A escalada dos conflitos no Oriente Médio está levando famílias de altíssimo patrimônio — as chamadas UHNW, sigla em inglês para ultra-high-net-worth — a rever estratégias de proteção patrimonial. Além da volatilidade nos mercados, cresce a preocupação com soberania patrimonial, estabilidade institucional e risco de jurisdição.
O cenário atual combina tensão militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, reconfiguração das alianças estratégicas no Golfo e aumento dos gastos militares em economias europeias. Historicamente, ciclos de expansão militar costumam vir acompanhados de crescimento da dívida pública, mudanças nas políticas tributárias e maior escrutínio sobre fluxos internacionais de capital.
“O conflito em si pode ser temporário. A mudança estrutural nas prioridades fiscais e estratégicas dos países é o que gera impacto duradouro”, afirma Eron Falbo, CEO da Bridge Legacy, consultoria especializada em estruturas internacionais para famílias brasileiras.
Segundo ele, a gestão patrimonial tradicional sempre esteve baseada na diversificação entre classes de ativos. No cenário atual, porém, investidores passaram a considerar também a exposição geopolítica das estruturas financeiras.
“É preciso avaliar a exposição concentrada em uma única jurisdição, a dependência de sistemas financeiros específicos, a vulnerabilidade a mudanças fiscais extraordinárias e o risco de controles de capital ou restrições regulatórias”, diz.
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Para Falbo, a estratégia não envolve abandonar centros financeiros tradicionais como Londres, Zurique ou Miami, mas reduzir a concentração de risco soberano por meio da distribuição de estruturas patrimoniais em diferentes jurisdições.
Europa e o custo do rearmamento
A Europa começa a enfrentar um novo ciclo fiscal. O aumento dos gastos militares financiado por expansão do gasto público levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida em economias que já convivem com baixo crescimento e envelhecimento populacional.
“Quando a conta do rearmamento se tornar insustentável — e historicamente isso acontece — governos buscarão receita onde o patrimônio está mais visível e politicamente menos protegido”, afirma Falbo.
Mudanças regulatórias recentes reforçam essa percepção entre investidores patrimoniais. Portugal encerrou o investimento imobiliário no programa Golden Visa e alterou o regime de Residente Não Habitual. A Grécia elevou os valores mínimos exigidos para investimento, enquanto o Reino Unido aboliu o regime de non-dom, que durante décadas atraiu grandes fortunas estrangeiras.
Segundo Falbo, a mudança levou à saída de cerca de 16,5 mil milionários do Reino Unido, enquanto 9,8 mil migraram para os Emirados Árabes Unidos em 2025.
Pressão fiscal também avança no Brasil
No Brasil, alterações recentes na legislação tributária também ampliaram o debate sobre planejamento patrimonial internacional.
A Lei 14.754/2023 passou a tributar fundos exclusivos e estruturas offshore. Já a Lei 15.270/2025 ampliou o alcance dessas medidas. Além disso, a partir de 2026 entra em vigor a tributação de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil mensais.
“Não são medidas isoladas, mas um movimento sistemático de ampliação da tributação sobre grandes patrimônios”, afirma Falbo.
Com dívida pública próxima de 95% do PIB, a tendência, segundo ele, é de maior pressão arrecadatária nos próximos anos.
“A pergunta não é se o capital buscará proteção internacional, mas para onde”, afirma.
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Diversificação entre jurisdições ganha espaço
Nesse contexto, cresce entre consultores patrimoniais o conceito de resiliência jurisdicional — estratégia que busca estruturar o patrimônio de forma a reduzir a dependência de um único país.
Na prática, isso envolve diversificação bancária internacional, estruturas patrimoniais multilocalizadas e separação entre residência, domicílio fiscal e custódia de ativos, além de planejamento sucessório com proteção transnacional.
Ao mesmo tempo, países do Golfo passam a ganhar espaço no radar de investidores patrimoniais. Com regimes de tributação zero sobre renda pessoal, acordos econômicos bilionários com os Estados Unidos e alianças estratégicas reforçadas, a região vem atraindo capital internacional.
Para Falbo, conflitos geopolíticos acabam acelerando decisões que já estavam em curso entre grandes fortunas.
“O investidor sofisticado não reage ao evento. Ele se antecipa ao ciclo”, conclui Falbo.






