A mineração brasileira começa a entrar em um novo ciclo de investimentos, impulsionado sobretudo pela corrida global por minerais críticos e pela transição energética. A avaliação é do Safra, após videoconferência com Rinaldo Mancin, diretor de Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), que atualizou a visão da entidade sobre o momento do setor no país.
Na leitura da casa, o pano de fundo é construtivo, mas o ritmo de expansão ainda dependerá de avanços coordenados em política pública, financiamento e geopolítica.
O Safra destaca que o Brasil tem espaço para capturar uma nova onda de investimentos em mineração.
Segundo a casa, a expectativa é de aportes de cerca de US$ 80 bilhões nos próximos anos, dos quais entre US$ 13 bilhões e US$ 15 bilhões devem ser direcionados especificamente a terras raras. Embora o minério de ferro siga dominante na produção nacional, cobre, níquel e terras raras ganham relevância estratégica diante da demanda ligada à eletrificação e à transição energética.
“O Brasil está entrando em um novo ciclo de investimentos em mineração”, escreveram os analistas do Safra. Contudo, o próprio relatório pondera que “os desafios estruturais persistem”, o que impede uma leitura mais linear para o setor.
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Minerais críticos
Um dos principais pontos de atenção está na dependência global da China no refino e processamento de terras raras.
O Safra salienta que, embora o Brasil tenha base mineral relevante, a cadeia de maior valor agregado ainda segue fortemente concentrada no mercado chinês, tanto em capacidade instalada quanto em patentes.
Em outras palavras, o país ainda não resolveu um gargalo essencial para transformar potencial geológico em protagonismo industrial.
No campo regulatório, a leitura do banco é mista. De um lado, a Lei nº 2780 ajuda a fortalecer o ambiente de investimento ao criar uma política nacional para minerais críticos e prever incentivos como depreciação acelerada e isenção de imposto de importação. De outro, novas taxas ambientais e o imposto seletivo seguem como focos de pressão sobre a estrutura de custos do setor.
O Safra também chama atenção para o risco operacional embutido na agenda trabalhista, especialmente para trabalhadores de minas subterrâneas. Ainda assim, o banco pondera que pode haver criação de valor caso a regulação avance para padrões mais próximos dos observados em Canadá e Austrália.
Já a modernização da chamada legislação de cavernas, tema particularmente sensível para Vale (#VALE3) em Carajás, segue travada, com expectativa limitada de avanços relevantes em 2026.
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Geopolítica e consolidação
A geopolítica dos minerais críticos também apareceu como vetor importante da tese.
O Safra afirma que o mecanismo de piso de preços entre Estados Unidos e Austrália passou a servir como referência internacional, enquanto conversas em curso com os norte-americanos podem abrir espaço para um memorando de entendimento com o Brasil, incluindo instrumentos semelhantes e caminhos para transferência de tecnologia.
Ainda assim, o banco ressalta que o Brasil tem adotado uma postura cautelosa, buscando garantir acordos de offtake e captura de valor para o país e para as mineradoras antes de acelerar a oferta. Por isso, a expectativa é de que volumes mais relevantes de nova produção fiquem concentrados a partir de 2028, e não no curto prazo.
Outro ponto levantado no relatório foi a aceleração das transações de fusões e aquisições no setor, puxadas sobretudo pelo interesse chinês em ativos já desenvolvidos.
O Safra cita como exemplos a compra das operações de níquel da Anglo pela MMG e a aquisição da CBA pela Chinalco.
No caso das terras raras, contudo, a participação dos grandes grupos ainda é limitada, o que reduz o apetite por companhias menores.






