo das famílias a uma contração em 2027.






