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Ata do Fed revela racha interno: maioria vê necessidade de alta de juros

Ata do Fed revela racha interno: maioria vê necessidade de alta de juros

Reunião de abril teve quatro votos dissidentes — o maior número desde 1992 — e debate acalorado sobre manter ou retirar viés de corte do comunicado oficial

A ata da reunião de abril do Federal Reserve, divulgada nesta quarta-feira, revelou um comitê mais dividido do que se esperava e com crescente disposição para elevar os juros caso a inflação continue resistente.

Embora o Fed tenha mantido a taxa básica na faixa de 3,5% a 3,75% ao ano, a reunião terminou com quatro votos contrários — o maior número desde 1992 — e um debate intenso sobre o futuro da política monetária americana num ambiente marcado pela guerra no Oriente Médio e pela persistência inflacionária.

Inflação acima da meta e guerra ditam o tom

O pano de fundo da reunião foi dominado pelos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre os preços. A inflação pelo índice PCE total subiu para 3,5% em março, puxada pela explosão nos preços de energia, enquanto o núcleo do PCE avançou para 3,2%.

A maioria dos participantes reconheceu que a inflação levaria mais tempo para retornar à meta de 2% do que se esperava anteriormente.

“A vasta maioria dos participantes notou risco crescente de que a inflação demoraria mais para retornar ao objetivo de 2% do que haviam previsto anteriormente”, registra a ata.

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Além dos combustíveis, os preços de fertilizantes, fretes, passagens aéreas e tecnologia também subiram, ampliando as pressões além do choque de energia.

Racha sobre o viés do comunicado

O ponto mais sensível da reunião foi a discussão sobre a linguagem do comunicado. Três dos quatro votos dissidentes vieram de presidentes de Fed regionais — Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan — que votaram a favor de manter os juros, mas se opuseram à inclusão de linguagem que sugeria um viés de corte como próximo passo.

O quarto voto contrário foi de Stephen Miran, que preferiu reduzir os juros em 0,25 ponto percentual.

A ata revelou que “muitos participantes indicaram que teriam preferido remover do comunicado a linguagem que sugeria viés de afrouxamento em relação à direção futura das decisões de taxa de juros do comitê”.

No jargão do Fed, “muitos” não constitui maioria — e a linguagem permaneceu. Mas o recado foi claro: o consenso está se estreitando.

Alta de juros volta ao debate

O trecho mais impactante da ata para os mercados foi a sinalização de que um novo ciclo de aperto pode estar se aproximando.

“A maioria dos participantes destacou que algum aperto da política provavelmente se tornaria apropriado se a inflação continuasse a rodar persistentemente acima de 2%”, afirma o documento.

O mercado já precifica cerca de 30% de probabilidade de uma alta de juros até o primeiro trimestre de 2027. A mediana das projeções dos participantes da pesquisa do Desk do Fed ainda aponta para dois cortes de 0,25 ponto percentual nos próximos 12 meses, mas postergados para o segundo semestre de 2026 e início de 2027 — bem mais tarde do que se esperava antes da guerra.

Warsh assume o comando num momento delicado

A reunião foi a última presidida por Jerome Powell como chairman. O ex-governador Kevin Warsh assume a cadeira em circunstâncias nada simples: inflação acima da meta, mercado de trabalho em desaceleração gradual e um comitê visivelmente dividido.

O presidente Donald Trump foi explícito ao escolher Warsh sobre a expectativa de cortes de juros, mas o mercado aponta na direção contrária.

O principal desafio de Warsh será convencer seus colegas de que os ganhos de produtividade impulsionados pela inteligência artificial serão suficientemente desinflacionários para compensar o choque de energia — argumento que encontra ceticismo considerável dentro do próprio FOMC.

Powell, por sua vez, optou por permanecer no Conselho de Governadores, onde tem mais dois anos de mandato, numa situação sem precedentes nos últimos 80 anos da história do banco central americano.