O banco BTG Pactual (BPAC11) vê um cenário mais cenário mais impactado para as empresas de varejo e consumo nos próximos trimestres, o que pode ocorrer tanto por conta de uma inflação maior quanto por causa do crescimento das bets.
De acordo com relatório, o banco de investimentos avalia que o Brasil está vendo evidências de consumidores mais otimistas, com crescente confiança nas finanças domésticas e disposição para gastar. E as empresas têm relatado números melhores desde o final do ano passado.
Mas esse otimismo renovado pode ser atenuado por uma inflação maior do que a esperada e por taxas de juros mais altas nos próximos trimestres. O relatório do banco informa que o crescimento exponencial dos jogos de azar online, as chamadas “bets”, significa que o consumo poderá ser afetado nos próximos trimestres, assim como o endividamento das famílias, especialmente com o aumento dos custos de financiamento, principalmente entre as famílias de baixa renda.
“Nesse cenário, os varejistas menos alavancados (que podem continuar investindo para impulsionar o crescimento) e os menos expostos a categorias de crédito/cíclicas devem se sair melhor”, avaliou o banco.
Varejo e consumo: gasto mensal com bets chega a R$ 20 bi
De acordo com o relatório do BTG, o Banco Central calcula afirma que o gasto mensal com apostas online foi de R$ 20 bilhões em agosto, com base em dados de 56 empresas mapeadas.
Os dados fazem parte de uma nota técnica produzida por seu departamento de estatísticas. A maioria dos apostadores tem entre 20 e 30 anos de idade, e a transferência média mensal aumenta com a idade: para os players mais jovens, é de aproximadamente R$100, enquanto para os mais velhos ultrapassa R$ 3 mil, de acordo com os dados de agosto.
O Banco Central destaca que esses números representam transferências brutas para empresas, ou seja, o valor total depositado pelos apostadores. Com base nas transações de empresas para pessoas físicas, o BC estimou que 15% das apostas são retidas pelas plataformas, sendo o restante distribuído como prêmios – o que, de uma forma ou de outra, “retorna” à economia (real).
A nota técnica diz que esses valores podem estar subestimados. As apostas podem ser feitas por meio de outros canais, como o TED, mas os prêmios devem ser pagos exclusivamente por meio de transferência eletrônica. O estudo estima que 24 milhões de pessoas jogaram e apostaram, fazendo pelo menos uma transferência via Pix para essas empresas no período.

Beneficiários do Bolsa Família colocam R$ 3 bi nas apostas
De acordo com dados do Banco Central, 19% das famílias brasileiras são beneficiadas pelo Bolsa Família, que paga em média R$ 14 bilhões por mês às famílias de baixa renda do país (ou 13% dos salários reais do Brasil no 2TRI24).
O estudo diz que, em agosto, 5 milhões de pessoas de domicílios que recebem Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões para empresas de apostas, representando 15% do total de apostas no Brasil por meio dessas plataformas e 20% do total de apostadores, sendo que o valor médio gasto por pessoa foi de R$ 100.
Desses, 4 milhões (ou 70%) são chefes de família aqueles que de fato recebem o benefício, que enviaram R$ 2 bilhões (ou 67%) via Pix para empresas de apostas.
“Também vale a pena observar que 30% dos apostadores brasileiros vêm das regiões Nordeste e Norte, sendo que muitos afirmam que sua renda principal é afetada pelas apostas. Além disso, 62% dos apostadores brasileiros pertencem às classes de renda C, D e E, e relatam ter reduzido seus gastos com vestuário e mantimentos para alocar mais de sua renda para o jogo”, completa o BTG com base nos dados do BC.
O crédito e o varejo e consumo
Durante o Covid, o banco de investimentos avaliou que o “Coronavoucher” era fundamental para sustentar o consumo, principalmente em 2020, enquanto os varejistas aceleravam a concessão de crédito para financiar os consumidores até 2021. Isso foi seguido por um grande ponto de inflexão, pois o consumo foi impactado pela espiral da inflação e pelo aumento das taxas de juros, prejudicando a economia das divisões de financiamento ao consumidor dos varejistas.
No entanto, as tendências de inadimplência dos varejistas melhoraram nos últimos trimestres, enquanto o crescimento da carteira permanece baixo, com apenas sinais modestos de crescimento mais rápido em algumas empresas.
“Apesar de um possível aumento nos níveis de inadimplência devido às taxas de juros mais altas nos próximos trimestres – potencialmente amplificado por mais gastos com apostas – depois de limpar suas carteiras de crédito mais arriscadas nos últimos trimestres, alguns varejistas continuarão a originar gradualmente mais crédito, pressupondo um curto ciclo de aperto monetário”, avalia o BTG.
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