O Copom decidiu de forma unânime reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 25 pontos-base, para 14,25% ao ano, mantendo o ritmo já esperado pelo mercado, mas pode acelerar o afrouxamento no próximo encontro de agosto. O comunicado, no entanto, foi marcado por elevada complexidade, refletindo a conjuntura global incerta e os desafios internos para a condução da política monetária.
A autoridade monetária abriu o texto reconhecendo riscos e incertezas internacionais, além de trazer uma projeção de inflação condicional de 3,7% para o horizonte relevante, levemente acima da estimativa da própria Ativa, de 3,6%.
“O comunicado traz uma leitura mais cautelosa do cenário internacional, ao mesmo tempo em que explicita uma inflação projetada ainda acima do centro da meta”, afirmam Étore Sanchez e Guilherme Sousa, economistas da Ativa.
Na avaliação dos analistas, o tom também foi endurecido ao incorporar no balanço de riscos a resiliência da demanda doméstica, ainda que sem menção direta ao governo. “Ao destacar estímulos à demanda agregada, o BC sinaliza preocupação com um crescimento acima do potencial, o que carrega um viés hawkish para a comunicação”, dizem os economistas.
Retórica, inflação e gradualismo
Apesar do tom mais duro em alguns trechos, o Copom justificou o corte de juros com base no elevado estoque de restrição monetária, repetindo a linha já adotada na reunião anterior. Esse argumento, contudo, gera aparente contradição diante da projeção de inflação acima da meta no horizonte relevante.
Para contornar esse ponto, o Banco Central introduziu uma antecipação da rolagem do horizonte relevante, sugerindo que trajetórias de juros que levem à convergência no quarto trimestre de 2027 resultariam em inflação abaixo da meta no início de 2028.
“Há um esforço retórico e aritmético relevante para compatibilizar o corte com uma inflação ainda pressionada, o que revela uma estratégia mais flexível da autoridade monetária”, avaliam Sanchez e Sousa.
Na leitura da Ativa, esse movimento evidencia uma inclinação mais dovish do Copom, apesar das referências mais duras no comunicado. “A autoridade sinaliza gradualismo, mas na prática adota uma postura mais acomodatícia, indicando continuidade do ciclo de afrouxamento”, afirmam.
Para os economistas, fatores recentes reforçam essa visão, especialmente a queda expressiva do preço do petróleo e o acordo anunciado entre Irã e Estados Unidos, que reduzem pressões inflacionárias no curto prazo.
“Esse conjunto de elementos sustenta a expectativa de um corte de 50 pontos-base na próxima reunião, consolidando o início de um ciclo mais claro de afrouxamento monetário”, dizem.
Ainda assim, a Ativa pondera que o cenário depende da dinâmica das expectativas de inflação captadas pelo Boletim Focus. Caso essas projeções não acompanhem o alívio recente observado em variáveis como o petróleo, o Copom pode optar por manter o ritmo de cortes em 25 pontos-base.
Mesmo nesse cenário alternativo, a leitura permanece de flexibilização da política monetária. “Ainda que o BC opte por um ajuste mais gradual, o viés é claramente de afrouxamento, como já vínhamos antecipando”, concluem os economistas.






