O consumidor brasileiro tem surpreendido pela resiliência nos últimos dois anos, mas o BTG Pactual alerta que essa força pode estar sendo financiada a crédito — e a conta pode chegar em 2027.
Em relatório divulgado nesta semana, os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon argumentam que a alavancagem das famílias emergiu como o principal risco macro para o consumo brasileiro nos próximos 12 a 18 meses.
“O consumidor brasileiro permaneceu notavelmente resiliente não porque a acessibilidade melhorou, mas porque mercados de trabalho mais fortes, estímulos fiscais e crédito em expansão continuaram a sustentar os gastos apesar das taxas de juros reais historicamente elevadas“, afirmam Guanais, Cesquim e Cendon.
Resiliência hoje, fragilidade amanhã
Uma das principais conclusões do relatório é que a força recente do consumo não deve ser interpretada como sinal de saúde financeira das famílias. Parte da resiliência observada desde a pandemia foi financiada por expansão de alavancagem — sustentada por mercado de trabalho aquecido, transferências fiscais, inclusão financeira e crédito abundante.
O endividamento das famílias já superou os níveis observados antes da recessão de 2014, enquanto o serviço da dívida atingiu máximas históricas.
“A evidência histórica sugere que os booms de crédito tipicamente deslocam consumo futuro para o presente, em vez de aumentar permanentemente o poder de compra”, ressaltam os analistas. Apesar disso, o cenário-base do BTG é de desaceleração, não de recessão — o que não elimina riscos relevantes à frente.
Qualidade do crédito preocupa
Além do volume, a composição do crédito piorou em relação a ciclos anteriores. Boa parte do crescimento incremental veio de produtos de custo mais elevado, como empréstimos pessoais sem garantia, crédito consignado e saldo de cartão de crédito.
A expansão beneficiou de forma desproporcional as famílias de menor renda — que têm maior propensão marginal ao consumo, mas menor reserva financeira.
“Esses tomadores historicamente exibem as maiores reduções de consumo quando a desalavancagem começa”, alertam Guanais, Cesquim e Cendon.
Isso significa que o impacto de uma eventual normalização dos balanços das famílias pode ser desigual, penalizando especialmente varejistas com maior exposição ao público de baixa renda e a compras discricionárias.
Modelo aponta impulso negativo de 3,2%
O modelo do BTG simula o impacto da desalavancagem sobre o consumo com base em diferentes cenários. No cenário-base, a alavancagem sobe levemente de 48,7% em abril de 2026 para 49,4% até o fim do ano, antes de recuar gradualmente para 47,9% ao fim de 2027.
Com crescimento real de renda de 2% e a trajetória esperada para a Selic, o modelo gera um impulso financeiro de -3,2%, projetando crescimento do consumo de apenas 0,8% em 2027, ante cerca de 2,2% em 2026.
“Os cenários de risco mostram assimetria clara para baixo: se o crescimento real da renda desacelerar para zero, o consumo pode contrair cerca de 0,4%“, explicam os analistas.
Em cenários de desalavancagem mais agressiva ou de expansão excessiva de crédito em 2026 seguida de correção abrupta, o impulso financeiro pode se aproximar de -6% — abaixo do piso observado durante a recessão de 2015 e 2016.
Novo marco para avaliar o varejo
O BTG argumenta que a taxa Selic não será mais o único termômetro relevante para avaliar o setor de varejo.
“O ritmo de desalavancagem das famílias pode se tornar uma variável igualmente importante, especialmente à medida que a economia avança além da fase atual de consumo sustentado por crédito”, concluem Guanais, Cesquim e Cendon.
Empresas com maior exposição ao consumidor de baixa renda, compras discricionárias e financiamento ao consumidor tendem a ser as mais vulneráveis. Já negócios com demanda estrutural recorrente ou maior exposição ao público de alta renda devem se mostrar relativamente mais resilientes no ciclo que se aproxima.
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