França e Reino Unido anunciaram nesta quinta-feira (10) um marco histórico na cooperação militar europeia ao firmarem a Declaração de Northwood, que prevê a coordenação de suas dissuasões nucleares independentes. O acordo, anunciado pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, ocorre em meio ao agravamento da insegurança no continente europeu e ao aumento da incerteza quanto à confiabilidade da proteção nuclear dos Estados Unidos.
O entendimento entre França e Reino Unido, as duas únicas potências nucleares da Europa, tem como objetivo responder com mais firmeza a ameaças externas — especialmente em um contexto de prolongamento da guerra na Ucrânia e ambiguidade estratégica dos EUA sob Donald Trump em relação à Otan – Organização do Tratado do Atlântico Norte.
“De hoje em diante, nossos adversários saberão que qualquer ameaça extrema ao nosso continente levará a uma resposta imediata de nossas duas nações”, declarou Starmer, em um tom firme que marca sua postura mais agressiva na política externa.
Macron, por sua vez, afirmou que os dois países tomaram três decisões centrais: reconheceram que qualquer ameaça extrema à Europa exigirá resposta rápida, decidiram não descartar a coordenação de suas forças nucleares e assumiram o compromisso de aprofundar a cooperação na área de dissuasão estratégica.
França e Reino Unido querem independência militar dos EUA
Mesmo com a recente tentativa de reaproximação entre Trump e aliados europeus da Otan, França e Reino Unido sinalizam que não estão dispostos a depender exclusivamente do “guarda-chuva nuclear” dos Estados Unidos. A medida é também um esforço para tranquilizar aliados europeus diante do cenário geopolítico cada vez mais instável.
Hoje, o Reino Unido possui cerca de 225 ogivas nucleares operadas dentro do arcabouço da Otan, embora o uso final dependa exclusivamente do governo britânico. Já a França, com aproximadamente 290 ogivas, mantém seu arsenal sob controle totalmente independente da aliança militar, uma política adotada desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
Ambos os países mantêm quatro submarinos nucleares armados com mísseis balísticos, base de sua dissuasão marítima. A França ainda conta com 20 caças Rafale armados com mísseis de cruzeiro nucleares. O Reino Unido, por sua vez, planeja desenvolver essa capacidade com a aquisição de caças F-35 dos EUA.
Durante a visita oficial de três dias de Macron ao Reino Unido — a primeira de um presidente francês desde o Brexit —, os líderes anunciaram a criação de um comitê bilateral para discutir a coordenação dos arsenais e o uso conjunto em caso de conflito. Macron destacou que essa iniciativa não está diretamente ligada à proposta franco-britânica de envio de uma força de paz à Ucrânia, embora o contexto da guerra tenha impulsionado o reforço dessa aliança.
Com a Declaração de Northwood, França e Reino Unido dão um sinal claro de que estão prontos para assumir um protagonismo na defesa do continente europeu, com ou sem o apoio total de Washington. A nova coordenação nuclear visa tanto dificultar os cálculos estratégicos da Rússia quanto reforçar a segurança dos aliados da Europa Ocidental.






