Como amplamente aguardado pelo mercado, o Banco Central Europeu (BCE) promoveu um corte de 25 pontos-base na taxa de juros nesta quinta-feira (6). É o primeiro corte desde 2019.
A taxa de juro aplicável às operações de refinanciamento, facilidade permanente de cedência de liquidez (empréstimo) e de depósito serão reduzidas para, respectivamente, 4,25%, 4,50% e 3,75%, com efeitos a partir de 12 de junho.
O corte marca o fim oficial do ciclo recorde de alta rápida de juros, que começou após a pandemia de Covid-19, com a disparada da inflação.
Embora o BCE tenha começado a aumentar as taxas de juros mais tarde do que o banco central americano, o corte em junho o colocaria à frente do Federal Reserve (Fed) no novo ciclo econômico, já que o maior banco central do mundo continua impedido de promover cortes devido à inflação dos EUA – os membros do Fed vêm repetindo que ainda não sentem segurança em promover uma baixa na taxa.
Vale dizer, o BCE não é o primeiro país do chamado primeiro mundo a cortar juros. O Canadá se tornou na quarta-feira (5) o primeiro país do G7 a cortar as taxas de juros no atual ciclo (corte de 25 pontos-base), enquanto os bancos centrais da Suécia e da Suíça já anunciaram suas próprias reduções de juros este ano.
“Dependentes de dados e não do Fed”, diz Lagarde
Christine Lagarde, presidente do BCE, já tinha afirmado em sua última entrevista coletiva que os funcionários do BCE são “dependentes de dados, não dependentes do Fed”.
Mas o futuro da política monetária causa preocupação, especialmente quanto ao câmbio e, consequentemente, à inflação.
O BCE afirmou que os juros devem seguir “restritivos pelo tempo necessário”, na dependência de dados. “É apropriado agora moderar grau de restrição da política”, afirmou o banco central europeu.
Embora outro corte de juros em julho não possa ser descartado, isso não parece muito provável. “Vemos que alguns elementos da inflação estão se mostrando persistentes – especialmente a inflação doméstica e os serviços em particular”, disse Isabel Schnabel, membro do conselho do Banco Central Europeu, em entrevista à emissora pública alemã ARD.
“Eu alertaria para o BCE não se mover muito rápido, porque há um risco e devemos evitar isso definitivamente”, disse.
A inflação da zona do euro em maio veio ligeiramente acima do esperado, com a inflação cheia em 2,6% e o núcleo, em 2,9%. Além disso, o crescimento dos salários voltou a acelerar no primeiro trimestre para 4,7%, depois de atingir 4,5% no quarto trimestre de 2023.
No comunicado da decisão de juros, o BCE elevou a projeção de inflação de 2024 e do próximo ano. Para 2024, a estimativa de inflação ao consumidor (CPI) foi de 2,4% para 2,5%. Para 2025, de 2% para 2,2%. Para 2026, segue em 1,9%.
Para o PIB, a expectativa é de crescimento de 0,9% em 2024; 1,4% em 2025 e 1,6% em 2026.
Outro ponto a ser observado é a relação euro-dólar, com o BCE iniciando o corte de juros muito antes do Federal Reserve (Fed), banco central americano, que só deve promover uma queda da taxa a partir de setembro – o mercado estima dois cortes em 2024, um em setembro e um em dezembro.
Antecipar-se ao Fed pode trazer ao BCE fortes implicações para a taxa de câmbio, que alimenta a inflação através dos preços dos bens e serviços importados.
“Dentro de 6 a 12 meses, quando o diferencial de juros do Fed-BCE estiver subindo para níveis historicamente altos, a depreciação cambial pode ter um forte repasse na inflação se, como esperado, a demanda doméstica for mais forte, as margens de lucro forem mais estreitas e as taxas de política forem menos restritivas”, afirma Mark Wall, analista do Deutsche Bank.
Para Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Asset, o comunicado do BCE foi cauteloso, com o banco central “colocando o pé na água” e promovendo o corte, ao mesmo tempo em que sobe as projeções para a inflação e afirmando que não há compromisso com ciclo de cortes – ou seja, não prometendo nada para as próximas reuniões.
“Isso está muito em linha com a comunicação de diversos bancos centrais, de que o ciclo vai ser bem gradual e cauteloso no início, possivelmente com cortes trimestrais nos primeiros movimentos, para observar a reação da inflação de serviços e salários. Todos os bancos centrais de países desenvolvidos, como no Canadá, vêm fazendo isso. Possivelmente, o Fed fará o mesmo, promovendo corte mais adiante, mas com discurso duro”, avalia.
“Acreditamos em mais dois cortes na zona do euro ao longo deste ano. Ano que vem, dependendo da combinação de inflação, mercado de trabalho e crescimento da economia, vamos ver se é possível um movimento mais rápido de corte de juros”, acrescenta.
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