Os participantes do mercado são sensíveis aos desenvolvimentos da política fiscal brasileira — e, à medida que as eleições se aproximam, uma política fiscal mais frouxa pode prejudicar o sentimento dos investidores e contribuir para um real mais fraco no período pré-eleitoral.
Essa é a avaliação do Société Générale em relatório divulgado nesta sexta-feira (26), que mantém preocupações com a direção da política doméstica e fiscal do Brasil nos próximos meses.
O banco francês alerta que o alto carry do real pode não ser suficiente para sustentar a moeda no curto prazo.
“Acreditamos que a política fiscal deve pressionar o real para baixo frente ao dólar americano no curto prazo”, afirmaram o economista Dev Ashish e os estrategistas Brendan McKenna e Ismail Aharrare El Kehal.
O Brasil já enfrenta um grande déficit fiscal e elevado endividamento, e esses desafios podem se aprofundar caso Lula intensifique os programas de gastos sociais às vésperas das eleições de outubro.
Cenário eleitoral e risco fiscal se retroalimentam
A eleição presidencial é vista como um fator central de risco para os ativos brasileiros.
“As taxas de juros elevadas tornam o real uma oportunidade de valor relativo frente a moedas com seus próprios problemas idiossincráticos, mas acreditamos que a política fiscal deve pressionar o real para baixo”, destacaram Ashish, McKenna e El Kehal.
A inflação em alta também pode prejudicar Lula nas urnas, já que o custo de vida é uma das principais preocupações expressas pelos eleitores nas pesquisas.
O Société Générale avalia que Flávio Bolsonaro deve recuperar força nas pesquisas, tornando a eleição “uma espécie de cara ou coroa”.
“Acreditamos que Flávio Bolsonaro voltará nas pesquisas e tornará a eleição relativamente imprevisível”, avaliaram os estrategistas.
Lula ainda captura impulso com a conexão de Flávio ao escândalo do Banco Master, mas aliados do presidente também foram apontados por suposto envolvimento no mesmo caso, limitando o quanto o governo pode se beneficiar dessas alegações.
Banco Central navega entre hawkismo e afrouxamento
A inflação anual pelo IPCA já superou o limite superior da meta do Banco Central, o que, combinado com a linguagem mais cautelosa dos dirigentes, leva o Société Générale a avaliar que os riscos em torno das projeções para a taxa Selic estão inclinados para cima.
“Na reunião de junho, os dirigentes do BC pareceram tentar equilibrar uma postura hawkish sobre a inflação com uma preferência por remover a restrição monetária”, observaram Dev Ashish e Brendan McKenna.
O corte de 25 pontos-base em junho, acompanhado de linguagem mais hawkish do que nas declarações anteriores, confundiu os mercados e gerou volatilidade nas taxas locais. Entretanto, o banco não acredita em novas altas de juros.
“Embora tenhamos revisado o balanço de riscos em torno de nossa visão para a Selic para refletir a possibilidade de renovada dominância fiscal, continuamos acreditando que elevações de juros não serão implementadas”, afirmaram os estrategistas.
Recomendações: carry ainda atrativo, mas cautela aumenta
O Société Générale adotou postura ligeiramente mais cautelosa em relação ao Brasil, mas mantém recomendações de posições compradas em real em valor relativo e receptores de taxas curtas.
“O carry permanece atrativo e cortes de juros ainda são nosso cenário base, embora volatilidade eleitoral, maior estímulo fiscal e/ou política monetária mais restritiva do Fed sejam os riscos mais prementes às nossas recomendações atuais”, concluíram Dev Ashish, Brendan McKenna e Ismail Aharrare El Kehal.
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