A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, anunciada no fim de semana pelo governo dos Estados Unidos, reacendeu o prêmio geopolítico no mercado de petróleo. Ainda assim, a leitura predominante do mercado é que o episódio produz mais sentimentos do que um choque de oferta, num momento em que a produção global segue confortável e a Venezuela já opera com produção limitada.
No BTG Pactual (BPAC11), a avaliação é de que o movimento recente do Brent — que chegou a recuar levemente — reflete justamente essa assimetria entre barulho político e impacto econômico. A produção venezuelana responde hoje por cerca de 1% da oferta mundial, e suas exportações são, em grande parte, absorvidas pela China, o que reduz a capacidade de o evento provocar disrupções imediatas nos fluxos internacionais.
“Para o setor de óleo e gás, entendemos que o impacto no curto prazo é marginal. A Venezuela já vinha perdendo produção nos últimos meses devido a restrições na infraestrutura de exportação, e isso dificilmente será um fator relevante para alterar o balanço global”, avalia o BTG em nota setorial.
Essa leitura ajuda a explicar por que, mesmo diante da escalada retórica e de relatos de explosões em Caracas, o mercado não precificou um choque de oferta. Com a OPEP mantendo a produção estável e sinais de excesso de oferta projetados para 2026, os eventos geopolíticos adicionam volatilidade, mas não oferecem suporte sustentado aos preços, segundo o banco.
O risco muda de natureza no médio e longo prazo
Se no curto prazo o impacto é limitado, o debate ganha outra dimensão quando se olha adiante. Na avaliação do BTG Pactual, o principal vetor de incerteza não é a interrupção atual, mas a possibilidade de adição incremental de barris ao mercado em um cenário de normalização institucional na Venezuela.
“Mesmo em um cenário construtivo, estimamos que levaria cerca de dois a três anos para que a Venezuela voltasse a ser um player relevante de oferta. Não se trata de uma simples ‘autorização e retomada’: uma recuperação duradoura exige um arcabouço fiscal e legal crível, além de um ecossistema funcional de serviços e infraestrutura”, estima o banco em relatório.
Segundo o BTG, gargalos logísticos — como oleodutos, acesso a diluentes e capacidade de escoamento — seguem como entraves centrais. A qualidade do petróleo também pesa: a produção venezuelana é majoritariamente de óleo pesado, que exige mistura com petróleos mais leves ou nafta para viabilizar transporte e processamento.
Esse ponto, inclusive, aparece nas operações recentes da estatal PDVSA. Reportagens citadas pelo banco indicam que a companhia chegou a solicitar redução de produção em joint ventures diante do acúmulo de estoques e da escassez de diluentes, o que reforça a avaliação de que a resposta da oferta tende a ser lenta e sujeita a retrocessos.
Além disso, qualquer retomada relevante teria de ser negociada dentro da OPEP, já que a Venezuela segue como membro do cartel — mais uma camada de incerteza para o horizonte de produção.
Impacto no Brasil tende a ser pontual
Para o mercado brasileiro, o BTG avalia que os efeitos são mais localizados do que sistêmicos. Caso haja algum reflexo indireto, ele deve se concentrar em óleos pesados que competem por mercados finais semelhantes, como Peregrino, da PRIO (PRIO3), Papa-Terra e Atlanta, da Brava (BRAV3), operados por empresas independentes.
“Observamos, no entanto, diferenças importantes de destino. O óleo de Papa-Terra é vendido no mercado doméstico para refinarias da Petrobras, enquanto o óleo de Atlanta é direcionado à Ásia para uso como bunker”, destaca o BTG.
Já a Petrobras (PETR4) aparece menos exposta a esse ruído. Com um portfólio estruturalmente mais leve, concentrado no pré-sal, a estatal tende a sentir pouco o impacto de eventuais distorções em graus específicos de petróleo pesado.
Onde pode haver assimetria positiva
No cenário internacional, o BTG aponta maior potencial de assimetria em empresas com exposição direta ou reivindicações na Venezuela. Entre elas estão Repsol (REP) e Chevron (CVX; CHVX34), com cerca de 10% de suas produções ligadas ao país, além de ConocoPhillips e ExxonMobil, que mantêm disputas arbitrais relevantes.
O banco menciona ainda a Maha Capital, antiga Maha Energy, que possui uma opção de compra relacionada ao ativo PetroUrdaneta, na Venezuela — um caso de small cap com beta elevado, mas sensível a qualquer avanço institucional.
O choque macro: petróleo, dólar e juros
Na leitura de Marink Martins, analista internacional da EQI Research, o episódio na Venezuela não deve ser analisado apenas pelo prisma do petróleo.
“Embora ainda seja cedo para medir as repercussões, o choque tende a bater direto nos três grandes preços da economia global: o valor relativo do dólar, o custo do dinheiro medido pela Treasury de 10 anos dos EUA e o preço do petróleo”, analisa o Martins.
Marink chama atenção para um ponto menos discutido: a segurança das rotas marítimas. Segundo ele, a fase de maior estabilidade do pós-Guerra Fria ajudou a sustentar cadeias globais previsíveis e commodities mais baratas.
“A combinação de isolacionismo com intervencionismo pode produzir um ambiente bem diferente, com risco logístico e prêmio de incerteza embutido no petróleo”, avalia.
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Mercado acionário: pressão vendedora em foco
O Bradesco BBI segue linha semelhante ao BTG ao avaliar que a captura de Maduro adiciona incerteza política, mas tem impacto limitado no curto prazo sobre o mercado global de petróleo. Com a perspectiva de excesso de oferta em 2026, o banco destaca que qualquer retomada da produção venezuelana seria gradual e enfrentaria descontos devido à menor qualidade do óleo.
No mercado doméstico, porém, o foco se desloca para o comportamento das ações. O BBI observa sinais claros de pressão vendedora no setor de E&P listado na B3, com destaque para a Brava Energia, que concentra quase 20% do free float alugado. PRIO e Petroreconcavo (RECV3) também aparecem com níveis elevados de posições vendidas.
“O custo de carrego ainda favorece a manutenção dessas posições, mas a estrutura atual sugere assimetria elevada”, aponta o Bradesco BBI, ressaltando que catalisadores positivos ou eventos corporativos podem desencadear movimentos abruptos de recompras.






