O Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou nesta quinta-feira (21) mais um desembolso para a Argentina no âmbito do acordo de Mecanismo de Financiamento Ampliado (EFF), liberando cerca de US$ 1 bilhão de forma imediata.
Com isso, o total desembolsado ao país desde a aprovação do acordo, em 11 de abril de 2025, chega a aproximadamente US$ 15,8 bilhões — de um total de US$ 21 bilhões disponíveis no programa. A decisão reforça o respaldo externo ao plano econômico do governo Milei em um momento de recuperação gradual da atividade.
O suporte do FMI ocorre em paralelo a uma expectativa crescente do mercado por novas elevações de rating soberano da Argentina.
Segundo o economista Sebastian Rondeau, do Bank of America, “os investidores estão monitorando uma potencial elevação adicional de rating, possivelmente pela Moody’s em junho ou pela Standard & Poor’s, após o upgrade da Fitch para B- a partir de CCC+”.
A progressão nos ratings soberanos seria um catalisador relevante para os ativos argentinos, ampliando o acesso do país ao mercado de capitais internacional.
Boom de exportações sustenta câmbio e contas externas
O principal pilar de otimismo identificado pelo BofA em sua viagem a Buenos Aires é o boom exportador, liderado pelo setor de energia e preços mais altos de commodities.
“Os economistas que encontramos destacaram o forte crescimento das exportações em meio ao boom de energia e aos maiores preços de commodities. O sólido pipeline de investimentos em mineração e o crescimento adicional em energia devem intensificar o boom exportador pelos próximos sete anos”, relata Sebastian Rondeau.
O saldo da balança comercial de energia já soma US$ 9 bilhões nos últimos 12 meses, com produção de petróleo podendo crescer mais de 200 mil barris por dia ao ano em 2027-2028 à medida que investimentos em infraestrutura removem gargalos. Projetos de GNL até o final de 2027 devem acelerar ainda mais a melhora na balança comercial.
Atividade em recuperação, mas crescimento desigual
A desaceleração do PIB no início do ano gerou algum ruído político.
“Os economistas mencionaram que o crescimento desacelerou principalmente devido ao choque financeiro às vésperas das eleições, que afetou o crédito e elevou a inadimplência, especialmente entre os consumidores”, explica Rondeau.
A expectativa é de recuperação para 2,5% de crescimento no ano, puxada pelos setores exportadores e pela queda acentuada nas taxas de juros. A construção ainda enfrenta excesso de estoque habitacional, e o padrão de crescimento segue desigual entre setores e regiões — uma das “nuvens” apontadas pelo banco.

Popularidade de Milei e perspectiva eleitoral
O cenário político foi avaliado com cautela. Um analista político consultado pelo BofA em Buenos Aires destacou que a desaceleração da atividade e a inflação até março afetaram os índices de aprovação de Milei.
“A popularidade de Milei permanece moderadamente alta, e a esperada desinflação aliada à recuperação do crescimento deve apoiar as chances de reeleição do governo no ano que vem”, aponta Sebastian Rondeau.
Há consenso amplo de que, independentemente do resultado das eleições de 2027, a Argentina estará em posição melhor do que há quatro anos, dado o fortalecimento das exportações e a maior consciência fiscal. O economista do BofA também destaca que o governo deve buscar acordos de governabilidade com governadores para pavimentar o caminho político à frente.
Fiscal e desinflação: credibilidade mantida
Na frente fiscal, o compromisso com o déficit zero segue firme, segundo os economistas consultados. A inflação atingiu pico de 3,4% mensais em meio a uma sequência de choques de preços relativos — carne, tarifas de energia e combustíveis — mas a tendência é de queda.
“A disciplina fiscal deve sustentar a desinflação à frente, embora o ritmo permaneça incerto”, avalia Rondeau.
O Banco Central argentino (BCRA) já acumulou cerca de US$ 8 bilhões em reservas internacionais no ano, com risco de superar a meta acordada com o FMI — o que poderia levar a uma valorização adicional do câmbio real e criar pressão sobre alguns setores da economia.






