O IPCA acima do esperado em setembro fortaleceu a percepção de que o alívio recente da inflação foi apenas temporário. A intensidade dessa piora, entretanto, divide as avaliações do mercado, especialmente quando são observadas as medidas que procuram identificar a tendência mais persistente dos preços.
Para a EQI Research, a composição do índice veio marginalmente mais desfavorável e indica que o período mais positivo da inflação desde o fim do ano passado ficou para trás. A surpresa concentrou-se nos combustíveis e nos preços administrados, enquanto a média dos núcleos também apresentou piora.
O fim da incorporação do bônus de Itaipu já tornava esperada uma forte alta da energia elétrica. O desvio em relação às projeções apareceu principalmente nos combustíveis, que avançaram mais do que o previsto.
“A surpresa altista concentrou-se nos combustíveis e nos administrados, com destaque para a energia elétrica, que subiu quase 8% com o fim da incorporação do bônus de Itaipu, representando o principal impacto no mês. Do ponto de vista qualitativo, o resultado veio marginalmente pior que o esperado”, afirma Igor Cadilhac, economista da EQI Investimentos.
A equipe econômica do Daycoval apresenta uma leitura semelhante sobre a origem da surpresa. Para o banco, a energia elétrica ficou próxima do esperado, enquanto gasolina, alimentos e alguns bens industriais avançaram mais do que o projetado.
O Daycoval ainda identifica pressões iniciais do El Niño sobre os alimentos e espera uma aceleração mais intensa desse grupo no último trimestre. Enquanto que o PicPay adota uma postura mais cautelosa sobre essa relação e considera que os efeitos do fenômeno climático deverão aparecer com maior clareza somente nos últimos dois meses do ano.
Núcleos dividem as avaliações do mercado
Os núcleos retiram ou suavizam itens mais voláteis para indicar quanto da inflação pode permanecer por mais tempo. É justamente nessa leitura que aparecem as principais diferenças entre as análises.
Cadilhac destaca que a média dos núcleos avançou e que a média móvel dos últimos três meses, com ajuste sazonal e anualização, apresentou piora disseminada entre os componentes. O indicador procura reduzir as distorções de cada mês e projetar o ritmo recente dos preços para um período mais longo.
“A foto positiva parece ter ficado para trás. O resultado de setembro veio acima do esperado e com composição qualitativa marginalmente mais desfavorável. A melhora observada nos últimos meses, concentrada em itens pontuais e voláteis, deve dar lugar às pressões relevantes que ainda não se dissiparam completamente”, avalia Cadilhac.
O Daycoval também considera que os serviços subjacentes vieram mais fortes do que o projetado, sobretudo entre os itens intensivos em trabalho. Para o banco, esse comportamento merece atenção porque está relacionado ao mercado de trabalho ainda aquecido.
O PicPay, por outro lado, avalia que os núcleos permaneceram relativamente comportados. A média aumentou, mas os serviços subjacentes desaceleraram e os componentes mais sensíveis à inércia inflacionária perderam força.
“Embora tenha avançado de 0,24% para 0,36%, a média dos núcleos seguiu relativamente comportada. Os serviços subjacentes recuaram de 0,40% para 0,36%, enquanto os componentes mais sensíveis à inércia inflacionária também apresentaram desaceleração”, afirma Matheus Pizzani, economista do PicPay.
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Risco está na contaminação de outros preços
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, combustíveis e alimentos são afetados por choques de oferta que respondem pouco à política monetária. Por isso, o Banco Central tende a observar se essas altas permanecerão concentradas ou serão repassadas aos demais preços da economia.
“O Banco Central tende a deixar esse efeito inicial passar e olhar para o que vem depois, ou seja, se o choque contamina os preços e os salários de outros setores e as expectativas. Com o mercado de trabalho aquecido, a renda crescendo acima da produtividade e as expectativas acima da meta, o repasse de custos fica mais fácil e a inflação de serviços demora mais a ceder”, explica Kayo.
Apesar das diferenças sobre os núcleos, as análises convergem ao apontar menor espaço para uma aceleração imediata dos cortes da Selic. A apreciação do real, a desaceleração da atividade e o enfraquecimento do crédito podem ajudar a inflação nos próximos meses, mas seus efeitos ainda precisam aparecer de forma consistente nos preços e nas expectativas.
A EQI Research manteve a projeção de IPCA de 5,1% em 2026, enquanto o Daycoval estima 5%. O PicPay continua prevendo somente mais uma redução de 0,25 ponto percentual da Selic neste ano, para 13,50%, com retomada dos cortes em 2027.
Para Pizzani, a surpresa de setembro recomenda cautela diante das apostas em cortes maiores após a valorização do real e a queda dos juros futuros. Antes de acelerar o ciclo, o Banco Central poderá preferir aguardar a consolidação da melhora cambial e uma estabilização mais clara das expectativas de inflação.






