A ata da 279ª reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira (23), trouxe mais detalhes sobre a argumentação que embasou o corte de 25 pontos-base na taxa Selic, de 14,50% para 14,25%. Contudo, para o economista Étore Sanchez, da Ativa Investimentos, a argumentação apresentada pelo Banco Central é “bem frágil”, ainda que deva ser suficiente para acalmar parte dos agentes de mercado.
Sanchez avalia que a ata desenhou uma conjuntura claramente hawkish, inclusive com a classificação do balanço de riscos com assimetria altista — informação que, por algum motivo, havia sido omitida no comunicado divulgado na semana passada.
Entretanto, a reversão dovish aparece no 21º parágrafo do documento, quando a autoridade coloca à mesa incertezas classificadas como “em níveis historicamente elevados”.
BC recorre ao livro-texto para justificar o corte
Sob essa lógica, o Banco Central busca conceitos do livro-texto de política monetária, que recomenda não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta.
Com isso, a autoridade tenta justificar o afrouxamento de 25 pontos-base na última reunião, mas finaliza com um recado relativamente mais duro, alegando que a calibração do ciclo se dará à luz da evolução do cenário, já considerando a assimetria altista.
É interessante notar, segundo Sanchez, que os exercícios promovidos pelo BC para encontrar o ponto necessário para a convergência da inflação à meta exigiam altas relevantes de juros, que posteriormente trariam um undershooting da inflação.
Portanto, entre subir e ter que cortar intensamente — introduzindo volatilidade ao mercado —, o BC preferiu cortar vagarosamente, mesmo diante de uma conjuntura mais dura.
Preferência por cortes graduais fica evidente
Fica claro, na leitura do economista, que mesmo diante de uma conjuntura mais adversa, a autoridade tem preferência por seguir cortando, diante do elevado estoque de restrição de política monetária.
A ata também cita preferência por ciclos que alternam pausas e retomadas de calibração — cenário desenhado no contexto pré-solução do conflito no Oriente Médio.
Contudo, o cenário do petróleo hoje está bem mais benigno do que estava na referência da reunião. Somado à inclinação dovish do BC, esse fator leva a Ativa a projetar afrouxamento contínuo da Selic nas próximas reuniões, sem as interrupções previstas anteriormente.
Sanchez também destaca que a ata não trouxe o confuso parágrafo inserido no comunicado sobre a “rolagem antecipada do horizonte relevante” — e que, em nenhum momento do extenso texto, é possível depreender o que a autoridade quis dizer com aquela passagem.
Diante da convergência do preço do petróleo para a projeção da Ativa de cerca de US$ 80 por barril, o economista sustenta a perspectiva de afrouxamento, mas com ritmo mais brando.
A projeção é de corte de 25 pontos-base na próxima reunião, passando a acelerar para reduções de 50 pontos-base apenas após a consolidação de um cenário mais acomodatício. Portanto, a Ativa prevê que 2026 será encerrado com a Selic a 12,50%.
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