O Bank of America projeta uma “desaceleração acentuada” da economia brasileira em 2027. O banco ainda não sugere uma recessão, mas espera crescimento de 2,3% neste ano e uma forte redução para 1,3% no ano que vem.
A análise é assinada por David Beker, Natacha Perez e Gustavo Mendes, do Bank of America. Para eles, os indicadores de alta frequência já mostram a perda de fôlego se espalhando pela economia.
O PIB desacelerou de 1,1% no primeiro trimestre para 0,3% estimado no segundo, na comparação com o trimestre anterior. O rastreador do banco aponta nova queda no terceiro.
1. A atividade perde fôlego em várias frentes
A produção industrial caiu 1,8% em junho, após recuo de 0,9% em maio. O varejo ampliado encolheu em maio e junho, e os serviços ficaram praticamente parados.
Para o IBC-Br, prévia mensal do PIB, o banco projeta queda de 0,7% em junho, ante avanço de 0,1% em maio. Os dados de junho e julho confirmam o quadro.
“A mudança importante não está na fraqueza de um único indicador, mas na crescente consistência entre eles”, escreveram Beker, Perez e Mendes.
2. Os juros seguem no freio
A política monetária está contracionista desde o fim de 2022, e o aperto aumentou no último ano. Mesmo com o corte recente de 1 ponto percentual, os juros continuam restritivos.
O banco espera mais um corte e depois uma pausa de quatro reuniões. A Selic terminaria 2026 em 13,75% e 2027 em 12,75%.
“A política monetária deve continuar atuando como um freio sobre a economia brasileira”, apontaram os analistas.
3. O impulso fiscal acelerou, mas está ficando sem gás
O consignado privado somou R$ 52,6 bilhões até junho, ou 0,4% do PIB. O salto é de R$ 36 bilhões em doze meses, alta de 213%.
“A maior parte do estímulo recente veio de medidas voltadas a facilitar o crédito ao consumidor”, escreveram os analistas.
Desde o prazo fixado pela legislação eleitoral, nenhuma nova medida de crédito foi anunciada. A execução do Orçamento se concentrou no primeiro semestre, o que deve conter os gastos daqui para a frente.
“O impulso fiscal começa a se dissipar, enfraquecendo um dos principais motores do crescimento recente”, afirmaram Beker, Perez e Mendes.
4. A linha para motoristas de aplicativo não decolou
Um mês após o início das operações, o programa havia concedido R$ 2,2 bilhões de um envelope de R$ 30 bilhões, cerca de 7%. O governo já espera algo perto de R$ 10 bilhões no melhor caso.
“Os bancos continuaram aplicando critérios convencionais de crédito, apesar da garantia federal”, apontaram os analistas.
5. A renda real desacelera
O consumo respondeu por cerca de 64% do PIB em 2025. O crescimento da renda real caiu de 5,53% em março para 2,83% em junho, o menor patamar desde setembro de 2022.
“Isso pode indicar que o mercado de trabalho, excepcionalmente apertado nos últimos anos, também começa a moderar”, escreveram os analistas.
6. O endividamento trava o consumo
O comprometimento de renda e o endividamento das famílias estão perto de máximas históricas. O quadro combina alavancagem da pandemia, avanço das fintechs e juros altos.
“As famílias anteciparam consumo ao comprometer renda futura com gastos em trimestres atuais e passados”, afirmaram Beker, Perez e Mendes.