A combinação entre guerra no Oriente Médio, petróleo em alta e dúvidas sobre a trajetória dos juros nas economias centrais não tirou o entusiasmo do BTG Pactual (BPAC11) com o Brasil.
Ao abrir o painel “Brasil e o mundo: onde está o alpha?”, na Global Managers Conference da BTG Asset, André Esteves, chairman e sócio sênior do banco, afirmou ver a América Latina em posição favorável em um cenário global mais turbulento e menos concentrado nos Estados Unidos.
A leitura foi complementada por Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG, que ressaltou que o Brasil de 2026 não repete a fragilidade de 2016, mesmo convivendo com juros muito elevados e deterioração fiscal.
Para ele, o país chega ao atual ciclo eleitoral com crescimento, inflação em patamar administrável e mercado de trabalho forte, mas ainda distante de uma situação de equilíbrio, o que mantém o fiscal no centro da discussão sobre o desempenho dos ativos brasileiros.
O mal-estar com os EUA e o novo cenário global
Mansueto abriu o painel com uma leitura cautelosa do cenário internacional. Segundo ele, o ano começou com um ambiente mais benigno, mas a escalada do conflito no Oriente Médio, a disparada do Brent de cerca de US$ 65 para US$ 116 e a revisão das expectativas de inflação mudaram o quadro e aumentaram a incerteza sobre a política monetária nas principais economias do mundo.
“A gente pode ser forçado, infelizmente, a conviver com juros um pouquinho mais alto do que a gente esperava no início do ano. Banco Central Americano, possivelmente pode não cortar juros, tem risco até de aumentar juros. Banco Central Europeu, a mesma coisa. Banco Central inglês, a mesma coisa”, afirmou o economista-chefe.
Na sequência, Esteves disse que os EUA vinham funcionando como um “buraco negro financeiro”, atraindo capital do mundo inteiro com o peso da revolução tecnológica e da criação de riqueza nas empresas gigantes americanas. Na visão dele, porém, esse processo começou a mudar por razões geopolíticas e financeiras.
“Do lado geopolítico, o sinal amarelo começa ainda no governo Biden”, disse Esteves, ao citar o congelamento de reservas russas e a “weaponização” do dólar.
Mais adiante, o chairman do BTG afirmou que, combinado ao aumento da incerteza sobre os valuations das empresas ligadas à IA, esse ambiente passou a gerar um “certo badwill com os Estados Unidos” e a favorecer uma diversificação gradual dos portfólios globais.
Para Esteves, a guerra interrompeu temporariamente esse movimento ao impor um ambiente de risk-off, mas não deve anular a tendência anterior.
“Quando a poeira baixar, eu acho que o trend anterior vai ser retomado, talvez até com mais intensidade”, afirmou.
América Latina, petróleo e o diferencial do Brasil

Ao abrir o segundo bloco do painel, Mansueto observou que Europa e EUA convivem hoje com problemas fiscais, crescimento mais fraco e maior exposição geopolítica, enquanto Brasil e América Latina estão mais afastados do epicentro dessa turbulência. A partir daí, ele perguntou a Esteves se a região poderia se beneficiar em termos de crescimento e oportunidades de investimento.
“Eu tô muito animado com a América Latina, com o Brasil e com a América Latina. Porque quando você olha o que que nós somos aqui, nós somos low cost producers”, respondeu Esteves.
Na sequência, ele citou o peso da região em commodities agrícolas, metais, mineração, energia renovável e petróleo para sustentar a visão mais construtiva sobre o bloco.
Esteves também afirmou que o conflito no Oriente Médio tende a ter caráter transitório e que o petróleo mais alto não é necessariamente negativo para o Brasil. Segundo ele, a combinação entre exportação líquida de petróleo, pauta exportadora mais diversificada e neutralidade geopolítica reforça a posição do país no cenário atual.
“No fundo essa guerra, o petróleo acima de [US$] 80, zera o déficit fiscal brasileiro, caso a gente não produza nenhuma bobagem adicional esse ano. Ele é melhor pro Brasil, vai reduzir o déficit de conta corrente, vai reduzir o déficit fiscal”, disse.
O banqueiro acrescentou ainda que a América Latina é “uma região em paz” e que deve seguir pragmática nas relações com Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, Rússia e China.
Fiscal, juros altos e a comparação com 2016
Na virada para o bloco doméstico, Mansueto afirmou que o Brasil de 2026 é muito diferente do país de dez anos atrás. Ele lembrou que, em 2016, o país atravessava recessão profunda, inflação de 10,7%, queda acumulada do investimento, distorções graves em energia, petróleo e mercado imobiliário. Agora, disse ele, esse quadro não se repete, embora o país ainda carregue uma incerteza fiscal importante.
“O que tem parecido com aquela época? A gente tem uma incerteza fiscal, a gente tem um problema fiscal, um crescimento muito rápido do gasto que aconteceu. Isso levou a um cenário de inflação maior e forçou o Banco Central a trabalhar com taxas de juros muito maiores para reduzir a inflação”, afirmou Mansueto.
Na avaliação do economista, o desafio do próximo governo não será promover um choque de corte de gastos, mas conter o avanço da despesa pública.
“No Brasil o desafio é controlar o crescimento da despesa”, resumiu.
Ao defender esse ponto, ele lembrou o efeito do teto de gastos no início do governo Temer e afirmou que o país termina o atual ciclo com crescimento médio do PIB de 2%, inflação média de 4,5% e pleno emprego, mas às custas de juros muito altos.
“A gente não pode achar que o Brasil tá numa situação de equilíbrio. Não está porque a gente tem hoje um juro Selic de quase 15% com inflação esperada de 4,5%. Isso não é equilíbrio, isso não é sustentável”, disse Mansueto, que também citou a dívida pública já em 79,2% do PIB em fevereiro e acima de 80% do PIB no fim do governo.
Esteves concordou com o diagnóstico e afirmou que o ajuste exigirá esforço político, mas não o considera inviável. Para sustentar a tese, citou reformas aprovadas nos últimos anos, como a da Previdência, a tributária e a independência do Banco Central, além do avanço de concessões e do mercado de dívida privada.
“Quem quer que seja o próximo governo terá que necessariamente controlar o crescimento do gasto público, porque se tentar fazer um ajuste fiscal aumentando receita e aumentando o gasto, isso é inflacionário, isso não funciona”, afirmou.
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Instituições, sistema financeiro e eleição de 2026
No último trecho do painel, Mansueto deslocou a conversa para a institucionalidade e disse que os problemas recentes no sistema financeiro expuseram fragilidades, mas também criaram condições para um fortalecimento dos órgãos de fiscalização. Segundo ele, a diferença em relação ao passado é que agora tudo está mais visível e sob escrutínio.
“Eu acho que a gente vai sair desse período tão conturbado com um Banco Central mais forte, com a fiscalização muito mais forte, com a CVM também muito mais forte”, afirmou o economista, que também citou mudanças no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Na resposta, Esteves disse que o país vive uma disputa entre o “Brasil institucional” e o “Brasil não institucional”, mas avaliou que a reação da sociedade vem sendo positiva.
“Para você ter desenvolvimento de verdade, você precisa de regras, precisa que a lei valha para todos, precisa que o jogo seja feito dentro das ‘quatro linhas’. (…) A boa notícia é que nós, como sociedade, pelo menos nessa batalha, estamos ganhando”, afirmou.
Ao encerrar o painel, Mansueto levou a discussão para a eleição presidencial de 2026 e perguntou quanto esse cenário já se refletia no preço dos ativos, diante de uma disputa que, segundo ele, aparece competitiva nas pesquisas.
“Começando pelo final: a eleição está influenciando muito pouco o preço dos ativos. O trend de movimento do preço de ativos brasileiros está sendo dado por esse ambiente internacional. O investidor estrangeiro não está dando a menor bola para a eleição”, respondeu Esteves.
No fechamento, ele afirmou ainda que, qualquer que seja o vencedor da disputa, “a democracia será funcional”.






