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Quando a eleição mexe nos preços, surgem oportunidades

Quando a eleição mexe nos preços, surgem oportunidades

Com o início do ciclo eleitoral de 2026, o mercado brasileiro passa a reprecificar juros, câmbio e Bolsa diante da incerteza fiscal e política

O mercado brasileiro já entrou em modo eleitoral. Os ativos locais começaram a reagir aos possíveis desdobramentos políticos da disputa, e a tendência é que essa volatilidade aumente ao longo dos próximos meses. 

A eleição presidencial que arranca em outubro deve permanecer acirrada até o segundo turno. Em cenários assim, o mercado costuma ajustar expectativas constantemente, especialmente em relação à condução fiscal, à política econômica e ao ambiente institucional do país para os próximos quatro anos de mandato. 

Nas últimas semanas, esse movimento já ficou evidente na curva de juros brasileira. Os juros futuros (DIs) abriram cerca de 50 pontos-base no período, elevando significativamente as taxas dos títulos públicos.

Com o cenário incerto e os juros elevados por mais tempo, os títulos pós-fixados tendem a ganhar destaque no curto prazo. Além de apresentarem baixa volatilidade, oferecem retornos alinhados à Selic, atualmente em 14,50% ao ano, embora nossas projeções indiquem queda para algo próximo de 13,50% até o fim de 2026. 

Por outro lado, os títulos prefixados e indexados à inflação sofrem mais com a marcação a mercado. Quando os juros sobem, seus preços caem, como vimos nos últimos dias. Ainda assim, esse movimento cria oportunidades interessantes para investidores com horizonte de longo prazo. 

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Títulos indexados à inflação com juros reais acima de 7% ao ano superaram o CDI em aproximadamente 75% dos períodos analisados nas últimas duas décadas. O Tesouro Prefixado 2037, por exemplo, chegou a negociar próximo de 14,43% ao ano, um patamar elevado quando comparado ao histórico dos últimos 20 anos. 

Na mesma janela temporal de vinte anos, títulos prefixados adquiridos acima de 14% ao ano superaram o CDI em 80% dos anos analisados, como mostra o gráfico abaixo. 

O cenário atual guarda algumas semelhanças com 2014, período marcado por aumento dos gastos públicos, inflação acima da meta e elevação da percepção de risco do mercado brasileiro.  

No entanto, é importante lembrar que a volatilidade elevada também exige disciplina. Isso significa que, para capturar esses prêmios de forma eficiente, o investidor precisa manter posições compatíveis com sua tolerância ao risco, evitando decisões impulsivas diante das oscilações dos períodos eleitorais. 

O dólar no centro das atenções 

Além da Renda Fixa, o mercado de câmbio também costuma ganhar protagonismo durante ciclos eleitorais. Historicamente, o dólar reage ao aumento das incertezas, principalmente quando o mercado tenta antecipar qual será a direção da política fiscal e econômica do próximo governo. 

Quando investidores entendem que determinado candidato pode conduzir uma agenda favorável ao ambiente de negócios, o real tende a se fortalecer. Por outro lado, cenários associados a aumento de gastos públicos, deterioração fiscal ou maior instabilidade institucional normalmente pressionam a moeda brasileira. 

À medida que a eleição se aproxima, a volatilidade do câmbio costuma aumentar significativamente. Pesquisas eleitorais, discursos, debates e propostas econômicas passam a influenciar diariamente as expectativas do mercado.  

É importante destacar que os juros reais elevados no Brasil, bem como a valorização de commodities como petróleo e minério de ferro no cenário internacional, tendem a fortalecer o real brasileiro.  

No entanto, essas condições de mercado são voláteis, de modo que observamos valor em manter uma parcela do portfólio em posição estrutural em ativos dolarizados, mesmo em momentos de fortalecimento do real. 

Em 2018, por exemplo, o mercado reagiu positivamente às expectativas de avanço das reformas econômicas, especialmente da Previdência, aprovada em 2019. Isso contribuiu para uma melhora temporária da percepção de risco e momentos de valorização do real. 

Para o investidor, períodos como esse reforçam a importância da diversificação e da proteção cambial. Manter parte do patrimônio alocada em ativos dolarizados pode ajudar a reduzir os impactos de uma eventual desvalorização do real durante momentos de maior instabilidade. 

O impacto das eleições na Bolsa

Eleições, sozinhas, não determinam a direção da Bolsa brasileira. Fatores como preços do petróleo, minério de ferro e crescimento internacional também exercem forte influência sobre o Ibovespa. Ainda assim, o histórico recente mostra que períodos eleitorais costumam ampliar a volatilidade dos ativos locais. 

Isso acontece porque o mercado passa a recalibrar expectativas relacionadas à trajetória fiscal, inflação e crescimento do PIB. 

Seguindo essas pistas, podemos dizer que o processo já começou em 2026 e, na análise dos últimos ciclos presidenciais, alguns padrões ficam claros. 

Em 2022, por exemplo, o mercado enfrentou elevada polarização política, inflação global, juros internacionais em alta e dúvidas sobre a condução fiscal no Brasil. Mesmo assim, quem se posicionou ao longo do pleito eleitoral em uma janela de médio prazo conseguiu capturar bons retornos – como entre 30 de abril de 2022 e 30 de abril de 2026, quando o índice acumulou alta de 68%, superando o CDI no período. 

Para investidores que preferiram selecionar ativos específicos, alguns resultados foram ainda mais expressivos. O Banco Itaú (ITUB4) ofereceu retorno de 169%, enquanto as ações da Petrobras (PETR4) entregaram valorização superior a 340% no mesmo intervalo. 

Em ciclos eleitorais, muitos ativos brasileiros sofrem algum nível de volatilidade. A diferença costuma estar na intensidade ao longo dos meses. Ao mesmo tempo, o mercado começa a monitorar oportunidades em setores mais descontados da Bolsa, especialmente aqueles ligados ao ciclo doméstico, como são as small caps. 

Historicamente, esses segmentos costumam reagir com maior volatilidade quando o mercado passa a enxergar queda estrutural dos juros, melhora da percepção fiscal e retomada do crescimento econômico. Assim, costumam figurar entre as principais altas. 

No entanto, esse movimento dependeria diretamente de uma política fiscal mais restritiva por parte do próximo governo. Em caso de expansão de gastos, essas empresas podem sofrer ao menos no curto e médio prazo. 

Mais segurança na volatilidade eleitoral

Para muitos investidores, o mais importante é estar posicionado em ativos de qualidade, com diversificação adequada para preservar o patrimônio e buscar boa rentabilidade.  

Na prática, isso significa combinar títulos pós-fixados, títulos indexados à inflação e prefixados em níveis atrativos, além de posições dolarizadas no exterior e empresas resilientes, com forte geração de caixa e capacidade de navegar em cenários desafiadores.  

No fim do dia, as eleições raramente tornam o mercado mais previsível, mas quase sempre deixam os preços mais sensíveis às expectativas. Por isso, disciplina e proteção podem ser tão importantes quanto o próprio retorno.