Manter e renovar uma frota de mais de 677 mil veículos custa caro — e faz com que a Localiza precise recorrer frequentemente ao mercado de capitais. Em um cenário de juros elevados, essa dependência aumenta o custo de financiamento e se transforma em um ponto de atenção para quem pensa em emprestar dinheiro à companhia por meio de um título de crédito privado.
Mesmo diante desse risco, João Abdouni, analista da EQI Research, avalia que a Localiza possui capacidade financeira para atravessar o período. Em relatório publicado em 3 de setembro, ele recomenda a compra de três papéis emitidos pela locadora.
Um deles, com vencimento em março de 2031, era negociado com taxa indicativa de IPCA mais 9,75% na data da análise. Os outros dois são pós-fixados: o título com prazo até fevereiro de 2029 oferecia CDI mais 2%, enquanto aquele com vencimento em setembro de 2030 remunerava CDI mais 1,01%.
Para chegar à recomendação, Abdouni considerou o rating AAA(bra) da companhia, os R$ 11,4 bilhões mantidos em caixa e a alavancagem de 2,16 vezes. A combinação desses fatores levou a Localiza a receber nota proprietária de crédito de 72%, classificada como “boa” pela EQI Research.
O percentual não representa o rendimento do investimento. Trata-se de uma pontuação que reúne a avaliação da EQI Research sobre endividamento, liquidez, rentabilidade, modelo de negócio, rating e garantias.
“A nota de crédito da Localiza em nossa análise proprietária é de 72%, indicador que classificamos como bom. O resultado reflete a manutenção de níveis de rentabilidade e alavancagem, pela recomposição do ROIC Spread observada nos últimos trimestres”, afirma Abdouni.
Na composição calculada pela EQI Research, os melhores resultados apareceram em ratings e garantias, com 85%, e risco financeiro, com 74%. O bloco de qualidade e modelo de negócio recebeu 66%.

Por que a dívida da Localiza não assusta a EQI Research?
Abdouni explica que o endividamento precisa ser analisado dentro do ciclo de funcionamento da Localiza. A companhia compra os veículos, obtém receita com o aluguel e, depois de determinado período, vende os carros usados. Os recursos recebidos com os seminovos ajudam a financiar a renovação da frota.
Por isso, na avaliação do analista, o tamanho isolado da dívida diz menos do que sua relação com a capacidade de geração de resultados. Nos 12 meses encerrados em junho, o EBITDA da Localiza cresceu 13%, para R$ 15 bilhões, enquanto a dívida líquida avançou 3%, para R$ 32,3 bilhões.
O relatório aponta que essa diferença ajudou a reduzir a relação entre dívida líquida e EBITDA de 2,36 para 2,16 vezes. Para Abdouni, o patamar é controlado e mantém uma distância confortável do covenant de 4 vezes. O covenant é o limite de endividamento estabelecido nos contratos financeiros da companhia.
A liquidez também pesa favoravelmente na análise. Segundo a EQI Research, os R$ 11,39 bilhões disponíveis em caixa e aplicações superam os R$ 4,36 bilhões em dívidas que vencem entre o restante de 2026 e o final de 2027. As maiores concentrações aparecem a partir de 2028, especialmente em 2029 e 2030.

Outro indicador acompanhado por Abdouni é o ROIC Spread, a diferença entre o retorno sobre o capital investido e o custo da dívida após os impostos. Na Localiza, esse intervalo passou de 3,1 pontos percentuais em 2024 para 6 pontos no primeiro semestre de 2026.
Para o analista, a recuperação mostra que o retorno produzido pelos recursos investidos no negócio voltou a se afastar do custo de financiamento. Essa distância ajuda a sustentar a avaliação de que a companhia consegue absorver o custo da dívida.
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Onde os juros elevados podem pesar?
Os juros atingem justamente a parte mais sensível do modelo da Localiza, segundo Abdouni. A geração própria de caixa não deverá ser suficiente para financiar ao mesmo tempo a expansão da frota e o pagamento de proventos. Com isso, a companhia continuará dependendo de novas captações.
“Os principais pontos de atenção estão relacionados à geração de fluxo de caixa livre, que não deverá ser suficiente para financiar integralmente o crescimento da frota e o pagamento de proventos, mantendo a necessidade de acesso recorrente ao mercado de capitais”, destaca Abdouni.
Na avaliação da EQI Research, um custo maior nessas captações pode pressionar as margens e reduzir a diferença entre o retorno gerado pelos veículos e o custo da dívida. Ainda assim, a posição atual de caixa diminui a urgência de buscar novos recursos para pagar os compromissos mais próximos.
O relatório também chama atenção para a venda dos seminovos. Essa etapa permite que a Localiza recupere parte do dinheiro investido nos veículos e utilize os recursos na renovação da frota. Segundo Abdouni, uma queda mais forte nos preços de revenda reduziria o capital que retorna ao caixa e tornaria esse processo mais oneroso.
A entrada de novos modelos elétricos e híbridos pode alterar o ritmo de desvalorização dos automóveis, enquanto a reforma tributária tende a elevar gradualmente a carga incidente sobre os seminovos. Para a EQI Research, esses fatores podem pressionar as margens, mas são administráveis no médio prazo.
Mesmo com os riscos, a EQI Research projeta que a alavancagem permaneça entre 2,3 e 2,5 vezes até 2029, abaixo do covenant de 4 vezes. Abdouni considera que o caixa disponível, a escala da companhia e as taxas oferecidas preservam uma relação favorável entre risco e retorno.
Quer conhecer as projeções até 2029 e entender como os juros, a reforma tributária e os veículos elétricos podem afetar o crédito da Localiza? Acesse a análise completa elaborada pela EQI Research.






